O estudo revela que na maior favela do país, a Rocinha, no Rio, apenas 12,1% dos moradores vivem em vias com calçadasReprodução
As informações fazem parte do suplemento Favelas e comunidades urbanas: características urbanísticas do entorno dos domicílios, divulgado nesta sexta-feira (5) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados foram coletados durante o Censo 2022.
O levantamento mostra que 93,4% das pessoas que moram fora de favelas residem em ruas que podem receber caminhões, ônibus e veículos de carga. Entre moradores de comunidades, apenas 62% habitam vias com essa capacidade.
O chefe do Setor de Pesquisas Territoriais do IBGE, Filipe Borsani, destaca que para 38% dos moradores de favelas, as vias tornam-se um impeditivo para o acesso a serviços.
“Isso significa a dificuldade de acesso a certos serviços públicos. Não passa um caminhão de lixo, por exemplo”, diz.
O Brasil tinha 16,4 milhões de habitantes em 12.348 favelas em 2022. Eles moravam em 6,56 milhões de domicílios, conforme já havia divulgado o IBGE em novembro de 2024.
O instituto considera como vias os becos, vielas, escadarias, palafitas, entre outros locais. Ao fazer comparações, o instituto leva em conta apenas a população dos 656 municípios que têm registro de existência de favelas.
Presença de calçadas
O IBGE constatou que em comunidades de até 2,5 mil moradores, a parcela dos que têm calçadas no endereço beira os 50%. Nas favelas com mais de 10 mil habitantes, a proporção salta para 61,4%.
O estudo revela, no entanto, que na maior favela do país, a Rocinha, no Rio de Janeiro, apenas 12,1% dos moradores vivem em vias com calçadas.
Os pesquisadores buscaram também dados sobre a existência de calçadas sem obstáculos que impeçam ou criem dificuldade de locomoção.
Fora das favelas, 22,3% dos moradores residiam em vias com calçadas sem obstáculos. Nas favelas, a proporção despencava para apenas 3,8%, ou seja, somente 611,4 mil pessoas.
Na Rocinha, somente 0,1% dos moradores tinha domicílios em vias com calçadas sem obstáculos.
A presença de rampa para cadeirantes também era reduzida. Fora das favelas, 18,5% dos habitantes têm rampa no entorno de casa. Enquanto nelas, apenas 2,4%.
Pavimentação
A pesquisa mostra que, nas favelas, 78,3% dos moradores tinham no entorno do domicílio via pavimentada. Fora delas, o percentual sobe para 91,8%.
A presença de pavimentação é crescente à medida que as favelas ficam mais populosas. Nas comunidades com até 2,5 mil habitantes, 65,8% dos moradores tinham pavimentação no entorno de casa. Nas com mais de 10 mil pessoas, a parcela subia para 86,7%.
Ao observar os dados por unidades da federação (UF), a pesquisa mostra que a Bahia apresenta situação singular. É a única UF em que a parcela de moradores de favelas (92,1%) em vias pavimentadas supera a de áreas fora das favelas (89,7%).
O analista Filipe Borsani sugere que essa singularidade pode estar ligada à característica de “autoconstrução” das comunidades.
“Até que ponto a própria população foi responsável por pavimentar alguns trechos de vias que foram analisados?”, sugere.
Iluminação e transporte
O Censo revela que 91,1% dos moradores tinham endereço em trecho de rua com ponto de luz. Fora das favelas, esse percentual sobe a 98,5%.
Apesar da presença da estrutura de iluminação ao redor do domicílio de nove em cada dez habitantes de comunidades brasileiras, na Rocinha, a maior do país, essa marca recuava para 54,3%.
Nas favelas de Belém, cidade que sediou a COP30 em novembro, 65,2% dos moradores não tinham árvore na frente de casa, marca superior à da média nacional (64,6%).
. Uma a duas árvores na via: 17,8% dos moradores nessa condição
. Três a quatro árvores: 7,1%
. Cinco ou mais árvores: 10,5%
Fora das favelas, 33,5% dos moradores tinham cinco ou mais árvores perto de casa.
A pesquisa identificou que, quanto menos populosa a comunidade, maior a proporção de moradores com árvore na frente de casa.
Ao detalhar informações das 20 maiores favelas do país, o instituto aponta que a pior situação é de Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, quinta mais populosa do Brasil. Apenas 3,5% dos quase 56 mil moradores têm árvore na frente de casa.
“É possível observar que existe, por parte do poder público, uma intensidade em promover esses equipamentos em alguns espaços e em outros não”, avalia.
A gerente de Favelas e Comunidades Urbanas do IBGE, Leticia Giannella, acredita que os dados da pesquisa podem subsidiar pleitos da sociedade.
“Que sejam instrumentos para reivindicação por melhorias, tanto pelas populações e pelas organizações locais, que possam se apropriar efetivamente desses dados para poder reivindicar melhorias, para que deixe de ser uma oferta precária ou incompleta de serviços e equipamentos feitos pelo Estado”, diz.
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