O estudante de medicina nasceu em Buenos Aires, na Argentina e mora no Brasil desde 2015Reprodução / @matiasroitberg

Rio - O estudante de medicina Matias Roitberg, de 25 anos, tomou um grande susto ao descobrir que "estava morto" desde 2023 segundo o Sistema Único de Saúde (SUS). A situação aconteceu na última quinta-feira (4) quando o jovem foi buscar sua carteira de vacinação no Centro de Ciências da Saúde (CCS), no Fundão, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde estuda.


"Tudo começou na quinta quando eu e meus amigos depois de almoçar no fundão decidimos passar no posto de vacinação do CCS. A gente ia deixar nossas carteirinhas lá para digitalizar e atualizar no sistema do SUS. Principalmente eu, que sou argentino, e a maioria das vacinas que eu já tomei não estavam registradas aqui no Brasil". Matias nasceu em Buenos Aires e mora no Brasil desde 2015.

No entanto, quando chegou no centro, o estudante percebeu que algo estava errado. "Quando eu cheguei lá, só a minha carteira estava separada e um funcionário falou 'Ah foi você que morreu', né?’”.

Nesse momento é que contaram ao jovem que ele teria falecido no dia 2 de outubro de 2023. "Eu fiquei completamente paralisado, comecei a rir e meus amigos gravaram a situação", disse Matias.
Foto que mostra a data da 'morte' do jovem - Divulgação / Matias Roitberg
Foto que mostra a data da 'morte' do jovemDivulgação / Matias Roitberg


Os funcionários do posto recomendaram que o estudante procurasse uma Clínica da Família ou Super Centro Carioca para alterar seus dados e provar que ele estava, de fato, vivo.

"Ainda na quinta eu cheguei a ir ao Super Centro do Rocha Maia, em Botafogo, e quando cheguei lá me informaram que não dava pra trocar meus dados e que ia ter que ir pra Receita Federal", conta o argentino.

Nesse instante, Matias relata que sua mãe conferiu seu CPF na Receita Federal e que o documento estava ativo. "Graças a Deus na receita estava tudo normal, porque se meu CPF tivesse sido cancelado lá, eu teria perdido minha vaga na faculdade, minha bolsa de pesquisa e meu apartamento porque o contrato está no meu nome também", conta aliviado.

A advogada Kelly Coelho, de 39 anos, especialista em direito civil explica que a Receita Federal é comunicada quando alguém morre. "Se o CPF dele estava ativo na receita, isso indica que o óbito não foi registrado no cartório, porque senão os outros órgãos públicos seriam notificados da morte. Provavelmente foi um cadastro feito equivocadamente".

De acordo com a advogada, nessas situações o primeiro passo é pedir a retificação dos dados ao SUS e caso não aconteça a alteração, é possível entrar com uma ação judicial. "Com um erro desses, a pessoa pode ficar sem atendimento médico público e não conseguir tomar vacinas, por exemplo".

O jovem contou que, na sexta-feira (5), ele se encaminhou para o centro de saúde do Flamengo e lá os seus dados foram alterados e ele estava "vivo" para o SUS novamente.

Ao ser questionado sobre o erro ter sido identificado apenas em 2025, Matias relatou que, em 2024, perdeu seu plano de saúde e explicou que, quando ficava doente, era atendido por professores da faculdade. Desde então, ele não procurou mais atendimento em hospitais.

"Eu também cheguei a tomar vacina do tétano em agosto de 2025 mas não tive problema nenhum. Ou não apareceu no sistema ou não repararam. E hoje em dia eu estou com plano de saúde novamente, então não dependo do SUS", complementou.

O estudante suspeita de golpe

Matias disse que no começo achava que tinha sido um erro, mas assim que viu que o nome do seu pai e sua raça também estavam errados, começou a desconfiar que poderia ser vítima de um golpe.

O estudante é um homem branco, porém, no registro do SUS constava como sendo da raça preta. Além disso, o nome de seu pai, Alejandro, foi alterado para o nome de um personagem de terror: Slender Man.

O jovem explicou que mede 1,90m de altura, tem a pele muito clara, assim como o personagem fictício, o que o leva a acreditar que a alteração pode ter sido feita por alguém que o conheça como forma de piada.

"Se não foi alguém que me conhece, foi alguém que de alguma forma queria manipular meus dados para obter benefícios. Ou apenas alguém que queria infernizar minha vida", riu.

Para a advogada, se a alteração foi feita de forma intencional, é necessário registrar a ocorrência para apurar o crime e requerer uma indenização. "Se foi um hacker ou um próprio funcionário do SUS, as tipificações do crime são diferentes. A polícia irá investigar para tentar chegar primeiro no IP do computador e assim identificar o autor".

Matias ainda informou que o registro do óbito foi feito três dias depois da sua "morte", em cinco de outubro de 2023 em uma cidade chamada Ataléia, em Minas Gerais e por um homem. "Eu já morei cerca de um ano em Belo Horizonte quando era pequeno, mas nunca nem fui e nem ouvi falar nesse município. Eu tenho o nome da pessoa que alterou, não se foi de fato ela ou alguém que usou o login, mas eu queria ao menos entender o porque disso tudo, se foi por pura maldade ou para conseguir benefícios mesmo".
O estudante disse que registrou um boletim de ocorrência online nesta quarta-feira (10).
Em nota, a Secretária Municipal de Saúde comunicou que "as informações vacinais dos usuários são registradas no Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI), do governo federal, integrado ao CADSUS WEB (CADWEB). A SMS lamenta o ocorrido e já realizou as alterações de dados corrigindo o erro do profissional do estado de Minas Gerais".

A Secretaria também informou que notificou o Ministério da Saúde e vai acionar a Cidade de Ataléia para investigar o caso. Ainda de acordo com o órgão, "erros como este podem ocorrer pois o sistema é nacional e, por isso, a SMS recomenda que os usuários mantenham seus dados sempre atualizados em sua clínica da família de referência".