Zezé Motta e Andréa Beltrão estão no especial ’Falas da Vida’Globo/Manoella Mello

Rio - O especial "Falas da Vida", quarto da série antológica "Histórias Impossíveis", que vai ao ar na TV Globo nesta segunda-feira, parte de uma situação comum e adentra o universo fantástico através da saga de Meire (Andréa Beltrão), que, prestes a fazer 60 anos, desconfortável com a data e precisando fazer dinheiro, se permite ficar mais tempo ao volante.
Entre uma viagem e outra, ela perde o controle do carro e, por muito pouco, não sofre um acidente grave. O susto a faz conhecer outras motoristas e, junto a elas, se fortalecer diante dos desafios deste tipo de prestação de serviço, que envolve riscos constantes.
“A reflexão sobre o processo de envelhecimento e a forma como a sociedade trata as mulheres maduras no mercado de trabalho dão o tom ao episódio. Meire era motorista de ônibus, batalhou para exercer uma profissão historicamente masculina até que, num belo dia, diferentemente de outros colegas da mesma idade, decidiram que ela era velha demais para exercer seu ofício. Foi aí que ela encontrou na profissão de motorista de aplicativo uma forma de se manter atuante e garantir seu sustento e de sua família”, conceitua a autora Renata Martins. 
Na noite marcada por encontros impensáveis, mal sabe Meire que seu carro receberá a figura de Bex (Zezé Motta), uma senhora de outra dimensão, que promete mexer com suas convicções. A cada desabafo da motorista, novas perspectivas emergem da parte de trás do veículo, em diálogos cheios de simbolismo e cenas que misturam suspense e fantasia ao real.
“Aqui, o elemento fantástico contribui para um diálogo existencial, uma conversa que rompe com a correria do cotidiano para refletir sobre a passagem do tempo e a valorização da vida em todas as suas etapas”, define a diretora Luisa Lima.
“Bex é uma passageira de outra dimensão, que experiencia o espaço e o tempo de uma forma mais metafísica. Seu encontro com a Meire possibilita que a motorista tenha uma percepção mais sensível sobre sua vida e o seu processo de envelhecimento, afinal, o que importa, não é como os outros a veem, mas sim como ela se sente e se enxerga de fato”, observa Renata Martins.
Em sua ânsia por trabalhar e "cumprir a jornada", ao longo da história Meire será exposta a pessoas que vão confrontar sua visão de mundo e revelar seu incômodo com certas situações ou percepções comuns na sociedade. “Meire é uma trabalhadora massacrada por uma rotina pesada e angustiada porque sente que o tempo está passando para ela”, observa Andrea Beltrão. “Eu amei dirigir enquanto gravava, e esse ponto da profissão dela foi o que mais me tocou nesse episódio, especialmente sabendo que, após a pandemia, várias mulheres assumiram essa função para sustentar seus lares”, comenta a atriz.

Intérprete da personagem que atravessa o rumo de Meire, Zezé Motta reforça a importância do papel. “A Bex encara a idade com leveza, sabedoria, otimismo, com um sorriso. Ela passa ao lado desse preconceito e é um exemplo de como envelhecer bem. Bex se diverte, porque ela surpreende a Meire o tempo inteiro. Tem momentos em que Meire fica até chocada com a postura dela diante da vida. Com o comportamento, com as falas, ela acrescenta muito à vida da Meire”, destaca Zezé Motta.
Para além da trama, a interação da dupla de protagonistas representa um momento simbólico na TV. “É muito lindo ter essas duas mulheres que atravessaram gerações na construção do audiovisual brasileiro falando sobre os medos e os desafios em relação à passagem do tempo e ao envelhecimento”, celebra Luisa Lima.
A criadora e roteirista de ‘Histórias Impossíveis’ Grace Passô avalia que o encontro entre as duas personagens – que vivem e pensam de maneiras distintas – encoraja a pensar sobre certos tabus que envolvem o envelhecimento.
“‘O episódio reflete sobre como a relação com o tempo atravessando nossos corpos nos exige coragem e reação, sobretudo no contexto de uma sociedade muitas vezes adoecida por ideias delirantes de juventude eterna”, observa.
Jaqueline Souza acrescenta que, a depender dos marcadores sociais que as mulheres carregam, envelhecer tem múltiplos significados. “Para algumas mulheres, envelhecer é parte da vida, algo do campo pessoal com o qual precisamos nos acostumar. Para outras, envelhecer é um privilégio, dadas as violências a que estão expostas, e com estatísticas dizendo que esse envelhecimento pode não chegar. Ainda temos o aspecto social, em que o envelhecimento está associado ao medo de não conseguir se aposentar ou de fazê-lo e se tornar o arrimo financeiro da família”, avalia a autora.