A especialista Luciane Botto diz que pertencimento precisa de ritual consistenteDivulgação
Diante desse cenário, até que ponto as empresas estão preparadas para identificar os sinais sutis do 'Quiet Cracking' antes que ele se torne uma crise de produtividade? Duas profissionais deram entrevista ao jornal O DIA sobre o assunto. São elas Luciane Botto, especialista em liderança, comportamento humano e futuro do trabalho, e Fernanda Machado, especialista em empreendedorismo feminino e CEO do Festival Conectadas.
O DIA: Como o conceito de engajamento evoluiu nos últimos anos, e por que métricas tradicionais podem não detectar o Quiet Cracking de forma eficaz?
Luciane Botto: Antes, engajamento era medido por presença física, cumprimento de metas e satisfação em pesquisas anuais. Hoje, entendemos que engajamento é muito mais sutil: envolve energia emocional, propósito e conexão. O problema é que métricas tradicionais olham para 'resultados finais', mas o Quiet Cracking começa antes disso: na perda de curiosidade, na ausência de voz nas reuniões, no silêncio em interações informais. São sinais que não aparecem em gráficos de produtividade, mas que revelam uma fissura emocional prestes a se ampliar.
Fernanda Machado: Nos últimos anos, o conceito de engajamento se ampliou e deixou de estar ligado apenas à produtividade ou ao cumprimento de metas. Hoje, sabemos que engajar significa despertar no colaborador um verdadeiro senso de pertencimento, propósito e conexão com a cultura da empresa. O desafio é que, muitas vezes, as métricas tradicionais não captam esse aspecto mais subjetivo. É possível que um funcionário mantenha sua rotina e entregue os resultados esperados, mas já tenha perdido o entusiasmo, a criatividade e a iniciativa.
O DIA: Que estratégias de longo prazo podem ser implementadas para manter o senso de pertencimento e propósito entre os colaboradores, mesmo em ambientes de trabalho híbrido ou remoto?
Luciane Botto: Pertencimento e propósito não se constroem em eventos pontuais, mas em rituais consistentes. Em ambientes híbridos ou remotos, isso significa transformar a rotina digital em espaços de conexão real: check-ins emocionais no início das reuniões,reconhecimento público de conquistas e participação ativa dos colaboradores nas decisões. Além disso, líderes precisam traduzir a estratégia da empresa em impacto humano concreto, deixando claro para quem estamos fazendo isso. Quando o colaborador entende o impacto do seu trabalho no mundo real, o propósito se mantém vivo.
O DIA: Existe algum padrão ou perfil de empresa mais suscetível ao Quiet Cracking, e o que pode ser feito para antecipar esse risco?
Luciane Botto: Sim. Empresas com culturas de alta pressão e baixa escuta são mais vulneráveis. Organizações que priorizam entrega a qualquer custo e negligenciam saúde emocional criam terreno fértil para o Quiet Cracking. Também estão em risco aquelas que investem em tecnologia e processos, mas não em conversas humanas de qualidade. Para antecipar o problema, é preciso criar 'sensores de clima' contínuos: pesquisas rápidas, espaços seguros de diálogo e líderes preparados para ouvir o que não está sendo dito. É menos sobre medir engajamento em larga escala e mais sobre captar micro-sinais no dia a dia.
Fernanda Machado: O Quiet Cracking tende a se manifestar com maior intensidade em organizações onde a liderança é autoritária ou distante, e onde os resultados numéricos são valorizados em detrimento do bem-estar das equipes. Empresas que não oferecem oportunidades de crescimento, que mantêm culturas rígidas e pouco inclusivas também se tornam mais vulneráveis a esse processo silencioso de desengajamento.
O DIA: Como você explicaria a diferença entre Quiet Cracking, em que o colaborador se desengaja silenciosamente, e Quiet Quitting, em que ele estabelece limites claros de esforço sem abandonar o trabalho?
Luciane Botto: O Quiet Quitting é uma escolha consciente: o colaborador define limites, cumpre seu papel sem ultrapassar fronteiras, mas permanece funcional. Já o Quiet Cracking é uma fissura invisível: a pessoa continua presente, mas emocionalmente está se quebrando por dentro. No primeiro caso, é uma questão de ajuste de expectativas e fronteiras saudáveis. No segundo, é um alerta de saúde emocional e de cultura organizacional. O Quiet Quitting pode ser sustentável; o Quiet Cracking é insustentável, porque mina energia, propósito e, cedo ou tarde, a performance.
Fernanda Machado: Embora os dois conceitos possam parecer semelhantes, eles possuem diferenças fundamentais. O Quiet Cracking representa um desengajamento silencioso e, muitas vezes, involuntário. O colaborador permanece na empresa, mas já não sente entusiasmo, perde a motivação e se distancia emocionalmente do ambiente de trabalho. Trata-se de um sinal de alerta para a liderança, pois revela a perda do vínculo que sustenta a inovação e a colaboração.


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