'Apesar de mortes em excesso, funcionou', diz autor de 'modelo sueco' durante a pandemia

Anders Tegnell é o chefe da Agência de Saúde Pública e arquiteto do modelo que levou a Suécia a manter uma vida quase normal durante a pandemia

Por Ansa

Presidente Jair Bolsonaro considera modelo sueco um caso de sucesso no mundo, apesar de ter levado a mais mortes
Presidente Jair Bolsonaro considera modelo sueco um caso de sucesso no mundo, apesar de ter levado a mais mortes -
Suécia - Sua popularidade já atravessa as fronteiras nacionais, que ele sempre quis manter abertas. O controverso epidemiologista Anders Tegnell é hoje um dos escandinavos mais famosos do mundo.

Elogiado e criticado por ter deixado o novo coronavírus se disseminar na Suécia sem impor quarentena, ele é o chefe da Agência de Saúde Pública e arquiteto do modelo que levou o país a manter uma vida quase normal durante a pandemia, porém com muito mais casos que seus vizinhos.

"Não acho que precisávamos de lockdown na Suécia. Não teria feito tanta diferença, especialmente nos contágios nos asilos. Impor o lockdown não teria mudado a situação, existem muitas outras medidas, mais suaves, que podem ser utilizadas", diz Tegnell, em entrevista à ANSA.

A Suécia tem 30.143 casos do novo coronavírus, segundo monitoramento da Universidade John Hopkins, dos EUA, e 3.698 mortes, mais do que a soma de seus três vizinhos de Escandinávia: Dinamarca (11.166 casos e 548 óbitos), Noruega (8.249 casos e 233 óbitos) e Finlândia (6.380 casos e 300 óbitos).

Com população de 10 milhões de pessoas, a Suécia também tem índices relativos maiores que os de seus vizinhos: 296 contágios e 36 mortes para cada 100 mil habitantes. O país que mais se aproxima é a Dinamarca, com 193 casos e nove óbitos para cada 100 mil habitantes.

"Até agora, acredito que, mesmo considerando as mortes em excesso, tenha funcionado. As pessoas seguiram nossas indicações, e fizemos com que o serviço sanitário tratasse todos aqueles que precisavam, não apenas doentes com Covid-19", acrescenta Tegnell.

A estratégia sueca contrariou as políticas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e adotadas pela maior parte da comunidade internacional. O presidente Jair Bolsonaro considera esse modelo um caso de sucesso no mundo, apesar de ter levado a mais mortes que em nações vizinhas, mas até Donald Trump criticou a postura da Suécia, afirmando, no fim de abril, que o país estava pagando "muito" por essa decisão.

"Cada morte é uma imensa tristeza, é algo terrível ver um grande número de pessoas morrerem, mas há outros aspectos a serem levados em conta, como os danos que ocorrem em nível social em longo prazo", diz o epidemiologista.

O governo sueco proibiu apenas aglomerações de mais de 50 pessoas e visitas em asilos, além de ter fechado escolas de ensino médio e universidades, com o objetivo de proteger a economia, que, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), deve cair 6,8% em 2020.

A projeção é pior que as de Dinamarca (-6,5%), Noruega (-6,3%) e Finlândia (-6%), países que adotaram regras mais duras para combater a pandemia.

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