Arte coluna Opinião 22 janeiro 2026_versao onlineArte Paulo Márcio

“A palavra amor anda vazia. Não tem gente dentro dela.”
Manoel de Barros
Houve um tempo em que, atendendo a pedidos de alguns amigos, pensei em escrever algumas histórias de uma vida interessante, bem-humorada, intensa e vivida. Descobri, aos poucos, que a maioria das pessoas não se permite viver. Sempre me entreguei à vida e, até por isso, fui acumulando inúmeros casos que, se contados com algum charme e pitadas de acréscimos que o tempo permite, certamente dariam um caldo. Comecei pelo fim. Antes de sentar e escrever, pensei no título do livro. Logo veio “Confesso que vivi”, mas, claro, Pablo Neruda já havia vivido antes. Em tom de blague e, meio que para provocar, lembrei-me de “Confesso que bebi”, mas o genial Jaguar já havia bebido antes. Notei que, até escolher um título que fizesse jus às histórias, era difícil. E que talvez o ideal fosse esperar viver mais, deixar que o tempo entre o vivido e o contado assentasse.
Na minha infância e adolescência, no interior de Minas Gerais, eu sentia que o tempo parecia ter outra escala. Havia uma consciência, quase física, palpável, do passar dos dias e das noites. A gente podia planejar, até porque não ia acontecer muita coisa midiática capaz de causar abalo. Não havia televisão em casa, telefone celular, WhatsApp ou Google. Um fato importante e dramático que ocorresse no Rio de Janeiro ou em São Paulo, quando chegasse em Minas, já era velho. Se ocorrido na Europa, nem chegava. E os do dia a dia, em Patos de Minas, andavam a pé, devagarinho, ou de bicicleta, lentamente.
Talvez por isso, os livros fossem mais presentes e as pessoas tivessem mais tempo para eles. Eles, os livros, de alguma maneira, eram os que faziam a conexão com o passado e a ponte para o futuro. A poesia era o passaporte para os sonhos e para as fugas. Eram tempos de escrever cartas e de marcar hora para ir à companhia telefônica pedir um interurbano. A televisão ficava em um caixote na praça da cidade e um funcionário da prefeitura tinha a chave para liberar por 1 ou 2 horas por noite. E todos tinham tempo para ficar sem fazer nada. Nem era tão valorizado o permitir-se nada fazer; era natural. Hoje, até o ócio precisa ser programado. Virou moeda de luxo, quase um privilégio. Caríssimo.
Minha cidade no interior de Minas só tinha um prédio, de 6 andares. Andar no elevador era um acontecimento. Ser amigo do porteiro, um luxo. Certa vez, uma menina linda de São Paulo foi passar férias em Patos de Minas. Eu não conhecia São Paulo nem o Rio de Janeiro. Para impressioná-la, combinei com o porteiro que levaria uma amiga para passear de elevador. Convidei a moça e entrei feliz naquela caixa com porta pantográfica. Notei que ela não estava emocionada, apenas curiosa comigo. Perguntei se ela morava em casa ou prédio. Ela, candidamente, respondeu que morava em um apartamento. No 29º andar. Felizmente, o elevador era lento e eu tive tempo de inventar uma história romântica e triste até o 6º andar, onde descemos para eu mostrar a vista da cidade. E ela encantou-se. Eram tempos divertidos. Espirituosos.
Hoje, vivemos um tempo de desalento preocupante. A mídia 24 horas, as notícias falsas que impressionam, a tal inteligência artificial, as dúvidas sobre o que você recebe, até mesmo sobre você, as mensagens curtas, o WhatsApp como forma de comunicação, o resumo simplificado que substituiu a leitura e ganhou ares de profundidade. O empobrecimento intelectual. O olhar do outro foi substituído pelas telas dos aplicativos de comunicação e do computador. Um certo orgulho, com empáfia, da ignorância.
Um tempo que fez com que Bolsonaro fosse eleito Presidente da República. Um inepto absoluto. Um amante e cultor da tortura. Um inimigo da cultura, da arte, dos livros e da leitura. Uma derrota para o humanismo. Esqueçam a política e os milicianos. É ainda mais grave. É devastador. Um medíocre que sonha em se equiparar ao seu ídolo, o Trump. Esse inexplicável Presidente dos EUA que teima em colocar em risco a paz mundial. Que, ao rasgar tratados e fronteiras, tenta se impor como imperador do mundo. Chega ao cúmulo do ridículo de aceitar um Prêmio Nobel de segunda mão, das mãos da María Corina, líder da oposição venezuelana, em uma desmoralização completa desse prêmio, e anunciar, por escrito, que não se vê mais obrigado a pensar na paz, pois a Noruega não lhe concedeu a honraria. E promete invadir a Groenlândia. São tristes estes nossos tempos.
Remeto-me ao poetinha Vinícius de Moraes, na canção Como dizia o Poeta:
“Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay