Baianos do Maglore vão abrir a noite na Fundição Progresso - Azevedo Lobo / Divulgação
Baianos do Maglore vão abrir a noite na Fundição ProgressoAzevedo Lobo / Divulgação
Por THIAGO ANTUNES
Rio - Duas das bandas mais inventivas do cenário independente nacional vão se apresentar, nesta sexta-feira, no palco da Fundição Progresso, na Lapa. Com carreiras que se intercalam dentro do mercado alternativo, Maglore e Vanguart vivem momentos de celebração em diferentes contextos que também se conectam. A primeira, vinda de Salvador, celebra 10 anos de estrada e prepara o lançamento de um disco e DVD ao vivo. A segunda, formada em Cuiabá, faz um balanço de mais de 17 anos ativa e regravou canções de uma grande influência: o bardo Bob Dylan.
O DIA conversou com Felipe Dieder, baterista da Maglore e Hélio Flanders, vocalista e multiinstrumentista do Vanguart sobre influências, ideias dos novos lançamentos e projetos, o público carioca e o momento atual dos dois grupos.
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O DIA - Vocês têm quatro discos na bagagem. Por que gravar um álbum ao vivo agora?
Felipe - Em 2019, a Maglore está fazendo 10 anos. E calhou nesse tempo de banda com o fato de costumarmos gravar discos de dois em dois anos. Achamos que não era o momento ainda de apresentar um material inédito, então vamos para um terceiro ano sem um álbum de inéditas. Não foi muito pensado, existiu essa vontade de dar uma revisitada junto com a Deckdisc, nossa gravadora, de também fazer um registro audiovisual. Não tínhamos um registro de vídeo que nos agradasse. E aí isso tudo foi caminhando junto, essa celebração e a falta que sentíamos desse tipo de material.
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Como foi a seleção do repertório?

Tentamos ao máximo pegar coisas de trás, do 'Veroz' (2011) e do 'Vamos pra rua' (2013), e colocar nesse set, porque a gente vinha fazendo shows muito ligados ao 'Todas as bandeiras' (2017). Vínhamos tocando quase na íntegra esse disco e o pessoal pede muito músicas do primeiro, segundo...o tempo de banda também faz com que a gente acabe privilegiando coisas mais recentes. Para esse projeto, procuramos fazer um apanhado. Pegamos o último, colocamos coisas do 'III' (2015) e privilegiamos os pedidos do público.
Você citou o 'III', que me parece ter sido um disco bem marcante para a banda. A partir dele, muitas coisas mudaram, não?

Eu acredito que o 'III' mais a ida da banda para São Paulo antes, em 2012, tenha sido um marco divisório mesmo. Mudar da Bahia para a região Sudeste, onde sentimos que as coisas acontecem mais, com mais espaço para shows...e calhou de ser o disco onde a Deckdisk chegou junto com a gente. Houve convite para que a gente fizesse parte da gravadora e foi nesse período que começamos a ter agenciamento de shows, uma coisa estrutural maior...certamente foi um período bem marcante para todos nós nesse sentido.
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E como você analisa esse seu período na discografia da Maglore?
Eu entrei na banda em 2013, no 'Vamos pra rua', e eu sinto que a banda morava em Salvador. Eu era público, ia em shows, sentia sempre essa questão na formação. Minha entrada acho que acrescentou uma coisa pop, sempre ouvi muitos discos em casa, nesse coisa da canção pop enquanto alicerce. Tudo isso foi sempre algo que me norteou, que vem desde antes da banda...eu tocava com muita gente em Salvador e quando recebi o convite foi meio que um casamento de coisas, muito natural e muito fluido. Toda a construção de tocar bateria vem desde antes e do que significa o instrumento dentro dessas músicas. 

A própria discografia da banda está se norteando por esse caminho, certo?

Sim, creio que sim. É quase como se fosse uma marca do Teago (vocalista e guitarrista). Ele traz pra gente o alicerce das músicas em voz e violão e a gente cria arranjos conjuntamente. Acho que isso do pop existe, mas talvez cada disco tenha sua especificidade e traz algo novo dentro desse aspecto.

Como será o show no Rio?

