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Marcelo Knopfelmacher: Por uma nova representação judaica no Brasil
A comunidade judaica brasileira precisa romper com a postura defensiva que há anos limita sua voz no espaço público.
Não podemos mais aceitar uma representação que se define apenas pela reação ao antissemitismo.
Essa luta continua sendo essencial — mas não pode ser a única.
Uma comunidade com a nossa história, densidade intelectual e capacidade institucional não pode se contentar em ocupar um lugar passivo.
É hora de afirmar uma agenda própria, clara e inegociável.
No centro dessa agenda está a relação com o Estado de Israel.
Não há ambiguidade possível: Israel é parte constitutiva da identidade judaica contemporânea.
Qualquer tentativa de relativizar esse vínculo, seja por conveniência política ou receio de desgaste, deve ser rejeitada com firmeza.
A ausência de normalidade diplomática plena entre Brasil e Israel é inaceitável — e o silêncio diante disso é ainda mais grave.
É preciso exigir, de forma clara, pública e permanente, a recomposição imediata das embaixadas: do Brasil em Israel e de Israel no Brasil. Não como gesto simbólico, mas como afirmação concreta de respeito institucional.
Essa posição não está condicionada à orientação ideológica de governos. Não cabe à comunidade judaica ajustar seus princípios ao sabor de ciclos políticos.
Da mesma forma que Israel não se calou nenhum dia sequer até ter todos os reféns devolvidos, a representação judaica no Brasil deve fazer o mesmo quanto à volta dos embaixadores.
Isto porque apoiar Israel incondicionalmente não é uma escolha circunstancial — é uma obrigação histórica e identitária.
Israel é uma democracia vibrante, com seus próprios mecanismos de debate e decisão. A representação da diáspora apoia, não tutela e não se imiscui na política interna daquele país.
Mas uma representação forte não se constrói apenas no plano das relações internacionais.
Internamente, é preciso enfrentar com honestidade uma realidade muitas vezes negligenciada: há muita vulnerabilidade dentro da própria comunidade.
Há famílias que precisam de apoio, idosos que demandam cuidado, jovens que carecem de oportunidades.
Ignorar isso é incompatível com qualquer pretensão de liderança legítima.
Uma nova representação deve assumir como prioridade o fortalecimento de estruturas que garantam acesso efetivo à saúde, educação, segurança alimentar e amparo na velhice. Não como caridade pontual, mas como política comunitária estruturada.
Tzedaká não é um gesto opcional; é um dever. E solidariedade não é discurso — é prática organizada, mensurável e contínua.
Essa transformação exige também um princípio básico que, até aqui, tem sido frequentemente negligenciado: legitimidade.
Não há representação verdadeira sem mandato.
As lideranças comunitárias precisam ser escolhidas por meio de processos eleitorais democráticos que assegurem transparência, participação ampla e real possibilidade de alternância de poder.
Estruturas fechadas, autorreferentes e pouco permeáveis ao escrutínio enfraquecem a confiança e limitam a capacidade de renovação.
Uma comunidade forte exige lideranças que respondam aos seus membros — e não o contrário.
Essa transformação exige também coragem para ser inclusivo de verdade, com o olhar voltado aos mais necessitados e não como trampolim para projetos pessoais.
Por outro lado, a comunidade judaica brasileira não é homogênea — e não deve ser tratada como tal.
A pluralidade de origens, condições sociais e econômicas, visões e posicionamentos intelectuais precisam ser incorporadas; e não administradas à distância.
Representar é incluir, não selecionar.
Há ainda um ponto que revela, de forma silenciosa, um problema mais profundo: a hesitação em afirmar a própria identidade.
Em diversas instituições, observa-se uma tendência sutil de diluir ou suavizar referências judaicas.
Isso é um erro.
Instituições como o Hospital Israelita e a Faculdade de Medicina Israelita são referências de excelência justamente porque carregam uma tradição clara de valores.
O termo “israelita” não é um detalhe — é uma afirmação. Deve ser preservado, destacado e assumido com orgulho, como ocorre em comunidades judaicas ao redor do mundo.
Esconder essa identidade não amplia respeito; ao contrário, enfraquece a coerência.
O Brasil precisa de uma comunidade judaica bem representada, democraticamente eleita e com lideranças sensíveis ao que está acontecendo na ponta.
Uma comunidade que não peça licença para existir no debate público, que não ajuste suas convicções por conveniência e que compreenda o seu papel como protagonista da sua própria história.
Essa não é uma proposta de redefinição do modelo de representação por capricho.
É uma necessidade iminente porque ser judeu é motivo de orgulho; e ser judeu plenamente é ato de respeito à nossa trajetória multimilenar.
Marcelo Knopfelmacher é judeu, ativista e empresário baseado em Londres, com atuação no Brasil e no Oriente Médio

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