Aleksander Ceferin, presidente da UefaAFP / Jure Makovec
Publicado 30/07/2026 14:00
O plano da Fifa de vender ações da Copa do Mundo para investidores privados, publicado na última terça-feira (28), segue sendo reprovado nos bastidores. Desta vez, as 55 seleções da Europa concordaram, de maneira unânime, em boicotar o Mundial caso a entidade leve a ideia à frente.
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"A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. É um dos maiores legados do futebol. Foi construída ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e torcedores em todos os continentes. Nenhuma parte dela jamais deveria ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda", escreveu a Uefa, entidade máxima do futebol europeu, em comunicado.
Anteriormente, as confederações já haviam ameaçado o boicote em reação ao plano. Na reunião de emergência, marcada para esta quinta-feira (30), todas elas confirmaram a posição inicial e trataram a ideia de Gianni Infantino, presidente da Fifa, como "irresponsável e indefensável".
Além da decisão de não participar dos próximos Mundiais, as nações europeias concordaram em não apoiar nenhuma outra competição promovida pela Fifa. Ou seja, a Copa do Mundo feminina e o Mundial de Clubes também podem entrar na sanção.
Logo que o plano de "venda" foi publicado pela Fifa, a própria Uefa foi a primeira a detoná-lo. A ideia de Infantino é criar uma empresa chamada "Fifa Forward Enterprise (FFE)", responsável por administrar as competições promovidas pela entidade, e negociar parte de suas ações com investidores privados.

Confira o comunicado completo da Uefa

"A UEFA e suas 55 associações-membro estão unidas. Rejeitamos de forma unânime e inequívoca a proposta da FIFA de transferir participações acionárias na Copa do Mundo e em outras competições da FIFA para investidores privados.

A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. É um dos maiores legados do futebol. Foi construída ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e torcedores em todos os continentes. Nenhuma parte dela jamais deveria ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda.

É irresponsável e indefensável que uma proposta de tamanha importância para o futebol tenha sido concebida em segredo e levada à beira da aprovação sem qualquer consulta significativa com os responsáveis pela gestão do esporte. Isso não é apenas uma profunda falha de liderança, mas uma abdicação do dever da FIFA como guardiã do futebol mundial.

As federações nacionais de todo o mundo enfrentam agora um ultimato: aceitar a captura irreversível das maiores competições de futebol ou arcar com as consequências. Esta não é uma “decisão democrática”, mas sim uma governança pela intimidação – um ato de coerção indigno de uma instituição encarregada da gestão do futebol mundial.

Mas a nossa oposição vai muito além dos processos.

No momento em que investidores externos adquirem participações acionárias em competições da FIFA, o futebol muda para sempre. O retorno comercial torna-se uma obrigação permanente. As expectativas dos investidores transformam-se em uma pressão diária. A partir desse momento, cada decisão sobre o calendário internacional, cada decisão sobre os formatos das competições e cada decisão que molda o futuro do futebol deixa de ser guiada pelo que é melhor para o esporte e passa a ser guiada pelo que é melhor para os acionistas.

Este modelo não tem lugar no futebol mundial. O futuro do futebol não pode ser ditado pelas expectativas daqueles cuja principal obrigação é maximizar o retorno financeiro. Nem os interesses das federações nacionais, ligas, clubes, jogadores e torcedores podem ser subordinados ao retorno dos investidores. O futebol não pode hipotecar seu futuro em busca de lucro.

A posição da Europa é clara. Jamais daremos legitimidade a esse modelo. Ninguém tem autoridade moral para vender aquilo que simplesmente detém em custódia para a próxima geração.

Como resultado da discussão de hoje, nenhuma seleção nacional da UEFA participará de qualquer competição da FIFA enquanto essas propostas permanecerem em vigor, a menos que a proposta seja abandonada por completo e que sejam dadas garantias vinculativas de que a FIFA jamais abrirá sua governança ou competições à propriedade privada.

Ninguém deve ter dúvidas: a UEFA e suas federações nacionais se oporão a esses planos com absoluta determinação.

Há momentos em que as instituições são julgadas não pelo que estão dispostas a aceitar, mas pelo que se recusam a ceder. Este é um desses momentos.

Algumas coisas são simplesmente importantes demais para serem vendidas. A Copa do Mundo da FIFA pertence ao futebol. Sempre pertencerá. E enquanto a Europa tiver voz, ela jamais estará à venda".
*Reportagem do estagiário João Vitor Cravo, sob a supervisão de Pedro Logato
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