Fiéis lotavam a Igreja Matriz de São Jorge já nas primeiras horas desta quarta-feiraReginaldo Pimenta/Agência O Dia

Rio - Antes do dia raiar, centenas de fiéis já lotavam a Igreja Matriz de São Jorge, em Quintino, na Zona Norte, para celebrar o dia do Santo Guerreiro - que virou feriado no estado, do qual é padroeiro. A missa da alvorada teve início às 5h desta quarta-feira (23) e mesmo após o fim da cerimônia, muitos cariocas ainda permaneceram na paróquia para as próximas bênçãos e compartilhar o momento de fé com familiares e amigos. Na Igreja de São Gonçalo Garcia e São Jorge, no Centro, o movimento também foi enorme desde a madrugada.
Por conta da quantidade de público em Quintinho, muitos fiéis assistiram às primeiras missas dos degraus e receberam banho de água benta. A Rua Clarimundo de Melo, onde fica a igreja, foi tomada por um mar de pessoas vestindo vermelho, em referência à cor símbolo do santo, e camisas com imagens e frases em homenagem a São Jorge.
Como em todos os anos, a auxiliar de atendimento Kenia Maria Teodoro, de 43 anos, chegou com as duas filhas, Laryssa Teodoro, 22, e Vittória Teodoro, 23, e o marido, o bombeiro Claudio Cordeiro, 47, para acompanhar a Missa da Alvorada, às 3h. Eles vestiam camisas combinadas com o trecho da oração que diz
"Eu andarei vestido e armado com as armas de São de Jorge", uma espécie de uniforme oficial da família para a data. A mãe, que cozinhou uma feijoada à meia-noite e vai passar o restante do dia celebrando com a família, destacou a importância de São Jorge na renovação da fé.
"São Jorge é um verdadeiro guerreiro na nossa vida. A gente vem todos os anos para renovar nossas forças. É sinônimo de gratidão estar aqui no dia de hoje, é mais para agradecer do que para pedir, pelas bênçãos que a gente tem. É emocionante, só sabe quem acredita. Eu venho todos os anos e o sentimento não muda", afirmou a auxiliar. "O propósito mais importante é de fé, o ser humano hoje em dia precisa acreditar, a única coisa que nos move de verdade é acreditar que vai melhorar, que o melhor vai acontecer. Que o dia de hoje renove nossa fé em um mundo melhor".
Muito emocionados, os compadres Veruska Delfino, de 36 anos, e Marcos Vinícius Martins, 43, contaram que também são devotos há muitos anos, mas que a missa de hoje teve significado e emoção diferentes, porque pediram pela saúde e proteção da mulher e do filho do fotógrafo, que estão internados.
"Esse foi o primeiro ano que eu quis vir na Alvorada, porque esse ano eu fiz um pedido pela minha esposa e meu filho. Esse ano eu tive muita coisa para pedir, além de agradecer pela benção que é o meu filho. Mas vim principalmente pedir pela saúde da minha esposa e meu filho, para que eles se recuperem logo. Pedi saúde e acalento", disse Marcos Vinícius.
"Tem dois pilares fundamentais, que são agradecer pelos ciclos que passaram, pelos desafios superados, que são muitos, mas a força de São Jorge ajuda a gente a permanecer firme. E o outro é pedir por mais um ciclo, por mais saúde. A gente está com a esposa dele internada com o bebezinho, então é também pedir pela saúde deles, pela renovação da saúde deles. Estar aqui hoje é muito importante para a gente. Recebemos a bênção, pegamos nossa plantinha e agora é terminar o dia em família e comer uma feijoada", completou a produtora cultural.
O dia também foi para pagar promessas. O enfermeiro Rafael Lemos, de 43 anos, conta que é devoto desde a juventude e todos os anos participa das missas de São Jorge. Neste, no entanto, a celebração teve como propósito pedir pela saúde da filha, a psicóloga Ana Carolina Ferreira, de 28 anos, que enfrentou uma endometriose. De joelhos na escadaria, ele cumpriu seu compromisso com o santo, ao alcançar a cura da jovem.

