De 2019 a 2024, o número de empresas verdes aumentou 20,4% no Brasil; em sua maioria, são pequenos negóciosAgência Sebrae de Notícias
Era fim de tarde quando Marina decidiu, pela primeira vez, desligar o computador mais cedo. Tinha passado meses ruminando a mesma dúvida: seguir no emprego estável que lhe pagava as contas ou apostar no pequeno negócio que não saía da sua cabeça — uma oficina de reparo de eletroeletrônicos com foco na economia circular. A ideia parecia simples demais para tanta hesitação: consertar o que ainda tem vida útil, devolver ao mundo o que o consumo rápido insiste em descartar. Naquele dia, ela apertou “enviar” no pedido de abertura do MEI e, sem perceber, passou a fazer parte de um movimento silencioso que hoje cresce pelas ruas do país.
A história de Marina não é incomum. O Brasil vive uma expansão notável de empresas verdes, especialmente nos últimos cinco anos. Segundo um levantamento recente do Sebrae, baseado nos registros da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), entre 2019 e 2024 o número de negócios classificados como verdes cresceu 20,4%. É um salto que revela mais do que estatística: mostra uma mudança cultural, um novo olhar para o jeito de produzir, consumir e cuidar do que já existe. Hoje, são 1,8 milhão de CNPJs ativos nessa categoria — e a esmagadora maioria, 95,8%, pertence a pequenos negócios como o de Marina.
A força desse universo está, sobretudo, nos microempreendedores individuais, responsáveis por 60% de todos os empreendimentos verdes do país. Eles dominam as fases iniciais — 84,4% dos negócios nascentes e quase 80% dos que estão no começo da operação — enquanto, entre as empresas já estabelecidas, há um equilíbrio maior entre MEIs e micro e pequenas empresas. Esse detalhe diz muito sobre o espírito do setor: começa pequeno, cresce devagar, mas cresce com firmeza.
Ao contrário do que se imagina, o segmento verde não se resume às startups tecnológicas ou a iniciativas de reflorestamento. O maior volume de CNAEs está no cotidiano mais prosaico: manutenção e reparo. Oficinas de carros e motos, lojas que consertam computadores, técnicos que recuperam máquinas, eletroeletrônicos e até objetos domésticos. Somadas, essas atividades representam 64% de todas as empresas verdes ativas. É a urgência da economia circular aparecendo não em discursos, mas em chaves de fenda, placas de circuito e peças reaproveitadas.
Outro ramo que cresce com robustez é o do transporte coletivo e escolar, que responde por cerca de 9,6% dos negócios verdes. Não é coincidência: cidades mais populosas demandam soluções coletivas, menos poluentes e mais eficientes. E é justamente no ambiente urbano que esse movimento se concentra — o Sudeste lidera com folga o número absoluto de pequenos negócios verdes. São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro puxam a fila. Rio e Belo Horizonte também figuram entre os principais polos, reforçando a vocação de centros urbanos para a inovação sustentável.
Por trás das estatísticas, há uma mudança mais profunda — quase imperceptível na correria dos dias, mas impossível de ignorar quando se olha o conjunto. O crescimento das empresas verdes mostra que a sustentabilidade deixou de ser um assunto de nicho, uma pauta restrita a especialistas ou ambientalistas. Virou prática econômica, virou oportunidade, virou trabalho. E, no fundo, virou um jeito de lembrar que desenvolvimento não precisa ser sinônimo de desperdício.
Talvez Marina ainda pense, em dias de pouca clientela, se tomou a decisão certa. Mas, quando entrega um rádio antigo funcionando outra vez ou devolve vida a um aparelho que alguém julgava perdido, ela entende que faz parte de algo maior. Algo que, silenciosamente, está redesenhando o mapa dos pequenos negócios no Brasil. E, quem sabe, quando olharmos para trás daqui a alguns anos, descobriremos que foi justamente nessas escolhas discretas que começou a virada verde do país.

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