Cícero Sandroni ajudou a organizar o 'Manifesto dos Mil' Divulgação/Academia Brasileira de Letras

Rio - O escritor e jornalista Cícero Sandroni morreu aos 90 anos, em casa, na manhã desta terça-feira (17). O ex-presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) sofreu choque séptico causado por infecção urinária e o corpo será velado na ABL, no Centro, a partir das 10h de quarta-feira (18). Ele deixa a mulher, Laura Austregesilo de Athayde, os filhos Carlos, Clara, Eduardo, Luciana e Paula, e o neto Pedro. 
De acordo com a Academia, Cícero enfrentava a doença de Alzheimer. Em nota, a ABL lamentou a perda e descreveu Sandroni como "uma das grandes referências da cultura e do jornalismo no país" e declarou que o escritor terá sua trajetória "sempre reconhecida e celebrada" pela Casa. 
Em 1976, Sandroni ajudou a organizar o Manifesto dos Mil, documento dos intelectuais que acabou com a censura. Junto com sua mulher, Laura, com quem casou em 1958, escreveu o livro "O século de um liberal", sobre a vida e obra de Austregésilo de Athayde, seu sogro.
Trajetória
Cícero Augusto Ribeiro Sandroni nasceu na cidade de São Paulo, em 26 de fevereiro de 1935. Com a transferência de sua família para o Rio, em 1946, concluiu os estudos secundários e cursou a faculdade de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e a Escola Brasileira de Administração Pública (EBAP) da Fundação Getúlio Vargas, como bolsista.
A carreira de jornalista teve início em 1954, com passagens pela "Tribuna da Imprensa", "Correio da Manhã", "Jornal do Brasil", Rádio Jornal do Brasil e "O Globo", onde se destacou na cobertura da política exterior, como a primeira visita do político soviético Nikita Kruschev à Organização das Nações Unidas (ONU). Além disso, em abril de 1960, integrou uma equipe que cobriu a inauguração de Brasília. No ano seguinte, foi Secretário de Imprensa da Prefeitura do Distrito Federal. 
Com a instalação do regime militar, voltou a trabalhar na "Tribuna da Imprensa" e em "O Cruzeiro", e fundou a Edinova, editora pioneira no país no lançamento de literatura latino-americana, com Pedro Penner da Cunha. Em 1965, participou de conferência de jornalistas em Bonn, na Alemanha, que resultou na criação da agência internacional de notícias Interpress Service, da qual foi diretor no Brasil. Também escreveu a coluna diária "Quatro Cantos!", de oposição ao governo militar.
No ano de 1976, o jornalista coordenou, com os escritores Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Hélio Silva, José Louzeiro, Ary Quintella e Jefferson Ribeiro de Andrade um manifesto contra a censura aos livros, assinado por mais de mil intelectuais brasileiros, conhecido como o Manifesto dos Mil. Publicado na imprensa, o documento impediu a continuação da censura aos livros, que havia proibido a circulação de mais de quatrocentos títulos de autores do país e estrangeiros. 

Em 1995, deixou o jornalismo para escrever com a mulher a biografia de Austregésilo de Athayde. Ele chegou a voltar à profissão nos anos 2000, mas se afastou novamente em 2003, dessa vez para escrever a história do "Jornal do Commercio". No mesmo ano, se tornou o sexto ocupante da Cadeira nº 6 da ABL, eleito por unanimidade, em 25 de setembro, na sucessão de Raimundo Faoro. Tomou posse como presidente da Academia em 13 de dezembro de 2007, em eleição unânime.