"Eu vim agradecer pela saúde da minha filha, que passou por um momento difícil depois do diagnóstico. Eu sempre venho agradecer, mas hoje vim pagar essa promessa pela saúde da minha filha, pela cura total dela. E também agradecer o dom da vida e nossa saúde".
Além da fé e devoção, celebrar São Jorge é também uma tradição familiar para a porta-bandeira da Acadêmicos de Vigário Geral, Camile Macedo, de 20 anos. A jovem, que esteve na paróquia com o pavilhão da agremiação, disse que a crença começou com sua mãe, quando ainda era criança e se tornou uma das datas mais especiais para elas.
"É um dia muito importante para nós devotos, a alvorada é uma coisa linda, quem nunca veio, venha no próximo ano, porque vai se sentir muito bem, em paz com seu coração. Eu sou devota desde que nasci, é uma coisa de família, minha mãe também é. A gente vem todos os anos, é uma sensação de dever cumprido. Também trouxe meu palvilhão para São Jorge abençoar para o desfile do ano que vem".
Pelo sincretismo religioso, São Jorge é retratado como Ogum nas religiões de matriz africana, como a Umbanda e Candomblé, e também celebrado em 23 de abril. Ele representa a força, o poder, a coragem e a determinação. Devotas do orixá há cerca de 10 anos, a psicóloga Camila Padoim e a companheira dela, a pedagoga Nubia Teixeira, ambas de 29 anos, estiveram pela primeira vez na Igreja Matriz.
"No sincrestismo, São Jorge é Ogum, um guerreiro, protetor e eu sou muito devota, tenho muita fé e acho muito importante ter uma festa como essa saudando. Para mim, eles representam proteção, trabalho, caminhos abertos, muita força. Essa foi minha primeira vez aqui, meu coração palpitou diferente, foi muito emocionante", apontou a psicóloga.
Festa para o comércio
Com a expectativa de público de 1,5 milhão de pessoas ao longo do dia na Igreja Matriz, comerciantes aproveitaram a data para garantir uma renda extra. Além das mais variadas barracas de bebidas e comidas, como espetinhos, pastel, milho, cachorro-quente, entre outros, e dos vendedores de balões e algodão doce, a Rua Clarimundo de Melo também se tornou um grande ponto de venda de souvenirs de São Jorge. 
O vendedor Francisco Filho, de 25 anos, conta que há mais de cinco anos viaja cerca de 2,5 mil quilômetros saindo de Canindé, no Ceará, para as vendas do dia de São Jorge na Igreja Matriz do Rio. Junto com um grupo, eles atuam em cerca de dez barracadas no entorno da paróquia, oferecendo diversos artigos religiosos do santo, como terços e chaveiros, que podem ser personalizados. 
"A gente tem muita lembrancinha de São Jorge, tem algumas a partir de R$ 5, a gente grava o nome, personaliza. A gente vem do Ceará, em carro próprio, para trabalhar aqui. Graças a Deus, sempre vendemos muito bem, a gente consegue uns R$ 3 mil em cada barraquinha, mais ou menos. Os fiéis são muito devotos, compram de tudo, todo ano se superam. Chegamos segunda-feira e hoje antes da festa já estávamos montando tudo". 
Trabalhando em outra barraca do grupo, João Silva, 46, diz que os itens mais comprados pelos devotos são as fitinhas, que custam R$ 1, chaveiros, a partir de R$ 20, e santinhos para o painel do carro, por R$ 25. "É tudo de São Jorge, mas tem lembrancinha para todos os bolsos. A concorrência aumentou nos últimos anos, mas a gente ainda vende bastante. Vendemos quase tudo até o final do dia". 
Devoto do santo guerreiro, para Jonas Alves Martins, de 39 anos, o dia é de agradecer e faturar. Ele vende fitinhas de São Jorge na saída da igreja há cinco anos por R$ 0,50. "Eu vendo muito bem, o pessoal já sai e para aqui para comprar. Devo faturar uns mil reais. Eu venho, agradeço e peço proteção a São Jorge e faço minha renda extra. Tem que ter fé". 
Alguns ambulantes também ofereciam canecas e quadros de São Jorge, a partir de R$ 5, mas outro item que atraiu os fiéis que saíam da igreja foram as camisas com trechos da oração, desenhos e até escudos de clubes de futebol. "O pessoal gosta mais das mais baratinhas, a de R$ 20 reais é a que mais sai, mas tem também de R$ 60, de time (...) Dá para faturar bem, já venho há uns sete anos e o os fiéis sempre compram bastante. A gente chega bem cedo e vai embora bem tarde e sempre passa gente por aqui", contou André Luiz, 29. 
 
