A secretária Patrícia Bastos Chagas com seu cãozinho Angelo AugustoArquivo pessoal

Rio - Ângelo Augusto é um cão de 7 anos, come filet mignon suíno e faz exames de sangue todo mês. A rotina de luxo seria digna de um influenciador pet, mas a tutora dele, a secretária Patrícia Bastos Chagas, jura que não há exagero.
"Ele me salvou da depressão durante o isolamento. É meu amigo, meu companheiro. Já deixei de viajar e de comprar coisas pra mim, mas nunca deixei de cuidar dele", conta.

Patrícia gasta cerca de R$ 1,7 mil por mês com o cão, que foi diagnosticado com leucemia. O investimento inclui alimentação natural, remédios, brinquedos e até creche. "Ele não pediu pra ser adotado. Se eu o fiz, é pra cuidar da melhor forma possível", frisa.
Já a empresária Bárbara Siciliano, de 32 anos, tenta equilibrar o orçamento sem abrir mão do cuidado com as duas cachorras, Zara e Tiquinha.
"Em média, gasto cerca de R$ 1 mil por mês com alimentação, plano de saúde, brinquedos e remédios. Quando o mês está apertado, cortamos saídas e pedidos de comida, mas nunca o que é delas", diz.
Bárbara Siciliano com as cachorras Zara e Tiquinha - Arquivo pessoal
Bárbara Siciliano com as cachorras Zara e TiquinhaArquivo pessoal


Dona de dois pet shops, Bárbara admite que, mesmo comprando a preço de custo, o impacto financeiro é grande.
"Ter loja ajuda, mas não isenta. A alimentação natural e o plano de saúde continuam pesando. Elas são parte da família, então é prioridade", explica

Histórias como as das duas mulheres ajudam a entender por que o mercado pet parece imune às crises. Segundo levantamento do Sebrae Rio, o Estado já conta com 22,1 mil estabelecimentos voltados ao setor, um crescimento de 49% desde 2020. O Rio de Janeiro é hoje o terceiro maior polo pet do País, com 8% do mercado nacional. O estudo mostra que 97% das empresas são de micro e pequeno porte — de empreendedores individuais a pequenas empresas familiares.

"O setor pet segue crescendo porque combina duas forças: o amor das pessoas pelos seus animais e a capacidade dos empreendedores de atender a essa demanda com criatividade. O resultado é um mercado dinâmico, cheio de inovação, que gera renda e oportunidades em praticamente todas as regiões do Estado", aponta a porta-voz do Sebrae Rio, Natalia Leitão. 
A capital concentra 39% dos pet shops, cerca de 8,5 mil, segundo o Sebrae, mas o movimento se espalha por todo o Estado. Cidades como São Gonçalo, Nova Iguaçu, Niterói e Duque de Caxias aparecem entre os principais polos.

De acordo com a Secretaria Estadual de Fazenda, há 3.639 empresas do setor, focadas nas vendas de produtos para os animaizinhos. Já na capital, a Secretaria Municipal de Ordem Pública contabiliza 3.589 registros. Os bairros com mais estabelecimentos são Barra da Tijuca (245), Campo Grande (191), Tijuca (184), Recreio dos Bandeirantes (163) e Copacabana (116).
O afeto que movimenta a economia

O vínculo entre humanos e animais é tão forte que já influencia o comportamento de consumo. Uma pesquisa da Serasa e do Instituto Opinion Box mostra que 65% dos tutores brasileiros estão dispostos a gastar o que for preciso com seus pets, e 52% já priorizaram o orçamento dos bichos em vez de outras despesas pessoais.
Os valores destinados aos pets variam bastante: 56% dos tutores desembolsam até R$ 300 por mês, enquanto 48% afirmam que os gastos equivalem a até 5% da renda mensal. Já 31% investem entre 6% e 10% do que ganham.

As principais despesas envolvem alimentação (83%), vacinas (38%), banho e tosa (35%), remédios (33%), consultas veterinárias (30%), brinquedos (21%) e exames (15%). Em 40% dos lares, os custos são divididos entre mais de uma pessoa.
Cássia Fernanda e Rita Nascimento: público não abandona cuidados com os bichos mesmo com contas apertadas - Arquivo pessoal
Cássia Fernanda e Rita Nascimento: público não abandona cuidados com os bichos mesmo com contas apertadasArquivo pessoal
A dona do Almofadinhas Beleza Pet, localizado em Ramos, na Zona Norte carioca, Rita Nascimento, confirma esse movimento. "Eles são vistos como membros da família”, resume.
O estúdio oferece banho, tosa, hidratação e corte de unhas, com pacotes mensais entre R$ 120 e R$ 200. "Alguns clientes reduzem a frequência, por conta dos gastos, mas continuam. Outros dividem com familiares para não deixar de trazer o pet", conta.
Gabriela Machado aposta na personalização: oferece acessórios, cenários fotográficos e pacotes temáticos - Arquivo pessoal
Gabriela Machado aposta na personalização: oferece acessórios, cenários fotográficos e pacotes temáticosArquivo pessoal


