O Discord foi o aplicativo utilizado para orquestrar o atentado frustrado, segundo as investigaçõesJuca Varella / Agência Brasil

Rio - A Polícia Civil impediu um ataque à bomba que seria realizado no show da Lady Gaga na Praia de Copacabana, Zona Sul do Rio, no último sábado (3). Segundo as investigações, o plano foi arquitetado na plataforma digital Discord, aplicativo popular entre jovens para conversas e transmissões ao vivo de games. Especialistas alertam para os riscos envolvendo o uso de ferramentas do tipo e como os pais e familiares podem agir para prevenir que seus filhos entrem em comunidades virtuais que incentivem a prática de crimes.

De acordo com o especialista em neurociência e comunicação, William Borghetti, crianças e adolescentes que entram em grupos com conteúdos tóxicos buscam a sensação de pertencimento e estão mais propensos a se colocarem em risco pelo cérebro ainda estar em desenvolvimento.

"Do ponto de vista da neurociência, os cérebros da criança e do adolescente estão passando por uma fase de busca intensa por pertencimento e validação social. Isso significa que eles estão muito mais abertos a grupos que dão a eles algum tipo de identidade, mesmo que eles tenham algum conteúdo de ódio ou comportamento perigoso. O córtex pré-frontal, essa parte do cérebro que cuida de avaliar riscos e consequências, ainda está em desenvolvimento. O impulso de se sentir parte de algo fala mais rápido que o senso crítico. Qualquer comunidade que acolhe, dá voz ou oferece aqueles desafios 'proibidos' se torna muito atraente. Por isso, o risco não está só no conteúdo, mas na necessidade emocional que esse grupo preenche", disse ao DIA.

Segundo as investigações, que tiveram início na segunda-feira (28) anterior ao show, o objetivo dos suspeitos era atrair alvos para uma espécie de desafio coletivo a fim de gerar notoriedade para os envolvidos. Embora artefatos explosivos não tenham sido apreendidos nas diligências, era evidente a intenção de levar bombas ao show, principalmente para ataque a pessoas do público LGBTQIA+, asseguraram as autoridades.

As autoridades enfatizaram que bombas não foram encontradas, até porque poderiam ser fabricadas de maneira caseira, mas que celulares e computadores apreendidos ajudarão no desdobramento da ação, que nesta primeira etapa, nos estados de Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, teve um total de nove alvos.
Sobre o aplicativo
O Discord é um aplicativo gratuito criado em 2015 que oferece comunicação por texto, voz e vídeo. A plataforma se destacou inicialmente entre jogadores online por oferecer chamadas de áudio com baixa latência, organização por servidores e uma experiência sem anúncios.
O núcleo do Discord são os chamados "servidores", espaços digitais que podem ser criados por qualquer usuário e funcionam como comunidades independentes dentro da plataforma. Cada servidor reúne pessoas com interesses em comum e pode ser aberto ao público. Estes grupos podem assumir diferentes objetivos: desde espaços de amigos e estudos até fóruns temáticos, ambientes de ativismo, clubes de fãs ou comunidades profissionais.
O aplicativo está disponível em várias plataformas: pode ser baixado como aplicativo para desktop, celulares e também pode ser acessado diretamente pelo navegador, sem necessidade de instalação.
O Discord tem chamado a atenção das autoridades por ser uma plataforma utilizada por criminosos para a difusão de discursos de ódio e o estímulo a crimes. No último mês de janeiro, a Polícia Civil de São Paulo instaurou um inquérito para investigar a ferramenta por possível apologia à violência digital. Segundo as autoridades, a empresa teria descumprido uma solicitação emergencial para remover uma live que exibia uma cena de automutilação envolvendo adolescentes.

