Haddad criticou quem vai às ruas pedir intervenção americana e tarifaço contra o BrasilLula Marques/Agência Brasil

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta segunda-feira (04) que são inaceitáveis os pedidos de intervenção tanto na área política quanto na comercial contra o Brasil. Durante entrevista ao programa Entre Nós, da BandNews, que teve como tema principal o tarifaço dos Estados Unidos para o Brasil, ele também disse que há forças políticas dentro do País que estão trabalhando contra os interesses nacionais.

"Penso que aqui que a questão está localizada num assunto indesejável, incômodo, que é o fato de que há forças políticas dentro do Brasil trabalhando contra os interesses nacionais. É isso que nós temos que resolver de uma vez por todas", criticou o ministro.

Para ele, a saída é que o País se resolva internamente. "A oposição e a situação têm que sentar à mesa e defender os interesses nacionais, fortalecer quem está negociando pelo Brasil, a autoridade constituída que está negociando pelo Brasil Ela que precisa ser fortalecida. E aí nós vamos resolver esse problema da melhor maneira possível", defendeu.

O ministro também criticou quem vai às ruas pedir intervenção americana e tarifaço contra o Brasil. "Essas coisas são inaceitáveis. Já tivemos gente indo para a rua pedindo intervenção militar no Brasil há pouco tempo. Agora, intervenção comercial, tarifaço contra o Brasil. Os nossos problemas têm que ser resolvidos por nós, nós temos um país democrático, no ano que vem tem eleição, todo mundo vai votar em quem quiser", disse. 
Moedas locais x Dólar
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou, ainda, que é cada vez mais comum o uso de moedas locais em comércios bilaterais sem passar necessariamente pela moeda norte-americana. O ministro salientou que a prática já foi usada no Mercosul e que o debate está sendo retomado para que seja mais frequente. "Penso que o comércio em moeda local, sobretudo com as moedas digitais, tendem a ser um fato cada vez mais frequente nas relações bilaterais", previu.

Ele também citou o caso do comércio entre Índia e Rússia, que se dá em moeda local e que cada vez menos passa pelo dólar. "E nem por isso a Índia foi penalizada com uma tarifa de 50%", comparou, salientando que empréstimos internacionais também têm se dado em outras moedas. "Então não é propriamente uma novidade falar disso. E a moeda americana, quem tem de cuidar da moeda americana é o país emitente a moeda americana, que são os Estados Unidos", continuou.

De acordo com Haddad, a moeda americana teve muita força como reserva de valor e como meio de pagamento, e pode continuar tendo, mas que este é um assunto doméstico dos Estados Unidos, pois depende do quanto as finanças do país estiverem bem e de quão seguras as pessoas estão de deter as suas reservas em dólar. "Isso está mudando por razões que transcendem a vontade do Brasil, é uma realidade global hoje, toda hora tem notícias sobre um país ter diminuído as suas reservas em dólar para comprar mais ouro, para comprar mais euro, para comprar iene. Essa mudança do portfólio dos fundos soberanos, dos fundos de previdência, isso é um movimento normal que está acontecendo."
'Democracia do Brasil é inspirada na dos EUA'
Haddad disse, também, que foram os Estados Unidos que puxaram o fio da democratização do continente, com a descolonização e o aperfeiçoamento da democracia. Mas, segundo ele, o Brasil foi além da democracia norte-americana em vários quesitos, em vários tópicos e a democracia do País é inspirada na dos EUA.

"Nós estamos até um pouco à frente. Isso não sou eu que estou dizendo. São cientistas políticos dos Estados Unidos da América que hoje dizem que o Brasil é mais exemplo de democracia do que muitos países pioneiros da instituição da democracia no mundo", afirmou o ministro. 

De acordo com ele, o governo está aberto a discutir comércio e política externa. "Quer discutir comércio? Nós vamos discutir comércio. Quer discutir política? Política externa? Nós podemos discutir política externa", afirmou. Haddad contou que nos dois últimos anos da administração de Joe Biden ele foi encarregado de buscar uma aproximação econômica com Janet Yellen, que ocupava a secretaria do Tesouro norte-americano. "E estamos justamente discutindo parcerias com os Estados Unidos da América, sobretudo na questão da transição energética, que nós temos várias coisas comuns, interesse em solar, em eólica e biocombustíveis."

Haddad afirmou que a soberania do Brasil não está em discussão. "O nosso comando, as nossas relações bilaterais estão em discussão. Por isso é saudável que os Estados Unidos se interessem mais pelo Brasil e vice-versa. É um parceiro muito tradicional nosso", disse.
Haddad afirma que levará a secretário do Tesouro dos EUA como funciona o Judiciário brasileiro
O economista afirmou que pretende explicar ao secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, como funciona o judiciário brasileiro em possível conversa que os dois terão esta semana para tratar do tarifaço dos EUA sobre o Brasil. "Você pensa que, se você trocando de juiz, você vai trocar o veredicto? Você não vai trocar o veredicto trocando de juiz, porque nós temos aqui várias salvaguardas internas e externas", afirmou durante entrevista ao programa Entre Nós, da BandNews, sem citar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre Moraes, que vem sendo alvo de sanções norte-americanas.

Haddad lembrou que o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, recorreu ao Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas e foi absolvido. "Não só internamente, mas externamente ele foi absolvido", disse, salientando que o Brasil é signatário de todos os acordos internacionais que dizem respeito a direitos humanos.

O problema, conforme Haddad, não é o juiz, mas os atos perpetrados contra a Constituição. "Isso não vai mudar: o problema das provas, das confissões, das delações, dos fatos concretos apurados, isso não vai mudar trocando de juiz. O Estado brasileiro está tratando o assunto com a seriedade merecida. Agora, os fatos estão sendo tratados dessa maneira, porque são graves", considerou em referência ao julgamento do ex-presidente da República Jair Bolsonaro.

Questionado sobre se o governo não pretende retaliar os EUA comercialmente, o ministro disse preferir a palavra "proteger". "Vamos proteger o Brasil. Esta é a obrigação do Estado. Isso vale para o comércio, isso vale para as nossas instituições, vale pra democracia, vale para a soberania. Então nós vamos agir no sentido de proteger", disse, enfatizando que há uma relação de 200 anos de amizade e de prosperidade entre os dois países.