Aristóteles DrummondAristóteles Drummond

Para quem acompanha a vida política do Brasil, vendo que sobrevivem homens públicos cordiais como os ex-presidentes Michel Temer, José Sarney, Fernando Henrique e muitos governadores, chega a ser chocante o tratamento descortês e frio que o ex-presidente Bolsonaro dedica a aliados preciosos na eleição e na campanha da reeleição.

Além dos governadores Romeu Zema, Ratinho Junior é Ronaldo Caiado, o senador Esperidião Amim também é alvo da brutal desconsideração daquele que se pretende ser o líder das forças do centro e centro-direita. Bolsonaro decidiu sem consultar ninguém indicar o próprio filho para candidato à sucessão, sem ter dado uma palavra de explicação aos demais postulantes à candidatura do segmento. Tarcísio de Freitas, candidato natural e mais viável, soube da decisão pela imprensa e teve de engolir o tratamento dado como se ele fosse um subalterno. Já o senador Esperidião Amim, respeitado político de longa vida pública e aliado da primeira hora, foi jogado ao mar em favor de um filho de Bolsonaro que fez carreira medíocre na política carioca, que entrou afastando a mãe, então vereadora que não se reelegeu, impondo sua candidatura ao Senado por Santa Catarina, unidade da federação com povo entre os mais politizados e empreendedores do país.

Ao longo do processo que o levou à condenação e à prisão, Bolsonaro foi incapaz de assumir responsabilidades e isentar os ilustres oficiais que atenderam a seus chamados para reuniões estranhas no Alvorada. E nem em relação ao General Augusto Heleno, que nunca participou de nada após o resultado eleitoral.

Na montagem da chapa majoritária em São Paulo, não seria surpresa que o atual governador acabasse por desistir até da reeleição. O filho candidato vai querer mandar na escolha do vice e da chapa ao Senado, desmoralizando o governador, que parece homem de bem, sem vaidades e aspirações. O mesmo deve ocorrer em outros estados. O presidente Lula e seus companheiros assistem com prazer estas manifestações de um líder popular cujo projeto se limita a ser familiar. Um filho candidato a presidente, um a senador, outro a federal, o quarto que vive fora e proclama que será o futuro chanceler, e um irmão que surgiu candidato a deputado federal, além da mulher, que parece ser uma ilha de bom senso no grupo familiar.
O Canal Livre da Band que reuniu Caiado, Ratinho e Eduardo Leite foi um show de categoria, conhecimento do Brasil. Não é possível que o centro e a direita prefiram candidato cujo projeto é anistiar o pai.
Muita água vai correr debaixo da ponte até o dia da eleição. É capaz de surgir um raio de bom senso nas forças vivas da nação que afaste esta liderança que não sabe agregar e conciliar, que gosta de mandar e desconsiderar. O país anda pobre de quadros, mas a sociedade busca um resgate de valores de boas práticas na vida pública. A eleição deste ano será, talvez, a definidora do nosso futuro.