Bruno Gouveia: histórias de música e superação em autobiografia

'É Impossível Esquecer O Que Vivi' recorda a história do Biquíni Cavadão e temas pessoais como a morte do filho do cantor, Gabriel

Por RICARDO SCHOTT

Bruno Gouveia, vocalista do Biquíni Cavadão
Bruno Gouveia, vocalista do Biquíni Cavadão -

Rio - Apesar do nome ensolarado, o Biquíni Cavadão está longe de ser uma banda 100% alegre. 'Tédio', o primeiro hit, tinha um final nada feliz (o personagem ameaçava se atirar de um prédio, enfim). O repertório do grupo tem canções de protesto ('Zé Ninguém', 'Cai Água, Cai Barraco') e letras sobre perdas ('Impossível'), dilemas ('Timidez', 'Bem Vindo ao Mundo Adulto') e outros temas nada leves. Que volta e meia surgem em meio às histórias de 'É Impossível Esquecer O Que Vivi' (Ed. Chiado), autobiografia do cantor da banda carioca, Bruno Gouveia.

"Reconheço que o livro tem um ingrediente de superação. Na época de 'Tédio', muita gente achava que o Biquíni duraria apenas um verão. E a banda se firmou", lembra o vocalista, que falou no livro sobre os sucessos da banda, as injustiças do mercado fonográfico, a saída do baixista e amigo de colégio Sheik. E sobre a morte do filho Gabriel e da ex-mulher Fernanda num acidente de helicóptero, em 2011. O músico diz que preferiu não pesquisar nada a respeito do acidente. Pôs seus sentimentos e lembranças da história na autobiografia.

"Deixei essa história como se fosse um quebra-cabeça com algumas peças faltando. Quis dar uma explicação para as pessoas. Seria legal para os leitores entenderem que dá para seguir adiante, mesmo depois disso", conta Bruno, que esperava lançar o livro quando fez 50 anos, em 2017. "Mas houve processos como o de revisão, que foram mais lentos do que imaginava. Resolvemos fazer com o cuidado necessário", conta. O livro foi lançado sem um caderno de fotos, que estão disponíveis apenas virtualmente, por QRCode.

Sobre o ex-baixista, cuja saída se deu em meio a tensas discussões internas (Bruno chegou a editar as fotos do site do grupo em que Sheik aparecia, para apagá-lo, com a intenção de evitar uma possibilidade de uso indevido de imagem), ele diz que hoje os dois têm consideração e respeito um pelo outro.

"Ficou um vaso quebrado, digamos. Cheguei a procurar o Sheik em fevereiro para mostrar o que falei dele no livro. Disse a ele que a última coisa que eu gostaria era que ele ficasse sabendo do conteúdo por outra pessoa", conta Bruno, dizendo que o ex-colega limitou-se a responder que preferia ficar calado. "Mas nos respeitamos, ele foi até no enterro do meu filho".

Rock nacional

No livro, Bruno fala dos descompassos do Biquíni em relação ao mercado fonográfico. O primeiro disco, 'Cidades em Torrente' (1986), saiu pouco antes do Plano Cruzado, feito pela equipe do então presidente José Sarney - e não se aproveitou da farra de altas vendagens do período, em que grupos como RPM e Legião Urbana bateram recordes. 'Descivilização' (1991), quarto disco, teve dois hits de longo alcance ('Zé Ninguém' e 'Vento Ventania'). Mas modificações na diretoria da gravadora da banda, a PolyGram (hoje Universal), prejudicaram o álbum.

"Teve um momento em que tivemos uma explosão de vendas de CD no Brasil e a gente estava no pior momento da nossa carreira. Todo mundo que lançasse qualquer coisa já vendia cem mil cópias. E estávamos sem gravadora, fazendo tudo de maneira independente para ver se alguma gravadora queria", conta Bruno, cuja banda logo depois frequentaria as paradas com 'Janaína'.

Funk

A história de como o grupo ficou sabendo de 'Adultério', paródia de Mr. Catra para 'Tédio', está no livro. A princípio o Biquíni odiou a versão e quis proibi-la. Bruno mudou de ideia (e liberou a versão) após um amigo, durante uma conversa, dizer que ele estaria censurando o funkeiro.

"Lembro que não entendi muita coisa da letra quando ouvi. Quando o Catra cantava 'quatro por quatro', pensei que fosse coisa de carro com tração nas quatro rodas", brinca ele, que na época em que soube da paródia, tinha a mesma advogada do funkeiro. "Ela me disse que o Catra adorava a música, que ele não tinha feito a paródia para me sacanear. E nós mesmos cantávamos uma paródia pornô de 'Tédio' no começo do grupo. Se fizéssemos algo para proibir o Catra, seria censura".

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Bruno Gouveia, vocalista do Biquíni Cavadão Divulgação
Capa da autobiografia de Bruno Gouveia, do Biquíni Cavadão Divulgação

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