Pri Moraes durante as gravações de Vai na Féfotos Arquivo Pessoal/Priscilla Moraes

Rio - A personagem de Sheron Menezzes em "Vai na Fé" tem encantado o coração dos brasileiros. A doce e humilde Sol retrata a realidade de diversas mulheres que, como ela, lutam por um sonho e se dividem entre razão e emoção. Mas até onde a força vence o medo das críticas e da rejeição? 
A backing vocal Priscilla Moraes, de 40 anos, é natural de São Gonçalo e viveu de perto essa realidade. Ela, inclusive, ajudou a equipe de "Vai na Fé" na composição da personagem Sol. De família humilde, Priscilla teve uma infância difícil e chegou até mesmo a sofrer com a falta de alimentos. Sem TV, rádio ou relógio, o jeito era ir a casa da vizinha para descobrir a hora de estudar. Mas a música sempre fez parte da família e ela seguiu o caminho da mãe, que toca violão e compõe,  e do pai, que foi maestro de coral. 
"Comecei a enxergar a música como uma forma de ser aceita na escola. Pense: uma menina pobre, negra na escola nos anos 90? Minha mãe trabalhava para poder alisar o meu cabelo e assim evitava as piadinhas. 
Com 8 anos de idade decidi que iria aprender tocar violão e levaria para a escola e assim fiz. As professoras me chamavam para cantar nas feiras e outros eventos", conta. 
Cantando com Anitta
E deu tão certo que a cantora foi selecionada, em 2015, para integrar a equipe da poderosa Anitta. E foi justamente aí que as similaridades com a backing vocal de Lui Lorenzo (José Loreto) aparecem. "Sempre fui uma criança espiritualizada, tinha muita fé e conexão com o lado espiritual. O tempo foi passando e com o amadurecimento vi que a minha paixão pela música poderia se tornar uma fonte de renda", explica Priscilla. 
A filha do pastor questionou suas crenças ao aceitar o convite para fazer shows de Carnaval pela primeira vez no circuito Barra-Ondina, em Salvador. Após recusar várias propostas para cantar músicas fora do universo gospel, a cantora decidiu que era a hora de aceitar.
"Na época, estava passando uma situação financeira muito difícil! Era (um trabalho) somente no Carnaval daquele ano, era minha chance de sair do vermelho. Entrei no meu quarto e falei com Deus, nessa época ainda era cheia de preconceitos. Então, comecei a me fazer algumas perguntas: Deus puniria uma pessoa por trabalhar de forma honesta? Trabalhar com música não gospel vai mudar minha essência a ponto de não ser aceita por Deus", detalha. 
A artista diz que percebeu que o julgamento das pessoas era com base em crenças e padrões próprios, mas que não se sentia distante do que acreditava. Até hoje, oito anos depois, Priscilla faz parte do time que trabalha com Anitta. "Ela é uma artista incrível, que cuida da sua equipe com muito profissionalismo. Correta e organizada. Meu relacionamento com ela é sempre nos palcos, não temos amizade, mas ela está sempre nas minhas orações em forma de gratidão a tudo que já fiz por fruto deste trabalho", afirma.
'Vai na Fé' e a inspiração para o núcleo evangélico
O trabalho realizado na novela da Globo, que inclui a participação de Priscilla em cenas especiais gravadas ao lado de Sheron Menezzes, veio através de um grupo do qual faz parte há pelo menos 16 anos. 
"A escritora Rosane Svartman descobriu através da Glorinha, líder do nosso grupo, que uma das componentes do grupo era backing vocal da Anitta. Na época, ela precisava de inspiração para a protagonista. A Sol seria uma mulher batalhadora, cristã , cantora e iria passar por um conflito entre a sua fé e seu sonho de trabalhar com a música. Fui entrevistada pela equipe de roteiristas e contei um pouco da minha infância, adolescência, meus conflitos familiares sobre meu trabalho e principalmente na igreja. Naquele momento a atriz que faria a Sol não tinha sido escolhida. Fui surpreendida com a escolha da Sheron, uma atriz com quem tenho algumas semelhanças, negra e que eu amei", revela. 

Entre as cenas exibidas na trama, algumas trouxeram uma identificação imediata ao mostrar a personagem com resistências familiares sobre a fé diante do trabalho, além de manter a sua essência. "Algumas cenas da Sol me chocaram. Passei por isso, principalmente quando ela tinha que falar que o trabalho não a deixaria distante da sua fé ou não mudaria o seu caráter. Hoje, assim como na trama, minha família já respeita e aceita meu trabalho. São nove anos em que eles puderam acompanhar de perto como continuo sendo a mesma Priscilla, com a mesma fé em Deus. Só mudou uma coisa: hoje consigo sentar em uma roda com amigos de várias religiões e ouvir suas historias, suas músicas e respeito", pontua.