Apesar da proibição de Orban, Marcha do Orgulho na Hungria tem participação recordeReprodução X
Resistência LGBTQIAPN+! Depois que o governo de extrema direita de Viktor Órban proibiu a Marcha do Orgulho na Hungria, centenas de milhares lotaram as ruas de Budapeste em protesto! A luta por diversidade e direitos para a comunidade LGBTQIAPN+ passa por derrotar a extrema… pic.twitter.com/OkUZOrr4Qm
— Fernanda Melchionna (@fernandapsol) June 28, 2025
Embora não haja números oficiais disponíveis, os organizadores estimaram que cerca de 200 mil as pessoas compareceram à marcha, uma participação muito superior ao recorde anterior, de 35 mil.
Para Orban e seu partido, o Fidesz, "este sucesso significativo do Pride [Orgulho] é muito embaraçoso" e terá "repercussões" políticas, disse à AFP o analista Szabolcs Pek.
A manifestação começou por volta das 15h locais (10h em Brasília) perto da Prefeitura da capital húngara, decorada com as cores do arco-íris e sob um sol escaldante. Quatro horas depois, ainda não havia terminado.
Entre os participantes, muitos contaram que era sua primeira vez em uma Marcha do Orgulho, como Zoltan, de 66 anos. "Estou orgulhoso de ser gay e tenho muito medo de que o governo queira nos humilhar. Estou surpreso que haja tantas pessoas", afirmou ele, emocionado.
Marcell Szanto, um estudante de 22 anos e "aliado heterossexual" da comunidade LGBTQIA+, citou uma "experiência formidável", longe do "ódio que costuma caracterizar o ambiente na Hungria".
Câmeras de vigilância
Toda a Europa está de olho neste país de 9,6 milhões de habitantes. Bruxelas condenou a proibição, uma repressão inédita dos direitos LGBTQIA+ na União Europeia.
Akos Horvath, um estudante de 18 anos que viajou para a capital da Hungria de uma cidade no sul do país, afirmou que participar da marcha tem "uma importância simbólica". "Não se trata apenas de representar as pessoas gays, mas de defender os direitos do povo húngaro", declarou à AFP.
Trinta e três países apoiaram a Marcha, mas o ministro da Justiça húngaro advertiu os diplomatas na capital que se participarem de um evento proibido terão que enfrentar as consequências.
Dezenas de eurodeputados também compareceram, em aberto desafio à proibição.
As autoridades instalaram câmeras ao longo do trajeto da marcha, equipadas com sistemas de reconhecimento facial.
O governo advertiu que as multas podem chegar a 500 euros (R$ 3,2 mil, na cotação atual) e que organizar uma marcha proibida ou convocar a participação na mesma pode ser punido com até um ano de prisão.
Vários grupos de extrema direita anunciaram contramanifestações no mesmo trajeto da Marcha do Orgulho, onde colocaram uma cruz de madeira adornada com mensagens de protesto. Estas manifestações foram autorizadas pelo governo.
Gol contra
"Em vez de marcar pontos", o governo "marcou um enorme gol" contra ao tentar impedir o evento de hoje, apontou outro opositor, Peter Magyar, que lidera as pesquisas para as eleições legislativas de 2026.
Segundo o analista político Daniel Mikecz, o governo tenta "intimidar as pessoas", sem levar em conta que a proibição da marcha viola os tratados europeus assinados pela Hungria quando o país se uniu à União Europeia, em 2004.
O governo assegura que os menores não devem ser expostos à homossexualidade e à transidentidade ou ao que qualifica de "depravação".
O Executivo húngaro aprovou, em março, uma lei que proíbe marchas como as do Orgulho e também emendou a Constituição para restringir os direitos LGBTQIA+, em nome dos direitos das crianças.
Encorajado pela ofensiva do presidente americano, Donald Trump, contra os programas de promoção da diversidade, Orban esperava "polarizar a sociedade", de acordo com cientistas políticos, um método que em outras ocasiões lhe deu bons resultados.
Antes de Orban voltar ao poder, em 2010, a Hungria era um dos países mais progressistas da região.
A homossexualidade havia sido descriminalizada no começo da década de 1960 e a união civil entre pessoas do mesmo sexo foi reconhecida em 1996. Mas Orban foi mudando gradualmente a situação.
"Repugnante... Virou moda isso de nos exibirmos", declarou à AFP uma mulher que se identificou apenas como Katalin, a favor da proibição imposta pelo governo.
As marchas do Orgulho costumam ser realizadas em junho, em comemoração aos chamados distúrbios de Stonewall, ocorridos em Nova York em 28 de junho de 1969, após uma operação policial em um bar gay.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.