'Evitar não é proibir'

Borghetti destaca que a primeira chave para conseguir dialogar com filhos que podem estar frequentando fóruns de risco é o vínculo. "Nenhuma ferramenta de controle parental vai substituir uma boa conversa. Se o adolescente sente que vai ser julgado ou punido, ele vai esconder. Agora, se ele percebe que tem um espaço seguro para falar e conversar, ele conta. Os pais que estão atentos a essa situação observam essas mudanças sutis. Quando se está lidando direto com o adolescente, dá para perceber pequenas mudanças: alteração no humor, excesso de sigilo no uso do celular, esconder o que está fazendo, isolamento…"

"Uma outra dica importante é conhecer as plataformas. Importante os pais perguntarem, explorarem juntos, pedir para entrar na plataforma. O Discord, por exemplo, pode ser sensacional em comunidades saudáveis. Dá para fazer muita coisa legal no Discord, mas ele também pode oferecer muitos riscos. E evitar não é proibir, é educar para dar autonomia", ponderou o especialista.

William avaliou os aspectos negativos para a saúde mental dos jovens ao participar de grupos e desafios que incentivam o ódio. "Do ponto de vista da neurociência, o cérebro social do adolescente precisa de validação, e essas comunidades dão muito isso, mesmo que de forma negativa. O impacto na saúde mental pode ser muito grande. Mais ansiedade, mais dificuldade de confiar em adultos, o que inclusive é incentivado nessas comunidades, aquela sensação de dupla vida. O desafio dos pais e educadores é criar, fora das telas, um ambiente de pertencimento, tão forte quanto esses grupos prometem. O adolescente não busca apenas conexões online, ele busca ser visto e aceito no mundo real", concluiu.
Os riscos da 'geração do quarto'
A psicóloga clínica Elaine Sodré (CRP 05/53138) opina que apesar da internet ser um espaço incrível e que pode agregar muito ao conhecimento, há a falsa percepção de que os filhos estão seguros por estarem em casa. "Precisamos exigir mais controle, regras, politicas de segurança e leis dos órgãos responsáveis por monitorar e punir crimes virtuais. Mas o que realmente deixa a criança e adolescente muito exposto é o distanciamento e a falta de informação dos pais. Qual pai levaria seu filho para um encontro nazista ou de pedofilia? Qual pai faria vista grossa se soubesse que seu filho está frequentando uma zona de risco ou uma boca de fumo? Qual pai convidaria para sua casa um grupo terrorista? Mas é exatamente isso que tem acontecido com a geração do quarto. Os pais muitas vezes se sentem despreocupados, pois acreditam que estão 'seguros em casa'", explicou.
"Hoje, estudos sobre o cérebro apontam um amadurecimento total do córtex pré-frontal, responsável por influenciar a capacidade de planejamento, organização e tomada de decisões, em torno de 25 anos. O que significa isso na prática? Que não podemos olhar para os adolescentes como 'mini-adultos' que sabem exatamente o que estão fazendo, porque na maioria das vezes, eles não têm recursos suficiente para analisar e prever situações reais de riscos e calcular a consequência de suas ações, tornando-os presas fáceis para os predadores digitais."
Elaine ressalta a importância que a socialização tem na formação de um indivíduo, e a necessidade da construção de um ambiente saudável como forma de evitar a participação nos grupos online. "É sabido que ser humano é um ser essencialmente gregário, ou seja, ele precisa da convivência de outros seres humanos para evoluir, se sentir pertencente é muito importante. Mas na adolescência, a identificação com os pares, pessoas da mesma faixa etária, apesar de fundamental na construção da identidade, nem sempre é uma construção natural ou simples nos ambientes que eles frequentam presencialmente, como escola, bairro e etc., tornando os ambientes virtuais uma alternativa interessante e mais 'fácil' para interagir. E de fato, podem ser, desde que esse adolescente tenha construído uma autorreferência de valor, tenha sido orientado a identificar riscos e se sinta seguro e protegido para buscar ajuda caso se sinta inseguro ou ameaçado."
"Mas essa é a realidade da maioria deles? Definitivamente não. A maioria das crianças e adolescentes envolvidos, como vítimas ou criminosos, nos crimes virtuais, seus pais não faziam a menor ideia sobre o que estava acontecendo bem embaixo de seus narizes", concluiu.

A reportagem tentou entrar em contato com o Discord, mas não recebeu resposta até o fechamento desta matéria. O espaço está aberto para manifestações.
*Com informações do Estadão Conteúdo