HBO Max revisita tragédia de Realengo com a série ’Massacre na Escola’fotos: Divulgação

Rio - A série "Massacre na Escola - A Tragédia das Meninas de Realengo", do HBO Max, revisita o atentado à Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na Zona Oeste do Rio, em 7 de abril de 2011. Com depoimentos de sobreviventes e pessoas próximas, a diretora Bianca Lenti escancara o machismo presente na escolha das vítimas: 10 dos 12 estudantes assassinados eram meninas. A série de quatro episódios debate o feminicídio, termo pouco comum na época do crime, e o discurso de ódio contra as mulheres. 
A diretora explica que escolheu não dar visibilidade ao atirador e, sim, para as vítimas do massacre. "Revisitar o massacre de Realengo tem um peso de revisionismo histórico, porque a gente entende que existia um viés, que era o feminicídio em massa, que foi o que aconteceu. Na época, justamente por ser um fato muito novo, um massacre em escola no Brasil, não teve a cobertura adequada. Primeiro, a gente entende que temos que falar mais das vítimas, das famílias, de como as vidas foram impactadas, como elas estão hoje e como elas se refizeram de certa forma, falar mais disso do que tentar entender quem era esse atirador... O que a gente pretende é dar mais voz do que elas tiveram na época e mais do que isso entender que muita coisa mudou. Mas infelizmente para pior", afirma. 
Misoginia
Bianca acredita que a misoginia e os discursos de ódio ficaram ainda mais radicais nos últimos anos. Para ela, a escolha de meninas como alvos do atirador demonstra essa aversão enraizada na sociedade. "O discurso de ódio e a misoginia se radicalizaram nos últimos anos. Os números de feminicídio só aumentam, então a gente entende também que estamos partindo da tragédia das meninas de Realengo para analisar ao longo dos episódios um fenômeno social que agora se perpetua, infelizmente. Essa disseminação de discurso de ódio nas redes sociais e a facilitação do acesso às armas de fogo... Revisitar essa tragédia, na verdade, é falar sobre o que a gente está vivendo hoje, só que por uma perspectiva mais acolhedora, mais delicada em relação a abordagem que foi dada para às vítimas no passado", analisa. 
A diretora ainda comenta que apesar do crime ser entendido, nos dias atuais, como um feminicídio, a sociedade não avançou na proteção às mulheres. "Eu acho que a gente não tem mais como seguir caminhando e vivendo nesse caldo social e cultural que a gente vive no Brasil sem falar sobre discurso de ódio contra as mulheres, sem falar sobre misoginia e sem admitir que esses crimes são frutos de uma crença de que o corpo da mulher é o corpo que pode ser alvejado, pode ser morto ou estuprado. Enfim, é o corpo objetificado para todos os propósitos", diz. 
Na época em que o massacre de Realengo aconteceu, o termo "feminicídio" ainda não era tão conhecido. "O feminicídio não estava tipificado ainda. Eu acho que era muito difícil tocar nesse assunto. Se feminicídio em si ainda é um tema super tabu na sociedade, imagina um feminicídio em massa, né? Então, classificar esse crime como crime de gênero na época era utópico. Eu não entendo isso acontecendo na época, eu acho que nesse sentido a gente evoluiu muito na discussão. Hoje em dia a gente já entende que foi um crime de gênero, mas infelizmente a gente não evoluiu no combate ao discurso de ódio. É uma contradição... A gente consegue definir e consegue identificar o crime, mas as mulheres estão cada vez mais vulneráveis."
Novo Olhar
Gerente sênior de conteúdo de produções de não-ficção da Warner Bros Discovery, Patrício Díaz explica quais foram os cuidados que a equipe teve ao retratar e revisitar esse crime. "Um grande acerto da produtora foi trazer essa abordagem diferenciada de não mostrar e nem mencionar o assassino. Agora pode ser um consenso, mas antigamente não era. Então, foi uma visão adiantada e que a gente abraçou entendendo de onde vinha e porquê. E entendendo também que isso não enfraquecia a questão editorial do projeto. Esse é o primeiro ponto e acho que o mais importante", detalha. 
"Depois obviamente não explorar a violência pela violência e nem os aspectos sensacionalistas da tragédia. Sempre foi um consenso com a produtora trazer uma série importante, relevante e urgente, mas não cair em lugares que não contribuem ao debate, ou seja, não explorar elementos que não tragam um 'por quê?'.
Diretora do projeto, Bianca Lenti destaca que colocar as sobreviventes como protagonistas da série foi outro ponto que contribuiu para a mudança de abordagem da tragédia. "Esse revisionismo histórico exige que essas pessoas tenham a voz, que elas contem a sua própria história e que elas tenham domínio da sua própria narrativa. Elas estavam lá, presenciaram tudo, e sofreram traumas. Quando temos a possibilidade de contar, ainda mais 12 anos depois, conseguimos elaborar melhor. Você já consegue entender melhor o que aconteceu com você", pontua. 
"Eu acho que essas meninas foram extremamente impactadas, suas famílias, a comunidade, a escola... Mas conforme o tempo vai passando, a gente fica mais apto a elaborar as motivações (do atirador). Agora elas (as sobreviventes) estão tendo a chance de narrar sua própria história com as suas vozes", finaliza.
Reportagem da estagiária Letícia Pessôa sob supervisão de Tábata Uchoa