Inspirados nesse vendaval — não de ventos fortes, mas de campeonatos: Brasileirão, Copa do Brasil, Libertadores, Sul-Americana... —, criamos o campeonato aguasantense de jogo de botão. Por que o botão? Um amigo até sugeriu o tradicional jogo de bola de gude, mas não temos mais joelhos para tanto, e o bom do jogo de botão é que dá para vestir a camisa sem ter que correr quilômetros, trombar com os outros e ainda escapar das pernadas dos adversários. E o público é bem mais seleto e pacífico: em geral, alguns amigos e um punhado de parentes.
Júlio, que é um sujeito mais prático, sugeriu inclusive que fosse outro tipo de campeonato, um pouco menos esportivo, mas, com certeza, bem mais disputado:
— E se fizéssemos o campeonato dos comilões? Ganha quem comer mais ou melhor.
Começou a discussão. Comer mais pode implicar desde o peso, quantidade ou até mesmo a natureza do que está sendo deglutido. Vou dar um exemplo de algo que aconteceu há alguns anos com o amigo Braga: ele e a mulher (a Lelê) viajaram para o Chile. Terra encantadora. País de inúmeras iguarias, com influências indígenas e europeias, destacando-se por frutos do mar frescos do Oceano Pacífico e carnes. Mas o problema ali nunca foi o cardápio, mas o idioma. Safos, os amigos perguntaram a um taxista onde poderiam comer bem. O sujeito, solícito, não teve dúvidas: levou os amigos diretamente para um lugar que mais parecia uma rodoviária, cercado de pequeníssimos restaurantes por todos os lados. E uma fila imensa também.
— Deve ser muito bom, apesar da aparência, pelo tamanho das filas — comentou Ronaldo.Só quando finalmente chegou a vez deles é que perceberam o erro de linguagem.
Os pratos eram montanhas de comida, carregadas de gorduras, que tinham como acompanhamento refrigerantes de dois litros.— Comer bem quer dizer, então, comer muito? Precisamos melhorar nossa comunicação! — concluiu a amiga.
Ibiapina, lembrando a condição de dieta de alguns do grupo, como eu, por exemplo, sugeriu que a competição ficasse restrita ao cardápio principal da caverna: o churrasco. Aí veio o segundo “senão” do dia. Nelson lembrou que a previsão para a semana seria novamente de ventos fortes, desses de arrastar veteranos de Água Santa.
— Temos o veranico até domingo, mas também tem a tal ventania que está prevista para visitar a cidade no fim de semana — afirmou, e sugeriu: — É melhor transferir a churrascada para a varanda; afinal, ninguém quer um galho caindo em cima de um velho desavisado.
Resolvido isso, voltamos para nossa disposição de criar um campeonato esportivo.
— E se tentássemos o baralho?
— Mas, com o corredor de vento, as cartas podem voar.
— Ok, então por que não os dardos?
— Não quero nenhum deles acertando um pássaro ou minha cachorra — alertei.
— Pião, nem pensar, segue o mesmo princípio das bolas de gude.
Bem, após muita discussão, o vizinho de boreste sugeriu um torneio de porrinha, que também não foi aprovado. Ficou mesmo o de botão, em um tabuleiro na altura da cintura. Claro, ninguém iria forçar a coluna. Pronto. Logo o Fred construiu um tabuleiro de uns 2 por 2 metros. E ficamos entretidos com os comes e bebes, sem farofa. Afinal, ela poderia ser levada ao vento. Logo ficou patente que precisávamos de mais dois tabuleiros; assim, todos jogariam ao mesmo tempo.
O difícil foi ficar longe da churrasqueira!

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