Marcelo Canellas em reportagem especial para o 'Fantástico'Reprodução/TV Globo

Rio - O jornalista Marcelo Canellas foi retaliado após sua reportagem sobre a fome no Brasil ter sido exibida no "Fantástico" deste domingo (22). Na matéria, o repórter revisita famílias pobres que havia encontrado no início dos anos 2000 e, 20 anos depois, atesta que a situação segue a mesma.
Em sua conta no Twitter, Canellas revelou ter recebido diversos xingamentos até antes da reportagem ir ao ar, apenas com as prévias, questionando o motivo de fazer uma matéria dessa, e ainda, o porquê ele não ajudou essas famílias. O repórter então rebateu esses comentários explicando a importância do jornalismo.
"Uma grande história sempre se impõe. A potência do jornalismo está em sua insubmissão. E por ser avessa a teses a priori, por refutar ideias pré-concebidas, por não aceitar encilhamento, por ancorar-se na força indomável da vida a reportagem de prospecção causa tanto desconforto. Eis a missão mais urgente do jornalismo num país injusto como o Brasil: incomodar os omissos, causar náuseas nos indiferentes, perturbar os negacionistas escancarando o que eles gostariam de esconder", começou ele.
"Antes mesmo da reportagem especial desta noite ir ao ar no 'Fantástico', assim que as chamadas começaram a ser veiculadas durante a semana, minha caixa postal ficou abarrotada de xingamentos que terminavam com perguntas acusatórias. Para que filmar a pobreza? Por que em vez de mostrar não entregaram cestas básicas? Por que expor tanta tristeza em vez de ajudar? A todos expliquei os porquês de mostrar: porque é inaceitável e porque é injusto.", continuou o jornalista.
Marcelo seguiu explicando que em duas décadas de carreira, sempre procurou ajudar como pode. "E aos que julgam os outros à luz de suas próprias debilidades morais, esclareço: eu e meu parceiro de ofício e utopias, Lúcio Alves, não acreditamos na assepsia emocional do jornalista diante do fato. Nos comovemos e, tanto hoje como há 20 anos, fomos deixando uma conta de luz paga aqui, uma cesta básica acolá, apoio frustrante de quem sabe que um ajutório fugaz não é solução para nada", ressaltou.
"Somente uma política de Estado consistente, estruturante e duradoura será capaz de enfrentar os efeitos da desigualdade perversa que nos envergonha. A luta contra a fome é também uma batalha retórica contra a sua negação. E por vezes, tristemente, quem nega o faz por sentir-se humilhado. Por esses, tenho compaixão. Aos cínicos, tenho más notícias: o jornalismo continuará botando o dedo na ferida até que o poder cicatrizante da justiça social nos cure dessa chaga", conclui Canellas.