Haddad falou com jornalistas ao chegar à sede do Ministério nesta sexta-feiraMarcelo Camargo / Agência Brasil

Brasília - O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse nesta sexta-feira, 1º, que o pacote de ajuda do governo federal aos setores brasileiros afetados pelo tarifaço dos Estados Unidos não será contabilizado fora da meta fiscal.

"Na nossa proposta que está sendo encaminhada não vai existir isso. Embora tenha havido da parte do Tribunal de Contas da União a compreensão de que se fosse necessário (ajuda poderia ocorrer fora da meta), mas não é a nossa demanda inicial", disse Haddad a jornalistas ao chegar à sede da pasta nesta manhã.

"Entendemos que conseguimos operar dentro do marco fiscal sem nenhum tipo de alteração", completou.

A perspectiva de o socorro aos setores ser custeado com recursos contabilizados fora da meta fiscal foi apresentada publicamente na quinta-feira, 31, pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, durante o programa "Mais Você", da TV Globo.

Segundo Alckmin, o plano de contingência que será anunciado pelo governo federal poderá contar com eventual crédito adicional para atender a despesas imprevisíveis e urgentes. "Não queremos déficit nenhum. Queremos o menor impacto possível. Pode excluir do resultado primário, como foi no Rio Grande do Sul, que teve um fato superveniente", comparou o vice.
"EUA têm perdido espaço na economia brasileira"
Haddad disse que os Estados Unidos têm perdido espaço na economia brasileira nos últimos anos, mas defendeu que o Brasil quer ampliar as parcerias com aquele país. "Nós temos que administrar uma situação incomum. É um gesto do presidente americano que, por razões conhecidas, divulgadas por vocês, tem recebido da parte da oposição - especificamente do Bolsonaro - informações equivocadas sobre o Brasil", começou o ministro. Em seguida, ele disse que é preciso "dissipar essa desinformação e trazer o debate para a racionalidade em busca da cooperação".

"Os Estados Unidos têm perdido espaço na economia brasileira. Eles representavam 25% das nossas exportações. Hoje, representam menos da metade. Isso não é bom, porque é a maior economia do mundo", pontuou Haddad.

Ele sustentou que na administração do ex-presidente dos EUA Joe Biden, o governo brasileiro fez "o possível" para atrair mais investimentos americanos.

"Mostramos os vários setores que pudemos cooperar. Nós continuamos pensando da mesma maneira. Embora tenha havido uma troca de comando lá, o nosso objetivo, enquanto Estado nacional, continua sendo o mesmo: mais parcerias com os Estados Unidos. Nós não vamos mudar, porque agora tem um presidente menos alinhado com a social democrática brasileira", completou Haddad. "Há muito espaço para parcerias, muito espaço. E é sobre isso que nós temos que jogar luz. Mostrar para eles que não tem essa de o Brasil cair no colo de A, B ou C", disse, defendendo um estreitamento dos laços de cooperação entre Brasil e EUA, "desde que seja bom para os dois lados".

Apesar da concorrência com produtos norte-americanos em alguns setores, o ministro citou o espaço para complementaridade. "Eles americanos têm participado pouco de licitações no Brasil. A nossa infraestrutura está crescendo como há muito tempo não se via", exemplificou.

Contatos com Scott Bessent

Haddad disse também que tem mantido contato contínuo com a assessoria do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, e que está à disposição para se reunir com o norte-americano. "Desde que ele (Bessent) estava na Europa, nós estamos praticamente entrando em contato dia sim e dia não com a assessoria dele, nos colocando à disposição. Ele é uma figura central, porque a secretaria dele, que é o ministério, na verdade, também tem uma dimensão política importante", afirmou.

O ministro pontuou que há alguns aspectos da decisão do presidente Donald Trump que resvalam na política. "E o Scott Bassett é alguém que pode ajudar a mediar o entendimento", defendeu Haddad.

O auxiliar do presidente Lula afirmou também que é preciso haver compreensão por parte do governo norte-americano de como funcionam as instituições brasileiras e de quais são os limites que o Poder Executivo tem, do ponto de vista constitucional e do ponto de vista da harmonia dos poderes. "Isso tudo precisa ser compreendido pelo lado de lá, porque senão passa uma impressão equivocada do que está acontecendo."

Perguntado se uma reunião com Bessent pode ocorrer antes do dia 6 de agosto, data prevista para entrada em vigor das tarifas dos EUA a produtos brasileiros, Haddad respondeu: "Não depende de mim, eu estou disponível a todo tempo, sábado, domingo, de madrugada."
Haddad diz estar aberto a parcerias com governadores para mitigar impactos do tarifaço
Haddad afirmou que está aberto a firmar parcerias com governadores de Estados brasileiros para mitigar os impactos do tarifaço dos Estados Unidos. Ele afirmou que o primeiro governador que irá receber é Elmano de Freitas (PT), do Ceará, na tarde desta sexta-feira.

Segundo Haddad, o governador cearense busca apoio para a compra de produtos alimentícios para a merenda do Estado. "Pelo que eu entendi, ele vai nos apresentar uma pequena mudança legislativa que seria necessária na opinião dele para fazer da maneira como ele pretende, de forma acelerada, para dar respaldo jurídico para as decisões que ele quer tomar", explicou.

"Essas parcerias são muito importantes. O governador que quiser vir a Brasília para parcerias, no sentido de socorrer a sua indústria, a sua agricultura, nós estamos aqui", frisou Haddad.

Ele disse que a ideia é "somar forças com o governo federal, sem ideologias, sem tentar tirar vantagem política". "O foco é no empresário, no trabalhador, foco no interesse nacional. Nós estamos completamente disponíveis", completou.