Foi encantadora a forma como ela traduziu sua emoção ao contar que inundou a casa e, depois, a cidade, ao receber a melodia e, posteriormente, a letra de 'Paulistana Sabiá', de Guinga, que também estava por láArte de Kiko com fotos de Laura Calheiros/ Divulgação

"Vocês vieram!", exclamou Mônica Salmaso, já no palco, ao ver o Teatro Riachuelo lotado, no dia 2 de setembro, uma terça-feira à noite. Da plateia daquele espaço histórico no Centro do Rio, eu me encantei com o seu modo de falar, revelando certo espanto, mesmo com os ingressos esgotados para o show 'Minha Casa'. Sinto que a felicidade nos surpreende quando vira realidade, por mais expectativa que tenhamos sobre ela. Como é bom não perder o fascínio diante de coisas boas!

Antes de começar a cantar, Mônica contou que prefere falar dos efeitos da pandemia em sua vida em vez de deixar o passado em um cantinho, sem conversar com ele. Logo por esse início, eu me identifiquei com ela. Eu também sou essa pessoa que resgata o já vivido em vez de virar as costas para ele. Inclusive, havia visto a cantora no palco ao lado de Chico Buarque em 2023, na turnê 'Que tal um samba?', que ela comparou à magia do conto de fadas da Cinderela.
A intérprete seguiu unindo belas letras e boa prosa. Deu espaço a todos os músicos presentes no palco — Tiago Costa (piano), Neymar Dias (viola caipira e contrabaixo), Lulinha Alencar (acordeon), Ari Colares (percussão), Ricardo Mosca (bateria) e Teco Cardoso (flauta e saxofone) — e enalteceu os autores das letras que ela entoa. Explicou que não é uma compositora e, por isso, o seu trabalho e o seu amor vêm do que os outros fazem. É também lindo esse gesto de reconhecer que o outro também nos ajuda a crescer.

Em diversos momentos, quis anotar o que me chamava a atenção no show. Queria também poder fotografar vários instantes poéticos, como o que Mônica pegou um livro, colocou os óculos para leitura e declamou parte de um poema. Na impossibilidade de sair anotando tudo, resolvi deixar que a minha memória guardasse aquele espetáculo da forma que mais sabe fazer: guiada pelo afeto. Assim, tive a certeza de que não me esqueceria do pequeno móvel de madeira no palco. Em cima dele, havia um jarro com flores. E aquele cantinho me remeteu à ideia de casa, tornando aquele palco ainda mais aconchegante. Também eram lindos os figurinos que Mônica usou: dois vestidos plissados, dando uma ideia de fluidez e leveza. O primeiro, em um tom rosa claro, era acompanhado por uma espécie de blazer assimétrico branco. O segundo, na cor vermelha, era adornado por flores que formavam um grande colar.

Guiada pela emoção, guardei também o momento em que Mônica contou sobre o dia em que se deparou com o LP da novela 'Para viver um grande amor', que trazia na capa a fotografia do cantor Djavan com a atriz Patrícia Pillar. Foi poético ver a maneira como ela conta histórias da vida. Eu mergulhei naquele mundo revelado por ela, como nos bons e velhos telefonemas feitos por Dori Caymmi, presente na plateia. Foi encantadora a forma como ela traduziu sua emoção ao contar que inundou a casa e, depois, a cidade, ao receber a melodia e, posteriormente, a letra de 'Paulistana Sabiá', de Guinga, que também estava por lá. Em tempos tão áridos, as metáforas simbolizam respiros de beleza. Fiquei pensando que há tantas formas de dizer que choramos e, geralmente, nos apegamos a somente uma delas.

O jeito como Mônica abordou o tempo também me atraiu. Ela disse não saber se o intervalo entre receber a melodia e a letra, durante a pandemia, havia durado dias, semanas, meses ou anos. Afinal, aqueles momentos mudaram nossa percepção do relógio. Contou ainda que, certa vez, foi atraída durante meses por uma música no Instagram, traduzindo certos instantes que perduram dentro da gente. Foi o que aconteceu comigo naquela noite. Senti que aquele espetáculo ultrapassou bem mais de 1h30 no meu coração.

Entre tantas lindas canções que embalaram aquela noite, compostas por Milton Nascimento, Chico Buarque, Clementina de Jesus e tantos outros, escolho 'Santa Voz', de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, para legitimar o brilho da intérprete: " Toda voz quando canta é santa/ Todo canto é uma nova oração ".