A gente costuma montar o repertório no dia, um pouco antes de entrar no palco. Acho que faremos um pouco calcado no disco ao vivo, que a gente ainda não fez no Rio. Recentemente tocamos em duas sessões no Teatro Ipanema, mas gravamos o material uma semana antes desse show, então acho que pode ser interessante essa abordagem. O pessoal daí também gosta de coisas antigas, então deve ser o caminho.

E como é tocar por aqui? O público é bem apaixonado, quase como São Paulo...
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Junto com Salvador, São Paulo também virou a casa da banda, uma parte mora na Bahia e outro lá em São Paulo, como se fossem duas residências mesmo. Mas a relação com o Rio é muito antiga, em 2012 tocamos infinitas vezes. A gente ama a cidade, óbvio, quem é que não ama? (risos). Acho que principalmente quem vem de fora. Existe essa coisa mítica daí, apesar de todos os problemas que existem em uma cidade grande. Tem uma magia quando a gente pisa no Rio. A gente ama o público, que é tão caloroso quanto em Salvador. Tem gente que vai desde sempre, aquelas mesmas pessoas, que depois pedem para tirar foto, conversar...quase como velhos amigos nossos mesmo. Aí a gente vai para o bar, conversa e está junto...é bem legal pra gente.
Vocês costumam tocar com o Helio, do Vanguart. Como é essa parceria? Pretendem tocar com a banda?
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Ele é quase que um membro da banda, um cara fundamental pra nossa história. Nós o chamamos para participar de alguns shows lá atrás, ele se identificou com o som e ficamos muito amigos. O Helinho fez muitas apresentações com a gente e quando ele sobe no palco é para tocar umas oito, 10 músicas. Ele realmente ficou quase como um outro integrante, passou a fazer muita coisa e, nesse disco ao vivo, fizemos questão que ele estivesse. Curiosamente, nunca tocamos com o Vanguart e são uns queridos. Acho que isso pode acontecer e fazer no Rio vai ser natural.

Então existe essa possibilidade?
Estamos conversando sobre. Acho que em algum momento vamos fazer alguma coisa, nem que seja uma grande cantoria (risos).
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Como é ter músicas gravadas por gente como Erasmo Carlos, Gal Costa,...
É meio louco, é como se você tivesse conexão com essas pessoas. É uma honra sem tamanho. Toda essa história começou com o Erasmo. O Marcus Preto estava fazendo a direção artística do disco dele e perguntou se o Teago não tinha alguma música pra mandar para o '...amor é isso' (2018). O Erasmo estava gravando compositores novos e o Teago enviou 'Não existe saudade no cosmos'. Nós chegamos a gravar essa faixa no 'Todas as bandeiras', mas conversamos com o Rafael e ela não entrou de última hora, por acharmos que o disco ficaria mais enxuto. Aí o Erasmo se amarrou nela, então realmente foi mágico. Com a música 'Motor', que a Gal Costa toca no show e registrou em DVD, também foi bem legal. Ela é do 'Vamos pra rua' e depois a Pitty, que talvez seja o último ícone do rock mainstream brasileiro, decidiu gravá-la também. Desde o Inkoma, banda antiga de hardcore dela, a Pitty é uma grande referência pra gente. Íamos muito nos shows do Inkoma. A Gal não tenho nem o que falar, todos esses baianos...isso é algo muito doido (risos).
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Sobre isso, tem alguém com quem vocês desejam tocar ultimamente?

Falando por mim, acho que tocar com o Caetano Veloso seria uma delícia...sonhando bem alto (risos). Talvez o Herbert Vianna, uma galera do rock anos 80. Ficaria por isso aí.

O DIA - Por que gravar um disco dedicado a Bob Dylan?

Helio - O Bob Dylan sempre foi uma das nossas grandes referências. Tocamos músicas ao vivo dele desde 2010, já fizemos diversos shows com covers. Nós estávamos conversando com o Rafael Ramos, da Deckdisk, e ele veio com a ideia. Particularmente eu estava bem imerso no 'Beijo estranho' (2017), nosso último disco. Então acabou sendo algo que veio bem a calhar pra gente.
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Como foi a escolha das músicas? É um repertório muito vasto, mas você mesmo já registrou que gosta mais da fase anos 70...

