Tarifaço, anunciado por Trump em julho, entrou em vigor neste sábado (22)AFP

As novas tarifas de 50% impostas pelo presidente Donald Trump a vários produtos canadenses entraram em vigor neste sábado (22), após o fracasso das negociações entre os países. As taxas chegaram a ser suspensas por três dias, na última terça-feira (18), mas os líderes não conseguiram chegar a um acordo.
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, prometeu que seu país igualará as tarifas dos Estados Unidos "dólar por dólar para proteger nossos trabalhadores e empresas", depois que os negociadores informaram que os países não conseguiram concluir um acordo.

O ministro canadense do Comércio, Dominic LeBlanc, permaneceu a semana em Washington em uma tentativa de conter a crise comercial entre os dois vizinhos, cuja relação se deteriorou desde o início do segundo mandato de Trump.

Mas os negociadores encerraram as reuniões na sexta-feira (21) sem um acordo, o que abriu caminho para a implementação, às 0h01 locais (1h01 de Brasília), das novas tarifas.

Sem um acordo definitivo, as novas tarifas de 50% entraram em vigor. A medida afeta mercadorias avaliadas em quase US$ 20 bilhões (R$ 102 bilhões), o que representa 5,5% das exportações canadenses para os Estados Unidos. Os produtos afetados vão de tacos de hóquei a cimento.

"Apesar da oferta dos Estados Unidos para que o Canadá recebesse um tratamento melhor do que qualquer outro exportador em nosso mercado, novas demandas e retrocessos em outros compromissos por parte do Canadá alteraram o frágil equilíbrio alcançado nos últimos dias", disse o representante do Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer.

"Nesta noite, o Canadá se recusou a fechar o acordo comercial sob os termos acordados no início da semana", acrescentou o representante.

Greer afirmou que o governo dos Estados Unidos ofereceu tarifas menores para setores específicos, como aço e alumínio, automotivo e de madeira, em troca de concessões por parte do Canadá - que ele não revelou.

"Tratamento discriminatório"
Greer indicou que o Canadá mantém as "retaliações prolongadas" contra os Estados Unidos, incluindo proibições a determinados produtos e serviços americanos. Líderes regionais do Canadá disseram que Washington ficou especialmente incomodado com a retirada de bebidas alcoólicas e vinhos dos Estados Unidos das prateleiras das lojas.

A Casa Branca alegou um "tratamento discriminatório" do Canadá contra produtos alcoólicos, automotivos e laticínios dos Estados Unidos, apesar de Carney ter solicitado, na última quarta-feira (19), que as províncias voltassem a comercializar bebidas alcoólicas procedentes do país vizinho.

"As mudanças de última hora nos termos propostos pelos Estados Unidos eram injustas, antieconômicas e colocavam em dúvida a confiabilidade de qualquer acordo", disse o premiê no texto em que explica a recusa do Canadá em assinar o acordo.

Carney também ressaltou que, embora os países tenham alcançado "avanços importantes" nas últimas semanas, isso "não foi suficiente para cumprir nossos objetivos em benefício dos canadenses".

Um funcionário de alto escalão do governo, que falou sob a condição de anonimato, disse que o Canadá solicitou concessões adicionais que os Estados Unidos não poderiam conceder. Ele acrescentou, no entanto, que as negociações foram francas e não foram marcadas por hostilidades. No momento, não há mais reuniões programadas.

"Mais difícil"
Ryan Majerus, ex-funcionário do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, declarou à reportagem que "se o Canadá concordou em impor também tarifas de retaliação, isso tornará muito mais difícil reduzir a tensão". Ele acrescentou que "as partes serão submetidas a uma pressão considerável nos próximos dias para encontrar uma saída".

Christopher Padilla, ex-funcionário do governo americano que trabalha atualmente para o Brunswick Group, disse à reportagem que existe "muita esperança entre as empresas dos dois lados" de alcançar um acordo que permita "virar a página de 18 meses muito difíceis na relação entre Estados Unidos e Canadá".

As novas tarifas aduaneiras dos Estados Unidos, anunciadas em julho, deveriam ter entrado em vigor na quarta-feira passada, mas Trump concedeu três dias adicionais de isenção para possibilitar a continuidade das negociações.

Nesta sexta-feira (21), o presidente republicano expressou confiança e disse que os Estados Unidos "deveriam conseguir alcançar um acordo com o Canadá", ao destacar sua "boa relação" com Carney. O país vizinho buscava um alívio das tarifas de Trump, que afetaram a economia canadense com perda de empregos e tensionaram a outrora próspera relação comercial entre os dois países aliados.

Carney também disse que o país precisa diversificar sua economia e reduzir a dependência dos Estados Unidos, que respondem por quase 70% das exportações do Canadá.

Após as negociações infrutíferas, Estados Unidos e Canadá ainda precisam alcançar um acordo sobre as revisões do Tratado de Livre Comércio da América do Norte, o T-MEC, que Trump se recusou a renovar no mês passado e que compartilham com o México.