Tunico da VilaAtitude Inicial / Divulgação

Rio - Tunico da Vila não tem pressa. Depois da estreia em disco em 2003 ('Tunico Ferreira') e do segundo álbum em 2009 ('Na cadência do partido alto'), o cantor, compositor, percussionista e produtor lançou, há três anos, seu primeiro EP, 'O velho de Oiá', e permanece editando músicas sazonalmente. Em 2017 e 2018, mostrou 'É dia de rede no mar' e 'Caminhos de um só', junto ao também sambista Xande de Pilares e, em abril deste ano, regravou 'Quero, Quero', conhecida canção de seu pai, Martinho da Vila. Originalmente gravada em 1977, período repressivo da ditadura militar, a faixa tem a colaboração de rappers e MCs e reflete sobre questões da época que se mostram cada vez mais atuais, se posicionando contra retrocessos nas diversas áreas de direitos humanos.
Aos 46 anos, Antonio João e Pedro Canine Ferreira acredita que a música é um 'grito contra os retrocessos'.  Por telefone, Tunico falou ao DIA sobre a regravação, carreira, inspirações e a relação com o bairro de Vila Isabel, além do amor por música e influências do pai em seu trabalho. "Gosto mesmo é de música e fazer as coisas sem pressa. Meu negócio é trabalhar e as coisas vão vindo", filosofa.
O DIA: Como foi a ideia de gravar especificamente 'Quero, quero'?

Tunico da Vila: 'Quero, quero' é uma música que eu sempre gostei muito e aí resolvi fazer uma roupagem nova nela, um arranjo diferente, um outro som. Eu sempre gostei dessa coisa de misturar sons, sou "rei" de fazer isso. Então, estava ouvindo bastante a música e depois resolvi inserir os elementos de rap. Primeiro, tive a ideia de regravar, mas não dessa forma. O jeito que ela foi finalizada aconteceu agora em janeiro. Senti que precisava colocar pessoas para rimar nela e foi acontecendo.
Além de elementos do rap, sua versão tem essa pegada soul na introdução. As ideias foram suas?

As ideias foram minhas, mas o Rubinho Rimate fez junto comigo e o Rildo Hora fez a direção de voz e também gravou a gaita. E estamos conversando sobre projetos para o futuro. Quando quero gravar algo, eu fico escutando a música 24h, vejo o jeito que vou cantar, qual instrumento vai assim ou assado... não consigo fazer música rápida, gravar e colocar aquilo rápido. 'Quero, Quero' deu bastante trabalho na hora da mixagem e tivemos uma atenção redobrada na masterização. Fui ouvindo, acrescentando outra coisa aqui e ali e ela foi tomando essa forma.

O Bruno Batista, da (gravadora) Sony Music, tinha dado a ideia da mistura. Pensei em chamar o pessoal do rap, mas a ideia inicial não era para ser desse porte. O tema da gravação original é muito atual e bate com aquilo que as minorias estão pensando hoje. As pessoas sofrem intolerância religiosa, sofrem racismo estrutural, racismo na pele...e ser mulher negra nesse país é mais difícil ainda, o índice de feminicídios é muito, muito alto. 'Quero, Quero' é um grito contra essas coisas, esses retrocessos. Ela foi gravada em 1977 pelo meu pai, na época da ditadura e é bem atual. Infelizmente, os retrocessos deram uma 'acalmada' e agora estão muito mais escancarados, escrachados na sociedade atual.

E o convite às participações dos artistas de rap?

Eu tinha convidado o Rappin' Hood, um amigo de muito tempo, e falei que estava querendo chamar mais gente, e ele apoiou totalmente. Aí chamei o Dexter, o Rashid, o Kamau, o BK', de quem gosto muito do som. Eu sou sambista e escuto de tudo mesmo, até para poder misturar esses ritmos no meu som. Consegui falar primeiro com eles, que toparam na hora, gostaram da ideia. Eu tinha falado com a Débora, minha esposa e empresária, que queria uma mulher para cantar. Pensei em chamar a Negra Li, mas ela também me deu essa ideia de chamar as meninas do Melanina MC's, daqui do Espírito Santo, onde eu moro. Elas toparam e foi ótimo. 

Cada um fez a sua parte e contribuiu de uma forma maravilhosa. A coisa da militância, abordada na letra, é algo eterno. O Dexter é um cara que foi presidiário. Ele conseguiu fazer shows, gravar discos (o rapper foi membro do extinto grupo 509-E, referência à cela no Carandiru). Rappin Hodd é o precursor de misturar o samba com o rap e tem essa grande importância. E as meninas foram uma grata surpresa. Elas deram o recado muito bem.

O single precede um disco? Você gravou um EP em 2016, vem algo mais por aí?

