Manuela Ornelas trocou a vida acadêmica pelo balcão da peixariaDivulgação
O retrato das empreendedoras fluminenses mostra mulheres entre 30 e 49 anos, muitas conciliando maternidade e trabalho. Quando o assunto é escolaridade, 72,4% têm ensino médio completo ou mais, e quase 29% já concluíram o ensino superior. A necessidade ainda é motor importante para o início de muitos negócios — mas cresce a busca por autonomia, propósito e flexibilidade, especialmente no pós-pandemia.
A analista do Sebrae Rio Fabiana Ramos explica que a digitalização “impulsionou negócios por oportunidade”, abrindo espaço para quem encontrou nas redes sociais e no marketing digital um jeito de romper barreiras. Mas reforça: acesso ao crédito, dupla jornada e falta de rede de apoio seguem como grandes entraves.
Mesmo diante desses obstáculos, mulheres têm se destacado pela capacidade de planejamento e pela força no relacionamento com clientes. Setores como alimentação, beleza, moda e artesanato concentram 70% das empreendedoras. No caso da alimentação — historicamente masculino — elas já dominam: são 54% da força de trabalho formal e 56% do mercado informal.
Da crise à criação
Entre as diferentes formas de empreender, um movimento se destaca no Estado: mulheres que transformam crises em reinvenção e encontram na internet uma plataforma de sobrevivência e expansão. É nesse cenário que se encaixa a trajetória de Manuela Ornelas, 37 anos, proprietária do Bar da Peixaria, do Sushi Bar e de uma peixaria em Irajá, na Zona Norte do Rio.
A história de Manu traduz exatamente o fenômeno que o Sebrae observa: o uso estratégico — muitas vezes intuitivo — das redes sociais para virar o jogo. Ela trocou o doutorado e a carreira acadêmica pela vontade de “ganhar dinheiro” e cuidar do patrimônio da família. Começou bem, mas a falta de planejamento — outro desafio frequente entre mulheres que iniciam sozinhas — levou ao colapso.
“Eu dei alguns passos maiores que a perna, sem planejamento (...). Foi quando eu quebrei e fiquei com quase um milhão de dívida. Sem dinheiro para a água”, conta.
O momento crítico a obrigou a recuar: fechou duas lojas, voltou à primeira unidade e decidiu trabalhar sem descanso. Foi quando encontrou um novo fôlego no digital. O que antes era apenas gosto pessoal virou estratégia de sobrevivência.
Ao transformar dicas e receitas antes dadas no balcão em conteúdo nas redes, Manu viu a clientela crescer e a venda acompanhar. “Quanto mais eu criava, mais eu vendia”, diz. A estratégia virou rotina — e hábito. Até os motoboys pediam: “grava vídeo aí pra gente vender”.
A internet não apenas salvou o negócio: criou outro. Quanto mais ela ensinava receitas, mais clientes pediam o prato pronto. Assim nasceu o Bar da Peixaria, que começou com duas mesas no meio da rua e hoje compõe, com a peixaria e o sushi bar recém-inaugurado, um polo gastronômico informal com cerca de 50 funcionários. O faturamento acompanhou: de R$ 2.500 por dia para mais de R$ 10 mil diários nas três unidades.
Do zero ao propósito
Se Manu representa a força da digitalização e da virada diante da crise, Meirilli Vidal simboliza outro movimento crescente entre empreendedoras do Estado: abrir negócios com propósito, autonomia e forte vínculo emocional com a comunidade.
Fundadora do Pérola Pilates e do Pérola Move 360, na Vila da Penha e em Del Castilho, respectivamente, ambos na Zona Norte do Rio, ela conta que a motivação veio de vários lados: do propósito de transformar vidas, da necessidade de crescer profissionalmente e da busca por decidir seu próprio destino. Assim como muitas mulheres que começam sozinhas, o início foi intenso — e solitário.
“Eu montei o estúdio do zero”, lembra. Por questões éticas, não abriu no bairro onde já trabalhava e teve de recomeçar em uma região onde não conhecia ninguém. “Tive que aprender a ser gestora, vendedora e até marceneira às vezes”, conta.
O crescimento trouxe novos desafios, como a denúncia anônima ao Conselho Regional de Educação Física (Cref) — que, após fiscalização, foi considerada infundada. Em vez de paralisar, o episódio reforçou seu senso de propósito: “Até os ataques fazem parte do caminho de quem está crescendo”.
Assim como Manu, Meirilli também enfrentou preconceito. Alunos que testavam sua autoridade e homens que se recusavam a cumprir regras a levaram, um dia, a expulsar um deles do estúdio: “Eu o demiti por não me respeitar”.
Liderança feminina: firmeza, empatia e visão de futuro
Para a gestora de carreiras Priscilla Zanatelli, o que diferencia muitas mulheres à frente de pequenos negócios é uma combinação rara entre visão estratégica e sensibilidade na gestão. Ela destaca três comportamentos decisivos para transformar um empreendimento nascente em uma empresa sólida: autoconfiança, disciplina e visão de longo prazo — além da capacidade de pedir ajuda e construir redes.
As mulheres, diz Priscilla, têm um “olhar integrador” sobre o negócio. "Elas costumam equilibrar resultado e propósito, performance e bem-estar, o que traz sustentabilidade à empresa. Enquanto muitos homens ainda operam em uma lógica mais linear, as mulheres pensam de forma sistêmica: conectam pessoas, processos e propósito de maneira orgânica. Isso não é melhor ou pior, mas é uma diferença de abordagem que traz riqueza ao ecossistema empreendedor.”
A especialista também aponta que empreender exige tanto ousadia quanto planejamento — e que mulheres, muitas vezes, dominam bem esse equilíbrio.
“Coragem sem estratégia é impulso; estratégia sem coragem é bloqueio. O sucesso está em unir ambos: planejar o que é possível prever e confiar na própria intuição para lidar com o que não se pode controlar. Mulheres que inovam partem muito desse equilíbrio: elas se preparam, mas também se permitem sentir quando é hora de dar o salto.”
No campo emocional, Priscilla destaca desafios comuns, como a síndrome da impostora — frequente em setores historicamente masculinos — e a dificuldade de encontrar o ponto ideal entre firmeza e aceitação. “Há mulheres que se cobram ser duras para serem respeitadas e, ao mesmo tempo, temem perder empatia. Quando encontram o próprio estilo de liderança, elas transformam a cultura ao redor”, destaca.
Responsabilidade e impacto
As histórias delas se conectam aos dados de forma clara: segundo estudo inédito da Serasa Experian, negócios liderados por mulheres têm 20% menos inadimplência do que os de homens. Além disso, apresentam distribuição mais equilibrada no Score PJ — indicador essencial para acesso a crédito — e taxas de longevidade semelhantes às empresas masculinas, mesmo sendo, em média, menores e mais jovens.
Continuar apesar do medo
Em percursos diferentes — entre dívidas, denúncias, machismo, inseguranças e a solidão do início —, Manu e Meirilli compartilham os mesmos pilares de quem empreende: fé, coragem e persistência.
“É difícil, mas é possível. Eu sou prova viva de que dá pra cair, levantar e superar”, diz Manu.
Meirilli reforça: “O medo vai existir, mas ele só paralisa se você deixar. Você não precisa começar com o negócio perfeito. Você só precisa começar.”
Quando as mulheres avançam, como mostram suas histórias, avança também a economia — e as comunidades ao redor delas.



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