Imagens mostram destruição na Escola Municipal Leitão da Cunha, na Tijuca, após incêndio nesta quinta (15)Reginaldo Pimenta/Agência O DIA

Rio - Fundada em 1908, a Escola Municipal Leitão da Cunha, na Tijuca, Zona Norte, reúne uma série de histórias e lembranças de quem passou pelo local. Ao DIA, o médico e escritor, Ivan Furtado, 69 anos, revelou com carinho momentos da infância que teve com os irmãos na unidade. Além disso, após o incêndio que destruiu parte do espaço nesta quinta (15), pais de alunos demonstraram preocupações com o emocional das crianças, que também tinham apego ao colégio.


Segundo Ivan, ele frequentou a instituição entre os anos de 1963 a 1966. "Ela é uma escola centenária, eu estudei lá com meus irmão há mais de 50 anos, lá foi o início da minha carreira, da minha disciplina e ordem da minha vida, paralela a minha ordem familiar. Lá eu aprendi a amizade, foi o início da minha vida cultural e intelectual, foi a base da minha pirâmide, do meu crescimento profissional, como ser humano, e como cidadão", contou.

O médico explicou que recebeu a notícia de forma surpreendente. "Foi danoso, porque eu passo todo dia em frente a escola. Morei na Rua Major Ávila por quase 30 anos. Foi uma pena, já comuniquei meus irmãos, e assim, a escola tem uma formação eclética, tem vários nortes, ela foi um parâmetro importante na minha infância, lá eu fiz amizades, por mais que você recupere a parte arquitetônica, existem algumas relíquias que estavam na escola, como troféus e medalhas, e isso jamais vai ser recuperado”, lamentou.

Atualmente, a escola atende 120 crianças, com seis turmas do 1º ao 5º ano. Para Patrícia Lemos, mãe de um estudante, a preocupação maior é como as crianças vão reagir com a mudança, já que todas serão realocadas para a Escola Orsina da Fonseca, na Tijuca, na próxima segunda-feira (15).

"É uma escola longe, eu não a conheço, teria que pegar ônibus ou algum transporte para poder ir. Hoje teria reunião, meu filho estuda aqui desde o primeiro ano, e eu moro aqui perto, então fica meio difícil. Fora que a escola foi reformada a pouco tempo, falaram que é provisório, mas vamos ver, até mesmo pra ver como vai ficar a cabeça das crianças, meu filho está muito triste, chateado, sempre foram os mesmos amigos, é uma escola pequena, e já vai para uma bem ampla, muda tudo", disse.

Antes do incêndio, o colégio estava em processo de reforma para se tornar um Ginásio Educacional Tecnológico e já tinha passado por algumas melhorias. “É muito triste, eles estavam todos felizes com a reforma, tecnologia, é triste, mas em partes, e se tivesse alguém dentro? É triste pra mim e todas as mães, aqui é uma escola muito boa, muito acolhedora, foi toda reformada, estava com tudo novo. Enfim, não sei como vai ficar a cabeça dele (filho)”, finalizou.

Ainda no local, funcionárias se emocionaram após os estragos causados pelo fogo. Já uma moradora vizinha, Thaissa Fernandes, 25 anos, revelou ter acordado no susto durante a madrugada. 

"Eu acordei com barulho do primeiro caminhão dos Bombeiros, umas 3h, quando eu fui sair na varanda, eu vi que o fogo pegou na parte da frente e o cheiro de fumaça estava muito forte, até agora estou sem conseguir dormir por conta do cheiro. Tem muito estudante aqui, eles chegam umas 7h e saem 14h, a escola estava em reforma, tão bonitinha, fiquei bastante triste pelas crianças", afirmou.
De acordo com o Secretário de Educação Renan Ferreirinha, o teto de madeira desabou no casarão central, mas outras três áreas da unidade foram preservadas. "Essa é uma escola histórica no coração da tijuca. Temos três partes, a cozinha, refeitório e a casa da residente, que é da funcionária que vive aqui na escola, que não foram afetadas, mas a nave central foi bastante prejudicada", reforçou.
Em nota, a Defesa Civil do Município do Rio informou que foi acionada para realizar a vistoria no imóvel. Após inspeção, técnicos do órgão constataram que o fogo destruiu o telhado e provocou rachaduras em duas paredes da edificação. Como medida de segurança, o imóvel permanece interditado. Não há risco para os imóveis vizinhos.
A escola possui certificado de aprovação junto ao Corpo de Bombeiros. O caso foi registrado na 19ª DP (Tijuca) e a perícia realizada. Investigações estão em andamento para apurar as circunstâncias do incêndio.

Escola centenária

A escola, que leva o nome do médico Leitão da Cunha, foi fundada no ano de 1908 em estilo arquitetônico eclético.

Raul Leitão da Cunha nasceu no Rio em 2 de janeiro de 1881. Formou-se em Medicina pela Faculdade Nacional de Medicina em 1903. Em 1908, foi indicado para o cargo de professor substituto de Histologia na Faculdade de Medicina do Rio e, dois anos depois, tornou-se professor titular de Anatomia Patológica na mesma instituição.

Ele iniciou sua carreira de médico no Hospício Nacional da Praia Vermelha, tendo sido nomeado, em 1905, diretor do Serviço de Anatomia Patológica do Hospital Nacional de Alienados. Substituiu o professor Chapot-Prévost na seção de Bacteriologia, Histologia e Anatomia Patológica da Faculdade Nacional de Medicina, exercendo esse cargo até falecer, em 4 de março de 1947.

Cunha foi ainda vice-diretor e, em 1932, Diretor da Faculdade Nacional de Medicina, Diretor-Geral da Instrução Pública Municipal de 1918 a 1920, Diretor do Serviço Sanitário do Distrito federal, de 1920 a 1926, Membro do Conselho Nacional de Educação, Membro Titular da Academia Nacional de Medicina, Chefe de Serviço do Hospital São Francisco de Assis e Reitor da Universidade do Brasil durante sete anos.

Ele também atuou como Ministro da Educação e Saúde Pública, no governo do Presidente José Linhares, de 30 de outubro de 1945 a 31 de janeiro de 1946.