Gravei um EP em 2016 e depois passei um tempo no Rio por conta do nascimento da minha filha, Madalena. Ela nasceu com um cardiopatia congênita, fizemos de tudo para tentar reverter o quadro, e ela acabou não resistindo e faleceu em janeiro desse ano. No meio dessa turbulência, fizemos essa gravação de 'Quero Quero' e farei uma música sobre a minha filha, 'Madela do Espírito Santo'. Ainda no meio dessa bomba, eu assino contrato com a Sony. Continuo independente, mas agora tudo meu sai nas plataformas digitais. A tendência é ir gravando singles. Sobre 'Madalena do Espírito Santo, não vou deixar de lançar porque minha filha se foi, é também uma homenagem...e já estou com ideias para outras gravações autorais. Devagar, sem pressa. Meu negócio é trabalhar e as coisas vão vindo.
'Devagar, devagarinho', como diria seu pai?
(Ri) É, mas as coisas acontecem mesmo. Depois que minha filha se foi, fui convidado para tocar no interior de São Paulo e rodei aquela região todinha. Cantei para 50 mil pessoas no carnaval de Cabo Verde e pintou o contrato com a Sony. E agora eu converso com outros artistas e estamos namorando.
Então parcerias já surgiram?

Não, é namoro mesmo. Quando você vê, tá conversando, conversando...e aí quando vê, já fez (risos). Existe um desejo de gravar um álbum? Nesse momento não, por mim eu vou lançando singles mesmo. Eu gravei uma música há dois anos, chamada 'É dia de rede no mar'. Sem brincadeira, tem três dias que um monte de gente está falando que adorou a música, mandando mensagens positivas. Mas eu gravei em 2017 e o Youtube também tem sido um bom canal para as pessoas ouvirem minhas músicas. E aí é isso, eu vou cantando e fazendo minhas letras ou releituras, que tanto podem pender para esse lado social como ser algo mais comercial mesmo.
Como é a experiência musical com o seu pai? E na regravação de 'Quero, Quero'?

A gente está sempre se falando, mas na hora de gravar, cada um vai gravar a sua. Eu fiz e falei que ia gravar. Ele não esperava. Ele escutou, gostou e acabou gravando a parte dele e ficou feliz. Tudo que sei sobre musica e samba, de uma forma geral, seja sobre gravação de discos ou quando fui percussionista da banda dele, veio por ele. Eu ia em Angola e fui sentar com os quinbandas; fui em Portugal e visitei casas de fado. Em São Paulo conheci os sambistas de lá, os sertanejos em Goiás, mas isso tudo graças a ele. Ele está me deixando um legado musical muito forte. Vou salvar essa bandeira. (Enfático) A bandeira dele é também a minha. Vou cuidar sempre dessa coisa musical do meu pai, seria burrice não regravar as músicas dele.

Quais as suas inspirações para fazer música?

Eu escuto salsa, rock, heavy metal, forró, sertanejo, músicas com arranjos antigos...mas quem me inspira mesmo é minha esposa. Eu fico na minha tranquilidade, fazendo as minhas coisas, mas quando surge uma ideia, me agarro muito. Às vezes tenho pena dela, por ela querer paquerar, da gente namorar um pouco...mas fico fixo na ideia até acabar (risos). Eu quero regravar a música 'Ne me quitte pas' e misturá-la com salsa, sons africanos, o semba, kuduro...juntar a música de raiz com a contemporânea. Eu já a cantei antes e estou confabulando para gravar. E, lógico, o samba é minha raiz, cultura e legado. Sempre foi e sempre será. 'Ah, mas o Tunico da Vila é cantor de salsa?' Não! Tunico da Vila é samba. Sou negro, sambista, candoblecista, flamenguista (risos)...Eu misturo coisa mesmo, mas me aprofundo mais nos ritmos que o Martinho, por exemplo. Ele já gravou toada, congada, mas eu gosto dessa ideia de focar bem nos ritmos das nossas matrizes.

Você citou o candomblé. De que forma a religião te inspira?

O candomblé é uma religião que é altamente musical, não tem jeito. O samba vem do terreiro de candomblé e se fortifica no terreiro da Tia Ciata, no Estácio. Existe uma forte influência que sempre vai me inspirar, mas eu divido com outros sons. Sou apaixonado por música mesmo. Não fico preso aos sons do candomblé. Curto escutar aquela negritude cantando maravilhosamente bem no gospel americano, por exemplo. Gosto de sons católicos também. Se a música for boa e não atacar minhas raízes, as coisas que acredito, minha negritude e religião, eu gosto. Caso contrário, não passo nem perto. Se fizerem uma seresta para mim cantando música de igreja que propaga intolerância religiosa, massacres contra terreiros e outras coisas, eu expulso, jogo água e tudo, não quero nem saber (risos).

Qual a sua relação com a Unidos de Vila Isabel?

Já participei mais da Vila Isabel. Devo muito à bateria da escola. Estou afastado, mas por morar longe. Eu sou compositor campeão da escola, junto com meu pai com 'Festa no Arraia', na quadra e na Avenida. Não tenho mais feito sambas-enredo por privilegiar a carreira, navegar agora nesses águas. Depois, quem sabe? Mas agora, não. A Unidos de Vila Isabel sempre vai viver no meu coração. Agradeço principalmente à Velha Guarda, baianas e bateria da escola.
(Aviso que encerraremos a entrevista e Tunico tem outra lembrança sobre música)

Rapaz, outra coisa que eu lembrei. Eu gravei com o Xande de Pilares a música 'Nos caminhos de um só', em 2018. Nós falamos sobre a intolerância religiosa, é um banto. Também tenho recebido elogios por ela. Viu só como as coisas acontecem? (risos)
'Quero, Quero' está disponível nos serviços de streaming e no Youtube