"É um momento muito forte esse dia, porque São Jorge foi um jovem de apenas 23 anos que deu a vida por Cristo. Então, é um momento muito forte, muito bonito, principalmente para o povo carioca que se identifica muito com esse santo, porque São Jorge mostra a bravura, a luta, tal qual o carioca tem que lutar para matar esses dragões todos os dias", declarou o padre Dirceu Rigo, que pontuou ainda que neste ano, a celebração traz o propósito da esperança. 
"Não percam as esperanças, assim como São Jorge enfrentou o dragão, eles também conseguem enfrentar esses dragões todos. São Jorge venceu o dragou não pela força da lança, nem pelo cavalo e, menos ainda, dele. Mas pela força de Deus, quando se tem Deus no coração, vencemos qualquer batalha. Deixe Deus guiar o seu coração que vocês vão ser felizes e abençoados".
Festas por toda a cidade 
Na Praça da República, no Centro, a Igreja de São Jorge iniciou a programação às 4h, com a visitação de fiéis à histórica imagem do Santo. Missas foram realizadas no palco montado na Avenida Presidente Vargas, de hora em hora. O cantor Jorge Benjor marcou presença e cantou, como faz anualmente.

Na Paróquia São Jorge de Realengo, na Rua Adolfo Konder, a festa começou com uma missa à meia-noite. As celebrações seguem também de hora, com o clima de confraternização sendo reforçado com feijoada e roda de samba.
Já na Igreja de São Jorge no Centro de Niterói, na Região Metropolitana, na Rua Alcides Figueiredo, onde a alvorada teve início às 6h, as missas ao ar livre aconteceram às 8h30, 10h30, 12h e 14h, com a última celebração prevista para as 17h. Em seguida, os fiéis sairão em procissão pelas ruas do bairro.
Cortejo

"A Saga de Jorge", ópera popular baseada em uma tradição alagoana da Folia de Reis, sai como cortejo, às 16h, do Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (Muhcab), na Gamboa, com destino à Praça da Harmonia. A apresentação reconta a batalha de São Jorge contra o Dragão, que, segundo a crença, representa o caos e a maldade. O espetáculo, com entrada franca, é do Calendário Cultural da Grande Companhia Brasileira de Mystérios e Novidade. O Muhcab fica na Rua Pedro Ernesto, 80.
Escolas de samba

A Imperatriz Leopoldinense promove feijoada a partir de 13h. Dentre as atrações, estão o cantor Belo, o Pagode do Mestre Lolo e outros segmentos da agremiação. O ingressos custam a partir de R$ 100 - e pode ser adquiridos no site Sympla. A quadra fica na Rua Professor Lacé, 235, em Ramos.

Na Igreja da Penha, também na Zona Norte, houve missas às 11h e às 12h30, e feijoada. 
Arenas municipais

Diferentes arenas municipais pela capital também terão programação para exaltar São Jorge. A Arena Cultural Carlos Roberto de Oliveira - Dicró (Rua Flora Lobo, s/nº, Penha Circular) realiza feijoada com show do grupo Samba e Lorota, a partir das 14h.

A Areninha Cultural Municipal João Bosco (Avenida São Félix, 601, Vista Alegre) promove feijoada e apresentação do grupo de residência artística No Balanço da Dança, a partir das 12h. E a Areninha Cultural Terra (Rua Marcos de Macedo, s/nº, Guadalupe) convida para o Sarau da Terra com feijoada e roda de choro, a partir das 13h. Os espaços têm entrada franca.