Acordo chega após mais de 15 meses de guerra em GazaAFP

O acordo para um cessar-fogo em Gaza e a troca de reféns por prisioneiros entrará em vigor neste domingo (19), às 03h30 no horário de Brasília, um dia após sua aprovação pelo governo israelense e após mais de 15 meses de guerra no território palestino.

O Catar, um dos mediadores internacionais ao lado do Egito e dos Estados Unidos, anunciou que o cessar-fogo começará no domingo às 08h30 (03h30 em Brasília), na véspera da posse de Donald Trump.

O acordo, alcançado após mais de um ano de negociações complexas, prevê uma primeira fase de seis semanas durante as quais as hostilidades serão interrompidas e 33 reféns mantidos em Gaza serão libertados em troca de 737 prisioneiros palestinos mantidos por Israel.

O Egito indicou que Israel libertará "mais de 1.890 presos palestinos" durante a primeira fase do acordo, que também permitirá, segundo os mediadores, a entrada maciça de ajuda humanitária no território palestino.

O acordo prevê "a entrada de 600 caminhões diários na Faixa, dos quais 50 de combustível", explicou o ministro de Relações Exteriores egípcio, Badr Abdelatty.

"Israel não irá impedir que a ajuda humanitária entre" em Gaza, garantiu o secretário-geral da ONU, António Guterres.

De acordo com o primeiro-ministro do Catar, Mohammed bin Abdelrahman Al Thani, o acordo anunciado na quarta-feira visa pôr "um fim definitivo à guerra" desencadeada por um ataque sem precedentes a Israel pelo movimento palestino Hamas em 7 de outubro de 2023.

Nesse dia, comandos islamistas capturaram 251 pessoas, das quais 94 seguem em cativeiro em Gaza, incluindo 34 que o Exército israelense declarou como mortas.

À espera do início da trégua, o Exército israelense continuou bombardeando Gaza. Mais de 120 pessoas morreram nesses ataques desde a quarta-feira, segundo os serviços de emergência.

Três pontos da fronteira
O governo israelense deu o aval para o acordo na madrugada deste sábado, após a aprovação pelo Hamas, considerado uma organização "terrorista" por Israel, Estados Unidos e União Europeia.

O Executivo israelense anunciou que alguns reféns seriam libertados no próprio domingo, mas sem especificar o número.

O primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, que fará um discurso à nação às 20h10 (15h10 de Brasília), exigiu receber a lista dos reféns que seriam libertados naquele dia antes de proceder à primeira troca de prisioneiros.

Um funcionário militar informou que a libertação ocorrerá em três pontos da fronteira de Israel com Gaza, onde os reféns serão atendidos por médicos e, em seguida, transferidos para hospitais.

Segundo fontes próximas ao Hamas, o primeiro grupo de reféns libertados incluirá três mulheres israelenses.

Por sua vez, Israel elaborou uma lista de 95 presos palestinos que poderiam ser libertados já no domingo, em sua maioria mulheres e menores de idade presos após o dia 7 de outubro.

Entre os prisioneiros palestinos incluídos no acordo está Zakaria al Zubeidi, ex-líder das Brigadas dos Mártires de Al Aqsa, o braço armado do partido Fatah, liderado pelo presidente Mahmud Abbas.

Entre os 33 reféns que serão libertados na primeira fase estão dois franco-israelenses, Ofer Kalderon, de 54 anos, e Ohad Yahalomi, de 50, segundo informou o governo francês.

"É o momento que estávamos esperando. Espero ver meu avô voltar para casa, de pé, vivo", disse Daniel Lifshitz, neto de Oded Lifshitz, de 84 anos, sequestrado no kibutz de Nir Oz.

'O importante é voltar para nossa terra'
Na Faixa de Gaza, devastada pelos bombardeios aéreos israelenses e pela ofensiva terrestre em retaliação ao ataque de 7 de outubro, os deslocados — a grande maioria dos cerca de 2,4 milhões de palestinos — se preparam para voltar para suas casas.

"Vou retirar os escombros da casa e montar minha barraca lá", disse Umm Khalil Bakr, que fugiu da Cidade de Gaza para Nuseirat. "Sabemos que fará frio e que não teremos cobertores para dormir, mas o importante é voltar para nossa terra".

Segundo a ONU, a guerra provocou um nível de destruição "sem precedentes na história recente" de Gaza.

Do lado israelense, o ataque de 7 de outubro deixou 1.210 mortos, a maioria civis, segundo um levantamento da AFP baseado em dados oficiais.

Na ofensiva aérea e terrestre de Israel em Gaza, morreram pelo menos 46.899 pessoas, a maioria civis, segundo dados do Ministério da Saúde do Hamas considerados confiáveis pela ONU.

Além da libertação de reféns, a primeira fase do acordo inclui, segundo o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, "um cessar-fogo total", a retirada israelense das áreas densamente povoadas de Gaza e um aumento da ajuda humanitária.

Durante a primeira fase, serão negociadas as modalidades da segunda, que deverá permitir a libertação dos últimos reféns, antes da terceira e última fase, dedicada à reconstrução de Gaza e à devolução dos corpos dos reféns mortos em cativeiro.

Apesar do anúncio da trégua, a cidade israelense de Tel Aviv foi alvo, neste sábado, de um ataque com faca. O agressor, classificado pela polícia local como um "terrorista", foi "neutralizado" pelos disparos de um civil armado, informou um comunicado das forças de segurança.