Em Niterói, Gabriela Machado da Cruz, de 38 anos, proprietária do Pet Grooming Studio, relata que muitos procuram serviços de personalização de seus pets. No local, ela oferece acessórios, cenários fotográficos e pacotes temáticos. "Os clientes adoram as fotos e esperam ansiosos pelas campanhas de Natal", conta.
Para a psicóloga e professora Rachel Sette, do UniArnaldo Centro Universitário, o fenômeno é explicado por mecanismos neurobiológicos.
"As interações com os animais ativam o sistema límbico e liberam ocitocina, dopamina e serotonina — neurotransmissores ligados ao prazer e à regulação emocional. Os pets oferecem previsibilidade e segurança emocional em um mundo onde as relações humanas são cada vez mais instáveis", explica.
A psicóloga Rachel Sette defende que vínculo entre humanos e animais é sustentado por diversos fatores - Divulgação
A psicóloga Rachel Sette defende que vínculo entre humanos e animais é sustentado por diversos fatoresDivulgação



A psicóloga Michele Silveira complementa: "Vivemos um tempo de vínculos frágeis e relações apressadas. Os pets representam um espaço afetivo seguro — não julgam, não cobram e estão sempre presentes. Esse consumo é simbólico: expressa amor e pertencimento."
Michele Silveira diz que pets representam um espaço afetivo seguro, pois não julgam, não cobram e estão sempre presentes - Divulgação
Michele Silveira diz que pets representam um espaço afetivo seguro, pois não julgam, não cobram e estão sempre presentesDivulgação


Ela acredita que o fenômeno dos “pais e mães de pet” deve crescer ainda mais. "Com o adiamento da parentalidade e a busca por autonomia, os animais se tornam figuras centrais de afeto. É um amor bonito — desde que não substitua o vínculo humano", alerta.
Mesmo com desaceleração, setor deve faturar R$ 77,2 bilhões em 2025

Mesmo com uma leve desaceleração nas projeções, o mercado pet nacional deve movimentar R$ 77,2 bilhões em 2025, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet) e o Instituto Pet Brasil (IPB). O crescimento previsto é de 2,4% em relação ao ano passado — abaixo dos 3,5% projetados no primeiro trimestre.

O segmento de alimentos industrializados continua liderando, representando 52,9% do faturamento. Em seguida vêm os serviços veterinários e estéticos, que juntos somam mais de R$ 8 bilhões.
"O setor pet segue sólido, mas os resultados projetados para 2025 refletem os desafios econômicos e o peso da alta tributação sobre produtos e serviços", explica Caio Villela, presidente do IPB.
Adriana Souza, proprietária do pet shop Latidos e Miados, na Tijuca, relata que impostos estão dificultando a viabilidade do negócio - Arquivo pessoal
Adriana Souza, proprietária do pet shop Latidos e Miados, na Tijuca, relata que impostos estão dificultando a viabilidade do negócioArquivo pessoal
É o caso da empresária Adriana Souza, proprietária do pet shop Latidos e Miados, na Tijuca, Zona Norte do Rio. Ela relata que impostos estão dificultando a viabilidade do negócio. "O que mais encarece são os impostos e despesas como luz e água. E a estratégia que encontrei para lidar com isso é não aplicar aumento", relata.
Benizete Delgado, gerente da empresa Casa do Pet, em Volta Redonda, aposta no marketing digital para atrair clientes - Arquivo pessoal
Benizete Delgado, gerente da empresa Casa do Pet, em Volta Redonda, aposta no marketing digital para atrair clientesArquivo pessoal
Para driblar os desafios, como a concorrência com pet shops on-line e a busca por preços mais em conta por parte dos consumidores, Benizete Delgado, gerente da empresa Casa do Pet, em Volta Redonda, no Sul Fluminense, conta que a rede aposta em negociação com fornecedores para promoções e no marketing digital como ferramenta essencial para equilibrar o jogo.
"Trabalhamos muito com marketing e fizemos da loja um ambiente familiar. Hoje, não trabalhar com redes sociais é nadar, nadar e morrer na praia. Não tem outra opção. As nossas vendas através das redes aumentaram 60%", relata.