Gabriela DuarteReprodução/Instagram

Rio - Gabriela Duarte vive um momento de transição. Aos 51 anos, a atriz decidiu revisar a trajetória, repensar vínculos e abrir espaço para novas possibilidades. Após encerrar um casamento de 20 anos com o fotógrafo Jairo Goldfuss e um contrato de mais de três décadas com a TV Globo, ela apresenta o monólogo "O Papel de Parede Amarelo e Eu", baseado no conto de Charlotte Perkins Gilman, e prepara o lançamento da autobiografia.

"Preferi dar o passo da incerteza", afirmou a atriz em entrevista para a Marie Claire. No palco, Gabriela interpreta uma mulher em conflito com a própria identidade, aprisionada por um casamento que a adoece. A encenação, dirigida por Alessandra Maestrini e Denise Stoklos, provoca reações imediatas na plateia. Segundo a atriz, o retorno do público masculino tem sido especialmente significativo: "Não queria que a peça ficasse numa bolha, mas que todo mundo participasse da conversa, inclusive eles".

A escolha do texto tem conexão direta com inquietações antigas. "A primeira vez que li o conto, já achei muito forte. Fiquei mexida com a história dessa mulher”, revela. Ao organizar sua biografia, percebeu o quanto as questões de identidade a acompanharam desde cedo.

A herança e o rompimento
Gabriela iniciou a carreira ainda adolescente e precisou lidar com o peso da comparação com a mãe, Regina Duarte. "Quem sou eu, o que vim realmente contribuir nesse mundo?", questiona. A convivência intensa no ambiente profissional gerou conflitos internos. "Já fizemos mãe e filha, a mesma personagem... o que falta? Eu não queria mais".

A atriz buscou personagens que quebrassem expectativas. Encontrou na comédia, como no papel de Jéssica, em Passione (2010), novas formas de se expressar. A escolha por caminhos diferentes envolveu riscos, mas ela afirma que valeu a pena: "Hoje, vejo que consegui trafegar pelos caminhos que escolhi".

Além do rompimento profissional, Gabriela também optou por se separar de Jairo Goldfuss, com quem tem dois filhos. "Comecei a perceber que faltavam coisas no casamento", conta. A decisão, segundo ela, foi tomada com respeito mútuo: "O que me pegava mesmo era olhar para a pessoa que estava comigo há 19 anos e ver que ela não estava feliz".

O recomeço foi difícil. "Fiquei sociofóbica, não queria mais sair de casa. Eu chorava, chorava, chorava". Com o tempo, reencontrou o afeto ao lado do empresário Fernando Frewka. "Hoje me dá um alívio ter encontrado uma pessoa que também me fez olhar para a vida de uma forma leve".

Arte e política: fronteiras e posições
Gabriela também comenta o período em que Regina Duarte assumiu cargo político no governo. "Foi complicado", admite. Apesar de manter discrição pública, viu-se alvo de julgamentos. "Eu dei minha opinião a respeito desse envolvimento. Mas a minha opinião não contou".

Sobre os diferentes posicionamentos dentro da família, é direta: "Pensamos diferente, temos posicionamentos diferentes, mas somos uma família. Para mim, a família realmente está acima de qualquer coisa".

Próximos passos
A autobiografia da atriz, escrita com a jornalista Brunna Condini, será lançada no segundo semestre. O processo de escrita trouxe reflexões importantes. "A partir do momento que você organiza a linha do tempo da sua vida, tudo fica mais claro". Gabriela diz que se surpreendeu ao revisar sua história: "Eu nem lembrava que eu já tinha passado por tanta coisa".

Embora esteja focada na peça, a atriz já vislumbra novos caminhos. Deseja interpretar personagens que desafiem sua zona de conforto. "Quero fazer personagens que nunca fiz. Uma vilã, uma Odete Roitman. Alguém com uma energia completamente diferente da minha".

No momento, no entanto, ela celebra as escolhas recentes e o espaço que conquistou para respirar. "Desfiz duplas muito fortes na minha vida. Foi difícil, mas consegui".