Guilherme ArantesReprodução Internet / Facebook

Rio - Autor de hits como "Amanhã", "Deixa Chover" e "Meu Mundo e Nada Mais", o cantor e compositor Guilherme Arantes, de 70 anos, fez uma reflexão sobre a forma de se fazer televisão atualmente e revelou os motivos pelos quais não gosta mais de participar dos programas de TV. 
Em um longo texto publicado no Facebook, Arantes afirmou que não se sente à vontade nas atrações, que visam apenas audiência. "Me perguntam porque evito fazer televisão. É que tenho percebido que minha imagem pode trazer danos à audiência e que a 'audiência' da TV pode trazer danos para mim", iniciou o artista. 
Segundo o cantor, atualmente a televisão baseia-se nas polêmicas, em redes sociais, em pessoas "perfeitas" e as perguntas são feitas para "causar" e "colocar o artista frente a frente com o paredão de fuzilamento da polarização". 
"Explico. Sei que a TV foi maravilhosa para nossas gerações, especialmente a minha. Tenho total reconhecimento. Amo a TV. Amei existir e fazer parte dela. Mas era outra TV. Outro jeito de se fazer. A gente cantava, e pronto. Não tinham os componentes e as fórmulas que vingaram nos tempos atuais. Ficou bem complicado agora, com interatividade e o voyerismo invasivo, científico, dos talk shows... E sei que os programas das TVs vivem na corda-bamba, lutando desesperadamente por audiência. Muito da TV, hoje, se constrói em função do que vem e do que causa nas Redes Sociais. E isso é Orwelliano, diabólico", disse o cantor, fazendo referência a George Orwell, autor de "1984". 
Guilherme Arantes disse que sente um "constrangimento" por sua imagem realista em oposição a "perfeição" dos artistas que fazem sucesso atualmente. "Não quero constranger o público, também, já que hoje em dia as pessoas são todas muito bonitas nas redes sociais, nas mídias. Esta é a época de Ouro da humanidade, em que os seres humanos são todos simplesmente maravilhosos e todos muito virtuosos, com seus milhões de seguidores. Todo mundo faz a sua lição de casa, bonitinhos, com seus sorrisos e mensagens agregadoras, ou estudadamente 'chocantes', provocativas, vale tudo desde que sejam de alguma forma eficientes para angariar seguidores. É a Nova Verdade. Diga-me quantos te seguem, e te direi Quem És. Sinto um constrangimento em existir, ainda. Sei que já passou o tempo de eu estar enterrado num passado de lembranças, e não incomodar mais. Só que eu, Guilherme Arantes, insisto em não morrer (seria o ideal), e estou nascendo hoje para o futuro e insisto em dizer pra mim mesmo: eu existo. Dane-se o incomodo que causar". 
Constrangimento no 'Faustão'
O cantor exemplificou seu relato citando a ocasião em que participou do programa "Faustão na Band", em 2022, quando foi alvo de uma pergunta "burrinha" e "tóxica" de Anne Lottermann. "Anos atrás, fui fazer o Fausto Silva e a Anne Lottermann me perguntou se eu sentia saudades da cabeleira, da minha juventude. Sei que foi uma pergunta inocente e burrinha, coitadinha, porque eu lhe respondi na lata. Fiquei surpreso com a pergunta 'na lata'. As pessoas na TV têm que ser lindas. Isso é inquestionável", lamentou. 
"Respondi que eu não sinto saudades porque o meu conteúdo cerebral de hoje, o meu carisma até para responder... não dá para comparar com o conteúdo 'ralinho', o carisma fraquinho que eu tinha no tempo dos cabelões, que aliás, hoje data de mais de 40 anos, a provável idade dela. Não quero mais televisão porque quando é para ser entrevistado, a pergunta já vem pautada para 'causar', e as falas na TV são sempre tóxicas, trazem aborrecimentos e perdas pessoais. Tenho visto colegas entrarem nessa roubada de 'debates', de temas, de 'pautas', cujo único propósito é colocar o artista frente a frente com o paredão de fuzilamento da polarização, até aí, vai quem quer. Aí, quando é para cantar, aí as produções querem os 'hits' mais comportadinhos e digestivos, que garantam a audiência através dos 'grandes sucessos', que não tragam questionamento novo algum. É um tempo muito difícil de se estar vivo. Muito fácil para se estar morto", finalizou.