Andressa Hayalla vem chamando a atenção na cena de pagode - Divulgação
Andressa Hayalla vem chamando a atenção na cena de pagodeDivulgação
Por THIAGO ANTUNES

Rio - Fazer arte enquanto inspiração e potencialização para outras mulheres negras. Esse é o objetivo de Andressa Hayalla, voz de destaque do pagode atual, que vem chamando a atenção de novos e veteranos expoentes da música brasileira e prepara seu primeiro EP, previsto para depois do segundo semestre. Aos 24 anos, a ex-participante do The Voice Brasil (por duas vezes), natural de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, abraçou o gênero após uma longa experiência com a música gospel — cujas apresentações com a falecida tia serviram de base para encontrar seu canto e perseguir seu sonho.

Em entrevista ao DIA, a cantora relembra o início precoce na vida artística, fala de inspirações, dos frutos de participar do reality musical e o que espera do futuro.

Como começou na música?

Eu comecei com 4 anos, cantando na igreja. Eu participava no coral de crianças e logo em seguida eu comecei a cantar com a minha tia, Jura Voz. Dos 4 até os 10, 11 anos, eu cantava com ela, que era bem conhecida no meio. Quase toda a minha trajetória antes de entrar no The Voice Brasil foi no meio gospel, onde aprendi a colocar minha voz, ter domínio do palco e conheci outras pessoas, estúdios. Sem dúvida eu não teria entrado na música sem a minha tia e nem dado meus primeiros passos no mundo da música. Fiz backing vocal para ela e alguns cantores, como Gisele Nascimento e Álvaro Tito. Aprendi muito sobre técnica vocal e fui evoluindo. 

A morte de sua tia também representou quase um encerramento da sua carreira, não (Jura faleceu em 2017)?

Foi bem difícil. Ela faleceu alguns meses antes de eu receber a segunda confirmação para o The Voice Brasil e pensei em desistir de tudo. Mas minha família me deu força e resolvemos seguir.

Antes desse momento no The Voice, como se deu sua ligação com a música, especificamente o pagode?

A minha família sempre teve músicos e sempre teve movimentos muito grandes com o samba, com escolas de samba, por exemplo. Meu avô foi mestre-sala da Mangueira e minha mãe sempre gostou muito de pagode e samba, então era natural ouvir Jorge Aragão, Alcione, Péricles e outros grandes nomes desse gênero em casa. Direta e indiretamente, esses movimentos de cantar na igreja e ouvir samba sempre caminharam juntos. Eu e grande parte da família somos evangélicos e sempre ouvimos samba e pagode. Então essa ligação, para mim, é muito natural.

E quando viver de música começou a ser um horizonte?

Fui fazer faculdade de Recursos Humanos em Brasília, me formei e comecei a trabalhar em uma casa de festas. Fui fazer uma apresentação de um casamento, e me pediram que eu cantasse. Acabaram me descobrindo após a apresentação. O pessoal da CM Produções me descobriu e aí comecei a cantar outras coisas com uma banda em cerimoniais e eventos corporativos. Quando decidi me inscrever no The Voice, na minha primeira participação, cheguei até a fase dos jurados cantando MPB e pop, mas sem me encontrar muito. Aí comecei a repensar a carreira para algo que eu gostasse, que combinasse comigo. Dessa forma, comecei a trazer o pagode o samba, o pagode e fui me adequando ao estilo. 

E como foram as participações no programa?

Na primeira vez, em 2016, nenhum dos jurados virou a cadeira. Decidi continuar após ser aprovada no fim de 2017 para as eliminatórias, mesmo após a morte da minha tia. Dessa vez, cantei Paciência, uma música que o Ferrugem faz com a Alcione. As cadeiras viraram e fui para o time da Ivete Sangalo. Cheguei a integrar o time do Michel Teló, mas fui eliminada depois. E, logo depois dessa apresentação no programa, o Ferrugem me chamou para repetir Paciência em um show dele aqui no Rio, e a recepção foi muito boa, foi como se a chave virasse, representou muita coisa para mim. Paralelamente, a Ivete me chamou para participar de seu show, no Canta Niterói, e me elogiou bastante. Não esperava por isso e fiquei muito contente e agradecida. Outro ponto de virada foi quando comecei a cantar Final de Tarde, do Péricles. Foi através da música que eu senti essa recepção mais forte do público e eu não tinha ninguém por trás da minha carreira, ainda estava construindo tudo.

E como foi a ideia da música 'Eu também sei fazer'? É uma carta de intenções?

É sim. A música é do Edgar do Cavaco e Douglas Lacerda, com uma pegada também de R&B. A ideia foi trazer algo novo mostrando que a mulher pode cantar o que ela quiser. Nesse meio, os homens dominam. No sertanejo, por exemplo, predomina o lado masculino, mas há uma forte presença de mulheres. No samba, também. Dentro desse pagode atual, não. Eu não quero cantar pagode como os homens cantam, quero justamente tentar conquistar com uma pegada mais melódica. Se o homem faz o que quer, então a mulher também pode. Não necessariamente temos que ter uma profissão só, cantar de uma forma só. Essa música fala bem disso. 

Há mulheres na cena também, como Hellen Guimarães e Ana Clara. O trabalho se liga ao seu de alguma forma?

São duas grandes cantoras, conheço as duas. Elas também vêm colocando o pagode em evidência, então eu não estou sozinha nesse movimento, nesse sentido. Elas são brancas e eu, sendo negra, acredito ser uma das primeiras nesse contexto, se a gente pensar tudo como um movimento. Ao mesmo tempo, não me vejo como precursora de algo, mas quero levar essa voz para outras mulheres negras. A mulheres podem cantar o que elas quiserem, ser o que elas quiserem. 

Hoje em dia há um forte resgate do pagode anos 90. Você acha que seu trabalho pode dialogar também com essa vertente?

Há muitos grandes nomes dos anos 90. É impossível dizer que eu não teria vontade de cantar com eles (risos), para mim seria uma grande honra. Imagina cantar com o Péricles ou Alcione, que não é dessa época, mas para mim seria excelente. A admiro como mulher negra, cantora, intérprete, ela é uma das minhas maiores referências. Mas, apesar de eu admirar esses grandes nomes, o foco hoje é mais esse pagode atual mesmo, que traga essa pitada de R&B e o discurso de empoderamento. 

Há planos para um álbum? E shows?

A ideia é que seja um EP. Vou lançar um single por vez, daqui a dois ou três meses vou trabalhar 'Papel de carta'. Estou fazendo participações em shows e quero juntar material autoral e construir o repertório de um futuro disco. Essa elaboração de material, com os lançamentos dos singles, vai servir como um esquenta. E depois, com o EP, vamos trabalhar mais a ideia de um álbum cheio.

Confira o clipe de 'Eu também sei fazer':

https://www.youtube.com/watch?v=HRIiZXkTXdI

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