O codiretor israelense Yuval Abraham, responsável pelo documentário vencedor do Oscar 2025, "Sem Chão", criticou o posicionamento da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos sobre o ataque sofrido por Hamdan Ballal, cineasta palestino e também codiretor do filme. Segundo Abraham, a Academia enviou um comunicado por e-mail apenas aos membros explicando o silêncio.
Ballal foi espancado por colonos israelenses na Cisjordânia e posteriormente detido pelo exército de Israel. O incidente gerou uma mobilização internacional.
Em uma postagem no X, Abraham compartilhou o conteúdo da mensagem e mostrou descontentamento pelo posicionamento.
"Após nossas críticas, os líderes da academia enviaram este e-mail aos membros explicando seu silêncio sobre o ataque de Hamdan: eles precisam respeitar 'pontos de vista únicos'", escreveu.
A carta foi assinada por Bill Kramer e Janet Yang, respectivamente CEO e presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
No texto, eles afirmam que "o cinema tem o poder de levar luz ao público global e ressaltar diferentes perspectivas" e que a "Academia condena agressões ou sufocamento de artistas por seus trabalhos ou seus pontos de vista".
"(...) Estamos vivendo um período de mudanças profundas, marcado por conflito e incerteza - em todo o mundo, nos Estados Unidos, e dentro de nossa própria indústria. (...) Compreensivelmente, nós somos constantemente questionados para falar em nome da Academia em resposta a eventos sociais, políticos e econômicos. Nestas instâncias, é importante notar que a Academia representa quase 11 mil membros de todo o mundo, com pontos de vista únicos", disse.
"Nós estamos, entretanto, unidos para compartilhar a crença na importância da narrativa, nos valores da empatia, e no papel do filme como catalisador. Como organização, nosso foco continua sendo na celebração de vozes criativas que compõem a comunidade global de cinema - e apoiar sua liberdade para criar, desafiar e imaginar", continuou.
O ataque a Hamdan Ballal aconteceu em sua vila natal, Susya, localizada na Cisjordânia. De acordo com relatos, o cineasta foi agredido na última segunda-feira, 24, por um grupo de aproximadamente 20 colonos mascarados, muitos deles adolescentes armados com pedras, paus e facas. A violência foi tão intensa que Ballal sofreu ferimentos graves na cabeça e no estômago.
A situação piorou quando soldados israelenses invadiram a ambulância que havia sido chamada para socorrê-lo, levando-o sob custódia militar. A partir desse momento, o cineasta ficou desaparecido até ser libertado pelo exército israelense na terça-feira seguinte ao ataque.
A mobilização para a libertação de Ballal começou com um post de Abraham, que alertou sobre a situação de emergência do colega cineasta e pediu apoio imediato. Além de seu trabalho como cineasta, Hamdan Ballal é conhecido por sua atuação na defesa dos direitos humanos, especialmente na documentação de incidentes relacionados à ocupação israelense e nas iniciativas de apoio à comunidade palestina em situações de violência e repressão.
Veja a carta enviada aos membros na íntegra:
"Queridos membros da Academia, no coração da missão da nossa Academia está o comprometimento de honrar a excelência nas artes e ciências cinematográficas e conectar o mundo pelo poder do cinema. Nós fazemos isso por nosso trabalho no Oscar, nossas exibições e programas, nossa preservação e esforços educativos, e muito mais. Nós acreditamos profundamente no poder de um filme de iluminar, provocar pensamentos e criar pontes oferecendo uma janela para experiências humanas diversas.
Nós fundamentalmente acreditamos que o cinema tem o poder de levar luz ao público global e ressaltar diferentes perspectivas - e nós encorajamos nossos membros a usar suas artes para tal. A Academia condena agressões ou sufocamento de artistas por seus trabalhos ou seus pontos de vista.
Estamos vivendo um período de mudanças profundas, marcado por conflito e incerteza - em todo o mundo, nos Estados Unidos, e dentro de nossa própria indústria. Compreensivelmente, nós somos constantemente questionados para falar em nome da Academia em resposta a eventos sociais, políticos e econômicos. Nestas instâncias, é importante notar que a Academia representa quase 11 mil membros de todo o mundo, com pontos de vista únicos.
Nós estamos, entretanto, unidos para compartilhar a crença na importância da narrativa, nos valores da empatia, e no papel do filme como catalisador. Como organização, nosso foco continua sendo na celebração de vozes criativas que compõem a comunidade global de cinema - e apoiar sua liberdade para criar, desafiar e imaginar.
Nós continuamos firmes neste trabalho, e somos gratos de caminhar ao lado de todos vocês nessa jornada.
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