Prisão aconteceu em um apartamento na Rua Marquês de Abrantes, no FlamengoReprodução
Mulher é presa por suspeita de torturar e manter sobrinha em cárcere privado no Flamengo
De acordo com investigações, Andreia Luzia Campos Martins dos Santos teria praticado os crimes por racismo
Rio - Uma mulher foi presa, nesta segunda-feira (28), por suspeita de torturar e manter a sobrinha, de 15 anos, em cárcere privado, no Flamengo, na Zona Sul. De acordo com investigações, Andreia Luzia Campos Martins dos Santos teria praticado os crimes por racismo.
A prisão, realizada por agentes da 9ª DP (Catete), aconteceu em um imóvel na Rua Marquês de Abrantes. A suspeita estava com um mandado de prisão temporária em aberto pelos crimes de tortura, cárcere privado, falsificação de documento público, racismo e redução à condição análoga à de escravo.
Segundo a Polícia Civil, a vítima vivia em um regime de violência sistemática, incluindo agressões físicas e psicológicas, isolamento social e privação de sua liberdade. A 9ª DP também identificou que a adolescente era obrigada a fazer tarefas domésticas em situações humilhantes.
Ao DIA, o delegado Rafael Barcia, responsável pelo caso, explicou que a mãe da menina entregou a guarda para a tia, pois acreditava em um futuro melhor para a filha devido a questões financeiras. A jovem foi para a residência de Andreia em março de 2023.
"É uma história realmente chocante, de violência contra uma adolescente. Ela veio de uma família muito pobre e a mãe, pensando em dar um futuro e uma oportunidade melhor para ela, abriu mão da guarda. A menina começou a morar com a tia, que tem condições financeiras melhores, é classe média, mora em um apartamento bacana no Flamengo. Ela vai morar com a perspectiva de melhorar de vida. Um tempo depois, ela fugiu, procurou a mãe e disse que sofreu maus-tratos", contou.
De acordo com o delegado, Andreia apresentou laudos médicos falsos para dizer que a sobrinha tinha esquizofrenia, com o intuito de justificar as condutas abusivas e o real estado dela.
"A tia procurou a Justiça, juntou laudos afirmando que a criança tinha esquizofrenia e que inventava a história de maus-tratos, que se lesionava em momentos de surto. Um dos laudos dizia que ela não podia ter nenhum contato com a família original. Ela consegue a retirada da menina da família. Um tempo depois, na escola, a menina denuncia novamente os maus-tratos. As pessoas procuram os órgãos públicos, mas a tia sempre apresentava esses laudos de esquizofrenia, dizendo que aquilo dali era fruto da cabeça dela. Até que ela foge novamente. A delegacia é acionada, e começamos a investigação, em que ficou comprovado que esses laudos eram falsos. Nós ouvimos os médicos que teriam subscritos os laudos e nenhum confirmou que tenha atendido a menina. Na verdade, ela criou a narrativa de esquizofrenia para poder desacreditar os pedidos de socorro da menina", explicou.
Barcia comentou ainda que a suspeita adotou a sobrinha com o intuito de escravizá-la. "Ela era obrigada a fazer tarefas domésticas, era humilhada e sofria todo tipo de abuso, como agressões físicas, psicológicas e restrição alimentar. Se ela não realizasse o trabalho a contento, ela não poderia se alimentar. Em episódios, como relatado pelo porteiro do prédio, se ela chegasse atrasada da escola, era obrigada a ficar na portaria do prédio até a noite sem se alimentar. Eu ouvi humilhações até de cunho racista. Ela dizia que por ser negra ela tinha que ser escrava mesmo", destacou.
Os relatos da vítima e de testemunhas presenciais, assim como a falsidade do laudo médico, levaram à 9ª DP a pedir a prisão da suspeita, o que foi aceito pela Justiça. Andreia foi levada para realização de exame de corpo de delito e, posteriormente, transferida para prisão.
"A menina prestou um depoimento especial na delegacia, que tocou todos nós, até os policiais mais experientes. Ela menina está acolhida em um abrigo hoje e em segurança. A gente espera que isso interrompa esse ciclo de violência e que essa menina consiga tomar a sua vida normal", finalizou o delegado.
Ainda de acordo com Barcia, há reuniões entre a delegacia, a Defensoria Pública e o Ministério Público do Trabalho para ações em prol da educação e futuro profissional da adolescente.
A Secretaria Municipal de Assistência Social informou que o Conselho Tutelar acompanhou o caso e tomou as medidas cabíveis. O processo segue em segredo de Justiça.

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