Tudo de Novo: filhos de sambistas recordam repertórios dos pais

Lucas (filho de Péricles), Levi (filho de Netinho), Brankinha (filho de Branca di Neve) e Raffa Bandeira (filho de Luiz Carlos) têm também EP com músicas novas

Por RICARDO SCHOTT

Brankinha (esquerda), Lucas (no meio), Raffa (sentado) e Levi (direita)
Brankinha (esquerda), Lucas (no meio), Raffa (sentado) e Levi (direita) -

Agora é tudo de novo no samba. Literalmente: o grupo Tudo de Novo tem quatro filhos de sambistas na formação. Lucas Morato (filho de Péricles), Levi de Paula (filho de Netinho de Paula), Brankinha (filho de Branca Di Neve, morto em 1989) e Raffa Bandeira (filho de Luís Carlos, do Raça Negra) unem vozes nos palcos do Brasil cantando tanto os repertórios de seus pais quanto composições autorais - como o hit 'Será Que Guenta', que está no primeiro EP do quarteto.

Os quatro, que se apresentaram no 'Domingão do Faustão' na semana passada, já vinham de carreiras solo - Lucas, por exemplo, chegou a gravar dois CDs. E foram criados num ambiente em que samba era trabalho, mas também era diversão de fim de semana.

"Lá em casa era samba com churrasco sempre", brinca Raffa. "Lembro que na minha casa não tinha mais lugar para guardar CD, de tanto que a gente tinha", comenta Lucas, que aos 4 anos ganhou um tamborim e aos 7, um cavaquinho. O filho de Péricles conta que o grupo começou porque todos chegaram à conclusão de que não havia ninguém com mais propridade para apresentar o pagode dos anos 1990 para uma nova geração. "Afinal, somos frutos desse sucesso", comenta.

A escolha pela carreira musical não foi uma opção fácil para todos do grupo. Levi diz que no começo, o pai Netinho não gostava da ideia do filho seguir a carreira musical. "Ele achava que é uma vida muito sofrida. Mas eu aprendi olhando, estando sempre nos shows, ensaios. Acabei aprendendo a tocar violão e a cantar desse jeito", conta.

Arlindinho

No comecinho do grupo, o Tudo De Novo era um trio formado por Lucas, Levi e Arlindinho, filho de Arlindo Cruz. A saída do carioca se deu sem problemas, e por razões bastante práticas. "Com a ausência do Arlindo Cruz, os compromissos do Arlindinho acabaram aumentando de forma que ele não desse conta de cumprir as duas agendas", conta Lucas Morato.

"Costumo dizer que o Arlindo não saiu. Ele é nosso irmão, também! Ele tem as prioridades dele, mas o projeto é nosso, dos filhos. Vão chegar mais filhos, e quem puder estar com a gente nos palcos será maravilhoso! ", ressalta Levi.

Lenda

Nelson Fernandes Morais, o Branca Di Neve - pai de Brankinha - morreu aos 38 anos em 1989, de derrame cerebral, ganhando status de lenda do samba paulistano. Na época, o cantor estava começando a fazer sucesso, tinha dois discos gravados e já havia imortalizado clássicos como 'Pensamento Verde', composta por Andó e Jota Velloso, irmão de Benito di Paula. E que depois virou sucesso com o Molejo - é a do "sabe quem perguntou por você?/ninguém".

"Essa música virou meme! Lembro que na escola todo mundo falava dela, as pessoas até me falavam de brincadeira: 'Sabe quem perguntou por você? Ninguém'. Eu nem podia falar que era meu pai que cantava, porque ninguém ia acreditar", brinca Brankinha, que vinha fazendo apresentações solo lembrando os sucessos do pai.

Som do pai

Cada um tem suas músicas preferidas dos repertórios paternos. Do Pericão, Lucas ama 'Quero Sentir de Novo', 'Aquela Canção' (essas, da antiga banda do pai, Exaltasamba) e 'Dom de Sonhar'. Raffa não dispensa uma audição de 'Estou Mal' e 'Pra Quê Brigar'. Levi tem até dificuldade para enumerar suas preferidas. "Muitas! Gosto da alegria da 'Cohab City', 'Beijo Geladinho'. Gosto da interpretação que meu pai fez em 'Timidez', 'Bom Dia', 'Que Dure Para Sempre'! Gosto da mistura rítmica de 'Tanajura', enfim! Sou grande fã do meu pai!", alegra-se. De Branca, Brankinha cita 'Reprise', 'Falsa Magra' e, claro, 'Pensamento Verde'. "Foi uma música que mudou minha vida, de verdade", diz.

Nos shows, claro, nenhuma dessas músicas vai poder faltar. Inclusive porque os fãs de Netinho, de Branca Di Neve, do Raça Negra e de Netinho (e da ex-banda do pagodeiro, Negritude Junior) já vê acompanhando o grupo.

"Eu mesmo mantenho contato com vários fãs do meu pai até hoje, sempre tivemos essa ligação muito forte com eles. São família para gente!", ressalta Levi, que tem datas com os amigos em palcos cariocas no fim de agosto.

Comentários