Mapa da África retratado na exposiçãoAcervo pessoal / Thaís Barcelos

Rio - A exposição "Saberes ancestrais não cabem na sala de aula" está em cartaz desde o dia 20 de março e ficará até o final deste mês de abril, dia 30, no Instituto Pretos Novos, na Gamboa, Região Portuária do Rio.
A mostra de arte traz símbolos, instrumentos ritualísticos, figurinos, peças que resgatam a força das religiões de matrizes africanas e promete reflexões cotidianas para seus significados. Um dos maiores objetivos é valorizar a ancestralidade, a luta contra o racismo religioso e entender o papel dos terreiros como espaço civilizatório, dialogando com a lei 10.639/03, que determina o ensino da história e cultura afro-brasileira.
Em entrevista ao DIA, a idealizadora Claudia Fassini, que é pesquisadora, candomblecista, estudante de ciências religiosas e a artista que compôs algumas das peças apresentadas na exposição, explica que a primeira ideia da mostra artística surgiu no Congresso Nacional de Ciência da Religião (Conacir), porém o projeto não seguiu para frente. A ideia acabou ganhando forma após um edital da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) para a semana da Consciência Negra, quando a criação do espaço artístico foi escolhido.

Após três semanas na UFJF, a mostra ficou um ano rodando pelos colégios da cidade mineira até que chegou na Feira de Diversidade Religiosa que acontece no mesmo município, recebendo ali o convite pelo Instituto Pretos Novos.

"A gente vai trazer os saberes de terreiros que está ligado aos oráculos, a ancestralidade, aos ritmos, a gente vai explicar como esses saberes se dá nesses espaços pensando os terreiros como lugar civilizatório e para cada espaço dele a gente vai trazer também como o sistema sempre tentou silenciar e apagar esses saberes como, por exemplo, os oráculos. Ninguém questiona o oráculo de Delfos ou Runas, mas se questiona os oráculos africanos, sejam ele Merindilogun, que vão ser questionados e até chamados de jogo e de adivinhação. Isso aqui é outra estrutura de saber que opera em outra lógica diferente da nossa ocidental, porém é sabedoria e faz parte de muita coisa no nosso dia a dia", explica Claudia Fassini.
O nome da exposição surgiu inspirado na obra do babalorixá e doutor Márcio de Jagun e também é um questionamento diante da educação que ainda oferece desafios para os estudos de matriz africana nas escolas e universidades, segundo a idealizadora.
"O sistema educacional a todo momento vai dar um jeito de apagar e de falar, a partir de outro olhar, vai tentar silenciar essas sabedorias. A ideia do nome é isso mesmo provocar e realmente essas sabedorias está para além dos muros, muita coisa que a gente vê aí que a ciência hegemônica está descobrindo, isto já se praticava dentro dos terreiros, então está muito para além dos muros e são conhecimentos que nunca foram negados a ninguém" ressalta Fassini.

O acervo conta com uma interatividade de QR Code, explicando de qual terreiro ou espaço aquela peça surgiu, pertence ou foi doada, que também é uma forma de dialogar com o conceito de coletividade dos povos africanos. Claudia conta que a parte mais satisfatória é perceber pelo público o reconhecimento dos terreiros e das peças. A exposição deve ganhar outros espaços do Rio.

Fassini explica que um dos objetos em exibição é a cadeira da sua yalorixá pessoal, Lenira de Ògúnté. A personalidade é iniciada há 50 anos e só a história da peça tem 40 anos. Esse espaço dialoga com a ideia de ancestralidade. Além da cadeira, existe uma foto da sacerdotisa, o orixá pelo qual Lenira é iniciada, um banco onde só o iaô (o iniciado no candomblé) pode se sentar e uma esteira simbolizando o renascimento para a religião.

O funcionamento da exposição é de terça a sábado. Terças a sextas, a abertura do espaço é de 10h até 16h. Já nos sábados, a casa fecha mais cedo, ficando aberta de 10h até 13h. Nas terças, a entrada é gratuita. Já nos outros dias o preço do ingresso varia de R$ 10 (meia entrada) a R$ 20 (inteira).

Ainda nos sábados, as pessoas podem fazer inscrição para fazer de maneira gratuita o Circuito Histórico de Herança Africana, que termina com a visitação ao IPN. O roteiro começa Largo da Prainha, passa por 12 pontos, incluído Pedra do Sal e Cais do Valongo, e finaliza no Cemitério dos Pretos Novos. O endereço fica na Rua Pedro Ernesto, número 32 até 34, Gamboa, Centro. A instituição fica próxima à Estação do VLT Harmonia.

Sobre a instituição

O Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN) foi criado em 13 de maio de 2005, oferece exposições, pesquisas, estudos de pós-graduação, palestras, eventos e a preservação do patrimônio africano e afro-brasileiro. Um dos destaques do espaço é o sítio histórico e arqueológico do Cemitério dos Pretos Novos. O local recebe esse nome devido aos escravizados que chegavam sem vida em terras cariocas e, na localidade funcionava o antigo cemitério onde uma estimativa de 20 mil a 30 mil escravizados foram despejados entre 1769 e 1830.