Opionião 11-06-2026Arte O DIa
“Isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além.”
Paulo Leminski
Paulo Leminski
O meu querido Duda Mendonça gostava de contar que, certa vez, estava numa rinha de galos quando chegou um amigo pouco antes de começar uma briga. Havia 2 galos para lutar, um branco e um malhado. O amigo, querendo apostar, perguntou: “Qual deles é o bom?”. Duda respondeu: “O bom é o malhado”. Então ele apostou muito dinheiro no malhado. Começou a luta e, em segundos, o branco matou o malhado com suas esporas e suas bicadas. O apostador, perplexo, indagou: “Mas o galo malhado não era o bom?”; ao que Duda explicou: “Ele era o bom, o branco é o malvado”.
Estamos todos na expectativa pelo início da Copa do Mundo de futebol. Mesmo para quem não aprecia muito futebol, a Copa é uma festa. Para quem gosta, é um espetáculo. Para o Brasil, é um show à parte. O país para. Ainda que tenhamos perdido, em parte, a fascinação pela seleção brasileira, quando começam os jogos, viramos todos torcedores. E a mítica da camisa verde e amarela nos transporta aos estádios. É como se todos, de alguma maneira, nos confundíssemos com cada jogador, esquecendo um pouco as rivalidades clubísticas. A expressão do grande Nelson Rodrigues, segundo a qual o Brasil, com a seleção brasileira, é “a pátria de chuteiras”, define o espírito.
Neste ano, recebi vários convites para acompanhar a seleção brasileira nos EUA. Alguns tentadores, incluindo passagens, hospedagem, camarotes e tais. Mas, desde o início, resolvi que não iria, pois tenho preocupação com a postura do governo fascista de Trump. Até brinquei: sabendo que, se eu fosse barrado na imigração, iriam me deportar imediatamente, teria um certo charme, uma bela história para contar. O problema é Guantánamo, é o presídio de Alcatraz. E, certamente, os abusos acontecerão. E a FIFA não terá coragem nem autonomia para se impor diante das arbitrariedades dos EUA.
Nem começou a Copa, e a imigração norte-americana já barrou o árbitro somali Omar Artan. A FIFA, conforme previsto, confirmou que o juiz não participará da Copa do Mundo. Simplesmente declarou que não interfere nos processos de imigração dos anfitriões. Ele foi eleito o melhor da Confederação Africana de Futebol em 2025 e está nos quadros da FIFA desde 2018. Artan, de 34 anos, seria o primeiro do seu país a apitar numa Copa do Mundo.
As cenas da polícia norte-americana revistando, de maneira humilhante, a delegação do Senegal, ainda na pista do aeroporto, logo após a aterrissagem do avião, demonstram a arrogância dos agentes dos EUA. Não é uma revista comum, de rotina. É para humilhar e assustar. A notícia de que os EUA simplesmente revogaram todos os ingressos dos torcedores do Irã demonstra o grau de violência que iremos acompanhar durante o mundial.
Uma notícia estarrecedora foi confirmada pelas autoridades, com o silêncio cúmplice da FIFA: a seleção do Irã vai conseguir visto de entrada nos EUA, mas com a restrição de não poder pernoitar em território norte-americano. Ou seja, os jogadores terão que ficar hospedados em Tijuana, no México, e viajarão apenas nos dias dos jogos, tendo de voltar imediatamente ao México! É a manifestação mais expressiva de desprezo pelo espírito esportivo.
Já constam nas redes sociais casos em que as autoridades de imigração dos EUA ou retiveram por longas horas, para interrogatório, ou mesmo barraram vários profissionais de imprensa às vésperas do começo da Copa do Mundo, como o caso do fotógrafo da seleção do Iraque, deportado após 10 horas de interrogatório.
Quando questionei alguns amigos que estão indo ao mundial, a resposta foi sempre que isso certamente não ocorrerá com os brasileiros. E se não é conosco, não devemos nos preocupar. Essa postura de certa indiferença, senão cumplicidade, diante das violências da imigração norte-americana entristece e mostra quem é quem no mundo das empatias e das humanidades.
Eu, que adoro futebol, estarei torcendo aqui, da poltrona de casa ou de algum bar. Porém, mesmo querendo muito acompanhar a seleção brasileira, não consigo engolir a postura de simplesmente ignorar os abusos desse país em decadência.
Remeto-me ao surrado poema No Caminho, com Maiakóvski, de Eduardo Alves da Costa:
“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay



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