Hamilton de HolandaDivulgação
Hamilton de Holanda revela desejo profissional: 'Fazer um encontro com músicos do mundo inteiro'
Instrumentista celebra fase internacional com disco gravado no Dizzy’s Club e fala sobre parcerias, estrada e tecnologia
Rio - Considerado um dos nomes mais importantes da música instrumental, o bandolinista, compositor e improvisador Hamilton de Holanda, de 49 anos, não imaginou que se tornaria sucesso no exterior. O artista, que recentemente lançou o álbum "Hamilton de Holanda Trio – Live in NYC (feat. Chris Potter)", gravado no lendário Dizzy’s Club, em Nova York, reflete sobre a trajetória profissional e comenta o 'título' de "embaixador da música brasileira".
"Nunca pensei nisso. Fui tocando. De repente, passei a levar a música do Brasil para fora. A música não resolve todos os problemas do mundo, mas cabe o mundo inteiro dentro de uma música. E se cabe o mundo dentro de uma música, ela pode tocar o coração de uma pessoa, abrir a cabeça de outra. Quando me chamam de embaixador, acho que é por isso", afirma o músico.
Com a chegada dos 50 anos em 2026, Hamilton faz planos. "Quero fazer um encontro com músicos do mundo inteiro. Gente do Brasil, do Japão, da China, da Ucrânia, da Rússia, de Israel, da Palestina... Será que dá? Pode ser uma inocência pensar isso, mas eu tenho vontade. Ano que vem faço 50 anos. Talvez seja um projeto para comemorar. E quero tocar em lugares onde ainda não fui", vislumbra.
"Nunca toquei no Japão. Já até comprei um casaco com o símbolo do Japão para atrair. E quero 'gabaritar' o Brasil. Faltam quatro estados: Amapá, Acre, Roraima e Rondônia. Acabei de saber que pintou um convite pro Amapá — menos um. Gosto de viajar para fora, mas amo viajar pelo Brasil. O Brasil tem lugares espetaculares. E minha música carrega esperança. Levar isso a todos os cantos é quase uma missão", complementa.
O álbum mais recente de Holanda reforça a conexão artística entre ele, o baterista Thiago "Big" Rabello e o tecladista Salomão Soares, iniciada em 2023 com o álbum "Flying Chicken". A gravação contou com a participação especial do saxofonista norte-americano Chris Potter, nome de peso no jazz mundial, com quem Hamilton já colaborou em "Maxixe Samba Groove", álbum que rendeu um Grammy Latino em 2022.
"Depois ele veio ao Brasil, passou por perrengue, não deu defeito. Entendeu tudo. A gente se aproximou muito. Fizemos show no Kennedy Center representando o Brasil e os EUA. Quando chegou em Nova York, ele já conhecia duas das três músicas. Passou na passagem de som e mandou ver. Não errou nada", lembra.
No trabalho atual, Cris aparece em três faixas — "Afro Choro", "Todo Dia é um Recomeço" e "Flying Chicken". Para o brasileiro, Potter foi "a cereja do bolo" no projeto, que marca o fim da turnê norte-americana do trio. "Uma realização fantástica", resume o artista.
"Rodamos por vários estados, convivemos diariamente, cada um aprendendo com o outro. No último dia, em Nova York, sem problema técnico, sem aquela preocupação de lembrar música, a gente conseguia canalizar toda a energia para a emoção que trocava com o público. Essa emoção está bem captada no disco", pontua.
A atmosfera da noite ficou marcada na memória. "O que me marcou foi a confiança em tocar com os caras — com o Big, com o Salomão, o Chris Potter —, trazer a experiência dele com o jazz, juntando com a nossa música. Tocar naquele lugar espetacular, onde tinha muitos americanos, mas também pessoas de vários países. Foi um encontro global. Um silêncio como final de vibração. Uma mistura de concentração com emoção. Não tem preço", analisa.
Reconhecido com 17 indicações ao Grammy Latino e uma recente nomeação ao Grammy Awards pelo álbum "Collab", o artista também fala sobre o comportamento do público estrangeiro nas apresentações. "Se fosse num clube aqui, as pessoas se manifestam mais, são mais eufóricas. Lá tem essa coisa mais contida, mas concentrada. Um respeito pela música que também motiva e inspira. Tocar lá fora me inspira a viver".
A ideia de transformar a apresentação em álbum surgiu de forma espontânea, com incentivo do produtor Marcos Portinari. "Foi semi planejado. Durante a turnê, gravamos os shows, analisamos os detalhes. Quando chegou o último dia, já estávamos prontos. A convivência também nos dava mais confiança", diz ele, que entrega os aprendizados em meio à turnê.
"A estrada me ensinou a ser mais tolerante, mais compreensivo, a reagir menos por impulso. Me amadureceu. Porque você convive, é quase um casamento. Toma café junto, almoça junto, viaja junto. Você começa a perceber os defeitos dos outros, mas também os seus. Passa a se aceitar mais, tenta ser mais gentil. Todo mundo tem um desafio para vencer. A viagem me trouxe essa consciência: enfrentar dificuldades com mais tranquilidade e saber celebrar as vitórias", revela.
Além da produção, Portinari também assina a capa do álbum — criada com recursos de inteligência artificial. "É um movimento natural da humanidade. Assim como um dia teve a árvore, depois inventaram a calculadora... Agora inventaram um negócio bizarro que a gente precisa aprender a mexer. Tem que usar com cuidado. A internet é uma terra sem lei. Mas, nesse caso, foi o olhar de um artista. O Portinari, sobrinho-neto do grande pintor, teve uma ideia artesanal que a tecnologia finalizou. Uma ferramenta usada com responsabilidade", acredita Holanda.









