Funcionários do setor supermercadista enfrentam desafios e desvalorizaçãoPixabay

O setor supermercadista brasileiro vive uma grande escassez e mão de obra. Atualmente, o país conta com mais de 357 mil vagas de emprego abertas nesta área. Os dados são do Departamento de Economia e Pesquisa da Associação Brasileira de Supermercados (Abras).

As oportunidades são para as funções de operador de caixa, repositor, estoquista, balconista, auxiliar, açougueiro, padeiro, dentre outras e incluem também opções de trabalho para pessoas com deficiência.

Mas por que há tanta dificuldade de preencher estas vagas? O DIA conversou com diferentes entidades para entender a raiz do problema.

Segundo o presidente do Sindicato dos Comerciários do Rio, Márcio Ayer, há um desrespeito do setor com os funcionários.

"O comércio de supermercados, hortifrutis e atacarejos é o epicentro da precarização do trabalho no comércio, com a desumana escala 6x1, salários baixos, assédio moral constante e altos índices de adoecimento. Se as empresas querem atrair trabalhadores, que comecem por respeitá-los", disse.

Ayer também argumentou que o setor teve um aumento significativo no seu faturamento, mas continua oferecendo os piores salários do varejo.

"O setor registrou forte crescimento nas vendas em 2024, acima de 4%, o maior desde 2012, com projeções positivas também para este ano. Apesar disso, continua pagando os piores salários do varejo, o que afugenta mesmo quem está desesperado por um emprego", explica.

Por fim, Ayer defende os pontos que considera essenciais para melhorar a situação do trabalhador e atrair mais mão de obra:

"Em primeiro lugar, é essencial acabar com a escala 6x1, substituindo por jornadas mais humanas. A categoria precisa ter também reajustes salariais reais, com pisos que acompanhem não apenas a inflação, mas também os lucros recordes do setor... falta também uma política de benefícios mais atraente, porque hoje os supermercados não oferecem nem mesmo uma cesta básica para seus funcionários, o que seria muito simples para quem comercializa alimentos".

Heloisa Helena Ferraz, professora da Uerj, com experiência em psicologia do trabalho e consultoria organizacional na área de Recursos Humanos, também destacou alguns pontos sobre o tema. Além de concordar com o presidente do sindicato sobre a precarização do trabalho com salários baixos, poucos benefícios e a escala 6x1, que exige trabalho em finais de semana e feriados, ela trouxe outras questões.

"Com essas condições não atrativas, os trabalhadores que aceitam estas vagas já consideram como um serviço temporário. Além disso, também há uma forte concorrência do trabalho informal", destaca.

Ela também cita ainda a importância de fatores. "Compensação justa, condições de trabalho seguras e saudáveis, oportunidade de desenvolvimento e crescimento, ausência de preconceitos, implantação de benefícios, espaço do trabalho proporcional na vida das pessoas e razões para ter motivo de fazer parte da organização poderiam atrair mais trabalhadores", alerta.

Vagas para militares

Para tentar driblar a carência de mão de obra, a Abras estabeleceu uma parceria com o Exército para preenchimento das vagas. "Antes, o trabalhador procurava o supermercado. Agora, o supermercado está procurando, usando redes, oferecendo bolsas de empregos, e com iniciativas com Exército, Marinha e Força Aérea no sentido de que os egressos do sistema militar encontrem nos mercados oportunidade de emprego de forma mais rápida", disse Marcio Milan, vice-presidente da entidade.

Contudo, a iniciativa da Abras é duramente criticada por Márcio Ayer:

"Para driblar esta situação, os patrões do setor tiveram uma 'ideia genial'. Nada de aumentar os salários, nada de acabar com a desumana escala 6x1, muito menos melhorar os benefícios ou as condições de trabalho. A jogada? Querem contratar a garotada que acabou de dar baixa no Exército – mão de obra barata e sem opção – e ainda vão vender isso como se fosse um grande programa de 'primeiro emprego'. É uma falsa solução, que o sindicato rejeita", pontua.

Questionada sobre a situação, a Associação de Supermercados do Rio de Janeiro (Asserj) informou que seu objetivo é desenvolver o setor e que em março foram abertos 232 postos de trabalho no ramo supermercadista.

'Só se tiver muita necessidade'

O DIA conversou com Victoria Nascimento, de 27 anos, que atuou por sete anos em uma rede de supermercados. Ela, que mora em Santa Cruz da Serra, em Duque de Caxias, contou um pouco de sua experiência e disse que chegou a adoecer por conta do trabalho.
Victoria Nascimento trabalhou por 7 anos em uma rede de supermercados - Arquivo Pessoal
Victoria Nascimento trabalhou por 7 anos em uma rede de supermercadosArquivo Pessoal


"Minha carteira era assinada como empacotadora, mas na realidade eu ficava em qualquer setor para cobrir as faltas. Fiquei de 2016 a 2023", lembra. "Saí de lá por que adquiri uma doença crônica por ficar muitas horas em pé", revela.

Perguntada sobre o que diria se algum conhecido quisesse trabalhar em uma rede de supermercados, ela é direta: "Só trabalhe em supermercado se tiver muita necessidade, porque você trabalha muito e trabalha direto".