Rio - A disputa histórica entre duas figuras poderosas da monarquia inglesa ganha nova vida nos palcos com a peça "Mary Stuart", estrelada por Virginia Cavendish. Adaptação do clássico escrito pelo poeta e filósofo alemão Friedrich Schiller, o espetáculo está em cartaz no Teatro Nelson Rodrigues, no Centro, após bem-sucedida temporada em São Paulo, e retrata a tensão dessa luta de poder do século 16.
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A produção conta as últimas 24 horas de vida de Mary Stuart ((1542-1587), presa por 18 anos a mando da prima e rainha Elizabeth I (1533-1603), que vê seu trono ameaçado pela escocesa. "A história da peça é muito envolvente e muito rapidamente capta a atenção do público. Isso se deve a força da adaptação contemporânea do Robert Icke, que soube trazer para os dias de hoje essa tragédia escrita em 1800", diz a protagonista.
"Viver uma vida tão grandiosa e trágica...Tão fora de nossas realidades. Ser ator é se colocar no lugar do outro, ainda mais uma personagem histórica. Todos os dias eu peço permissão para Mary e agradeço poder recriar sua vida para que as pessoas conheçam sua história. Uma mulher muito corajosa", completa.
Ao falar sobre os desafios de interpretar a rainha, Virginia revela o esforço físico e mental exigido. "Foi preciso alargar minha capacidade pulmonar para dizer falas longas, e extrema concentração diária para entrar na atmosfera desse momento trágico. Precisa ser um atleta do palco para enfrentar personagens assim", confessa.
Dedicada pela artista às mulheres vítimas de violência, o espetáculo é uma poderosa mensagem sobre a luta feminina, que avançou a passos lentos e enfrenta constantes tentativas de retrocessos. "O número de feminicídio no Brasil infelizmente não cai. Eu acredito que as leis referentes ao corpo das mulheres deveriam ser feitas e criadas pelas mulheres. Simplesmente absurdo isso não ter acontecido ainda", opina.
Virginia divide o palco com Ana Cecília Costa e Ana Abbott, que se alternam no papel da rainha Elizabeth I, Cesar Mello, Joelson Medeiros, Eucir de Souza, Letícia Calvosa, Adilson Azevedo, Jhonnas Oliva, Giovani Tozzi, Alef Barros e Julia Terron.
Com uma trajetória consolidada, ela também acompanha de perto a trajetória da filha, a atriz Luisa Arraes, com grande admiração. "Ela já tem uma carreira sólida e muito séria. Admiro cada um dos seus passos, sempre movidos por muito talento, seriedade e vocação", destaca.
Fora dos Palcos
Além da carreira artística, Virginia se dedica à pesquisa e à preservação da memória das atrizes brasileiras. Sua dissertação de mestrado na Universidade de São Paulo (USP), que investigou a montagem de Hedda Gabler no Brasil, reflete a paixão pela história do teatro.
"Pesquisei a montagem de Nidia Lycia, Dina Sfat e Eleonora Duse, a primeira atriz que representou o texto aqui no Brasil em 1907. Também faço um depoimento de como foi a montagem produzida por mim em 2006 onde nasceu a paixão por essa personagem", conta.
A artista ainda estreou "O Segredo Delas", uma série documental que traz conversas com atrizes veteranas sobre os desafios da profissão. "Fiquei muito feliz com o resultado. Além de aprender muito, é um registro de memórias e experiências para futuras gerações".
Virginia analisa os desafios contemporâneos enfrentados pelas mulheres e revela a perda de personagens por conta da idade. Para ela, discussão sobre etarismo nas artes progrediu lentamente. "O mundo está muito desequilibrado e a importância das coisas essenciais está fora de foco. A vida é interessante em todas as etapas da vida, e estórias infinitas para serem contadas".
Apesar disso, a atriz pretende seguir em busca de personagens desafiadores, seja no teatro, no cinema ou na televisão. "É nesse caminho que o leme do meu barco está direcionado. Não importa o veículo, mas o conteúdo. Adoro atuar tanto no teatro, quanto no cinema e televisão", afirma.
Serviço:
Peça "Mary Stuart" Quinta e sexta-feira, às 19h; sábado e domingo, às 18h Local: Teatro Nelson Rodrigues Endereço: Av. República do Paraguai, 230 - Centro Ingresso: a partir de R$ 15 (meia-entrada)