Nós tínhamos umas 30 músicas, por aí. Algumas eu gostava muito e certas faixas como 'Simple twist of fate', 'Tangled up in blue', do disco 'Blood on the tracks', acabaram entrando por uma questão afetiva. Outras entraram mais pelo simbolismo da coisa, como 'Blowin' in the wind', 'Like a rolling stone'. Pensamos em apresentar essas canções para as pessoas mais jovens, que sabíamos que podiam funcionar e têm potencial, como 'To make you feel my love', que o Dylan nunca gravou oficialmente. Foram esses critérios, resolvemos "lavar" tudo mesmo. 
As gravações soam bem respeitosas ao original, mas há um toque do 'som Vanguart' nelas. Esse processo foi natural?

O Dylan sempre foi anticânone, mas o processo pra gente foi natural. Músicas como 'Ballad of a thin man', são emblemáticas pelo modo que são, a força delas vem da forma que são tocadas e cantadas, ao passo que outros registros mudaram bem. Alguns deles têm recados e outras coisas que queríamos colocar. 

Sobre 'Beijo estranho', o álbum parece centrar muito em uma questão de tensão e resolução. Ao mesmo tempo, parece uma obra amadurecida. Como ele se relaciona na discografia?

Concordo, acho que é bem por aí mesmo. Depois do primeiro lançamento, o segundo disco era muito triste, forte e o terceiro era muito solar e otimista e acho que esse disco trata de uma reflexão de alguém que chega aos 30 e vai percebendo os extremos da vida, que a vida é uma espiral mesmo. É também uma espécie de despertar para algo mais sóbrio, mas não de quem estava bêbado (risos), mas de maturidade mesmo. Acho que também trata de ter um olhar mais comedido das coisas, de projeções de expectativas como 'vivi todos os meus dias em ti, mas hoje eu vivo em mim' (letra da música 'Beijo estranho')...olhar pra cima de uma maneira, se perceber para depois olhar o outro. Acho esse disco bem amoroso.
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Alguma favorita para esse disco?

Tem muitas que eu gosto da gravação do disco e muitas que eu gosto de tocar ao vivo. Ano passado a gente lançou uma versão deluxe, com outros três faixas bônus. Particularmente tenho gostado muito de uma delas, 'Tudo que não for vida'. Acho que, com a situação atual, ela adquiriu contornos fortes. Fora isso, ela tem um clipe bem bonito, que é recente, então estou bem ligado nessa música.
Você sitou a "situação atual". Acha que as músicas do Vanguart dialogam com esses momentos conturbados da sociedade?

Acho que não dialoga diretamente, mas tudo que fala sobre sentimentos está ligado ao cenário político. No meio há toda uma revolução política inerente também, dentro de todos nós. E a gente segue amadurecendo em praça pública, pedindo desculpas por não tratar as pessoas melhor, por não estarmos dialogando... 
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Você teve um disco solo que foi bem recebido. Há alguma novidade nesse sentido?

Ah, estou fazendo várias coisas. Estou gravando uma canção em italiano, experimentando novas vertentes...de disco solo não tem nada para surgir, mas devemos voltar para o estúdio no começo do ano que vem. Também posso dizer que estou trabalhando em um livro, então tem muitas coisas novas aportando e várias possibilidades.
Como será o show no Rio? Algum repertório em especial?

Talvez toque uma do disco do Bob Dylan. Como já faz dois anos do 'Beijo estranho', nós já estamos diluindo tudo. Posso dizer que será uma grande miscelânea de tudo de melhor do que o Vanguart tem. Vai ter tudo! (risos).
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E como é tocar no Rio?
O Rio é demais sempre. Nós sempre fomos muito bem recebidos, é um calor que não tem em outro lugar, talvez somente em Cuiabá. Acho que esse show da Maglore, que já participei algumas vezes será uma coisa de muita celebração mesmo.
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Duas bandas no palco, confirmado?

Eu sei que vou participar do show deles. Mas como a gente vem no mesmo ônibus, nós vamos falar sobre essa possibilidade, com certeza.
Serviço - Maglore e Vanguart na Fundição Progresso
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Data: Sexta, 12 de julho de 2019

Palco: São Sebastião

Horários:
Abertura da casa: 22h
Maglore: 23h30
Vanguart: 1h30

Ingressos:
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1º lote R$ 50
2º lote: R$ 60
3º lote R$ 70