Vanessa da Mata lança o álbum Vem DocePriscila Prade / Divulgação
Vanessa da Mata lança novo álbum e garante: 'Não houve envelhecimento criativo'
Cantora celebra o trabalho intitulado 'Vem Doce', que conta com participações de Papatinho, Jaques Morelenbaum, L7nnon e João Gomes, fala sobre o Dia da Mulher
Rio - Vanessa da Mata, de 47 anos, lança seu novo álbum, intitulado "Vem Doce", nesta quarta-feira, Dia Internacional da Mulher. Com 20 anos de carreira, a cantora explora ao longo de 13 faixas, em sua maior parte autorais, assuntos como intervenção social, religiosidade, o amor e as figuras do dia a dia. Em entrevista ao DIA, a artista celebra o novo trabalho, que conta com as participações de Papatinho, Jaques Morelenbaum, L7nnon e João Gomes. Ela também fala sobre a pluralidade de ritmos presentes nele, sem deixar sua identidade de lado.
"Essa sempre foi minha intenção, desde o meu primeiro disco, trazer essa polifonia, polirritmo brasileiro para dentro de um trabalho só. Acho enriquecedor, necessário. Mas o álbum também tem essa crônica, que é meu forte, ligada à literatura, junto a cada música, que fala da vizinha enjoada, da amiga fofoqueira, que fala da face e o avesso do Brasil, do que a gente precisa melhorar..", afirma.
A cantora ainda comenta a parceria inusitada com João Gomes e L7nnon em "Comentário a respeito de John" e "Fique Aqui", respectivamente. "Não conhecia eles. Estava em casa um belo dia trabalhando e, no Instagram, João me mandou uma mensagem no direct dizendo: 'Desculpa se estraguei sua música'. Ele já cantava 'Amado', uma música minha e do Marcelo Jeneci. Falei: 'Que doido, menino. Me liga aí e passei meu telefone. A gente começou a conversar. Ele me apresentou a mãe dele, que estava chorando muito porque ela me ouvia sempre e o João conhecia o repertório todo desde pequeno. E não é só isso: o João conhece tudo de tudo. Que bom seria se a gente tivesse os meninos de 20 anos tendo essa cultura musical vasta que o João tem. Isso geralmente dá trabalho e precisa de grana, e ele não precisou. E fui cantar no DVD dele, a gente cantou a música 'Só Você e Eu'. Conheci o L7nnon lá. Um menino talentosíssimo. Me encontrou no estúdio, eu o convidei, ele trouxe Papatinho...", diz.
Ligada nos talentos da nova geração, Vanessa ainda surpreende ao ler uma lista com alguns artistas que mais têm chamado sua atenção. "Matuê, Alex Albino, Bala Desejo, Marco Túlio, Guto Oliveira, Mari Fernandez, Seu Pereira, ÀTTØØXXÁ, Jotapê", enumera ela, que revela o desejo de dividir os vocais com todos eles. "Com certeza, quando eu tiver uma possibilidade real, que tenha a ver com eles, vou chamar, com certeza".
Em "Vem Doce", a cantora presenteia o público com a canção "Eu Repetiria", de sua autoria e Ana Carolina. Amigas de longa data, as duas curiosamente quase não trabalham juntas. Essa é a segunda canção das duas que é gravada.
"A gente fez uma música só que entrou no disco dela no início da carreira. A gente tem muitas músicas, mas nunca trouxe. E lembrei, gravando as músicas e produzindo o disco no estúdio, que a gente tinha feito uma música simples e boa. Comecei a lembrar do refrão e ela localizou a música. Resgatei essa música e, hoje, ela adora. Duvido que ela não cante ela daqui a pouco", brinca Vanessa, que também celebra a parceria com Marcelo Camelo na composição de "Oi".
"Conheço ele há muito tempo, a gente fez muitas coisas juntos. Quando eu vou a Portugal, a gente se encontra. Quando eles vem pro Brasil, nos encontramos, é tudo lindo. Mandei a melodia e ele fez a letra da música lá", diz Vanessa, se referindo também a cantora Mallu Magalhães, mulher do artista.
O repertório também conta com as canções "Amiga Fofoqueira" e "Vizinha Enjoada". Vanessa, então, admite: "Tenho várias amigas fofoqueiras e já tive várias vizinhas enjoadas", diverte-se. "Na medida do possível sou fofoqueira. Sou uma cronista, então, é preciso respeitar essa função. Mas são fofocas no bom sentido. Não são fofocas destruidoras de lares, de pessoas, são pessoas que contam sobre a amiga fofoqueira", completa aos risos.
Dia internacional da Mulher
A escolha do lançamento do disco ser no Dia Internacional da Mulher não foi pura coincidência. "Nós somos hoje o quarto país mais violento do mundo. Isso vai em primeiro lugar para as mulheres, as mais suscetíveis, as mais fracas, no sentido de força, e ainda economicamente. Não tem como desassociar disso, sendo mulher, sendo compositora, autora das minhas falas musicais desde o início", analisa.
"A gente sofre consequências muito fortes disso. Já fui assaltada dez vezes. Tendo nascido no Mato Grosso, na cidade do interior, você vê muita coisa acontecendo, uma sociedade reduzida do início ao fim. Mulheres que sofreram abusos de todos os tipos. As músicas são cheias dessas provocações, conscientizações. Mesmo 'Face e Avesso', 'Foice'... Não tem como não falar disso. Pelo contrário, cada vez mais precisa se falar mais disso, não achar que é mimimi, perceber as entrelinhas das coisas, as necessidades de mudar", opina.
Duas décadas de carreira
Com 20 anos de carreira e sete álbuns, a artista não olha para sua trajetória com nostalgia. "Gosto muito do que estou fazendo agora. Pra mim, é muito lindo eu fazer músicas, as pessoas irem aos shows e cantarem músicas atuais também, além dos sucessos...", inicia.
"Pra mim, não houve um envelhecimento criativo, ele existe e está forte. A sensação que tenho é que como tenho esse público que me acompanha, não fico naquele lugar de alguns (artistas) que fazem até músicas boas, mas não conseguem mais fazer músicas como antes. O trabalho não está mais tão interessante. Então, ele lota shows porque as pessoas querem ouvir o antigo, ele fica preso ao antigo. Acho isso triste. Duro. Vejo muita gente assim ainda", reflete a cantora, que recorda de seu primeiro disco.
"Fico vendo as músicas e acho: 'Nossa, como eu tinha muito medo, era silencioso. Ele faz parte, não mudaria, mas é medroso. Hoje eu já sou produtora desses discos todos. Ampliou essa questão artística, está na minha mão desde a composição até a formação do disco inteiro".





