’Quem compra o animal silvestre na ponta pode ser preso e alimenta o tráfico’, afirmou o delegado André PratesÉrica Martin/Agência O Dia

Rio - A quadrilha alvo da megaoperação contra o tráfico de animais silvestres, armas e munições, forçava o nascimento de aves para acelerar a venda ilegal. A Operação São Francisco prendeu, nesta terça-feira (16), 40 criminosos envolvidos no esquema e resgatou mais de 600 bichos, que seriam comercializado em feiras clandestinas e pela internet. Mais de mil agentes atuaram em endereços do Rio, Minas Gerais e São Paulo. 
O delegado titular da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA), André Prates, explicou em coletiva de imprensa na Cidade da Polícia, que a organização criminosa era divida por núcleos com atividades definidas e que os caçadores, responsáveis pela captura das espécies, recolhiam centenas de ovos de aves para forçar o nascimento antes do previsto, por meio de estufas improvisadas. Pouco depois de nascerem, os animais já eram enviados para a comercialização. 
"A gente percebeu que esse grupo que atuava há décadas era muito bem estruturado, tinha um volume de capital muito grande para investimento, as funções eram muito bem detalhadas e definidas. Tinham caçadores, mateiros profissionais que recolhiam no extrativismo animal centenas de ovos de aves que estavam prestes a nascer e forçavam o nascimento abrupto, através de câmeras luminosas de estufas improvisadas. Esses pequenos pássaros, nascem centenas, são alimentados para ter um mínimo de resistência, logo em seguida são colocados em caminhão por um outro núcleo de criminosos e vão para os centros urbanos, em especial no Sudeste brasileiro". 
Ainda de acordo com o delegado, os bichos vêm do Nordeste, Norte e Centro Oeste, Minas Gerais e da Região Serrana fluminense. Quando chegam ao Rio, as centenas de animais são receptadas por lideranças do grupo, que por sua vez as distribuem em menor escala para receptadores locais, até que chegam nas feiras urbanas e virtuais. Três desses líderes acabaram presos na ação. Um núcleo da quadrilha ainda era responsável por falsificar anilhas, selos públicos, chips e documentos para mascarar a origem ilícita e aumentar o preço a ser cobrado. 
A quadrilha era diretamente ligado ao Comando Vermelho (CV), que fornece armas e munições aos traficantes. "Um desses marginais, que encontra-se foragido, é apontado como um latrocida contumaz, indivíduo de alta periculosidade vinculado ao tráfico de drogas, demonstrando que o tráfico de animais e o tráfico de drogas, na verdade, eles integram a mesma organização criminosa, com duas frentes lucrativas distintas, porém são os mesmos elementos", ressaltou Prates. 
Na coletiva, o secretário de Estado de Polícia Civil, Felipe Curi, destacou que o tráfico de animais silvestres corresponde ao quarto maior faturamento de organizações criminosas, atrás do de drogas, armas e pessoas, chegando a movimentar milhões de reais todos os anos. "A organização criminosa que foi desarticulada com essa operação não atuava só no tráfico de animais, era uma organização com diversos núcleos diferentes, em que havia o núcleo de tráfico de animais, núcleo de tráfico de armas e munições, inclusive com a participação de pessoas diretamente ligadas à facção Comando Vermelho. Era um esquema complexo e que movimentava muitos milhões de reais no país e principalmente no estado do Rio de Janeiro". 
A ação teve apoio da Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (Seas), dos Departamentos-Gerais de Polícia Especializada (DGPE), da Capital (DGPC), da Baixada (DGPB) e do Interior (DGPI), da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) e da Subsecretaria de Inteligência (Ssinte), Ministério Público (MPRJ), Instituto Estadual do Ambiente (Inea), Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Os agentes pretendiam cumprir 45 mandados de prisão e, ao todo, 40 alvos foram presos, todos denunciados por organização criminosa armada. Houve ainda 270 mandados de busca e apreensão, sendo um deles contra o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Joias. Ele foi destituído do cargo após ser preso no início do mês por usar o mandato para favorecer traficantes do CV. As investigações apontam que ele comprou quatro primatas com os traficantes. 
'Cada animal comprado nessas feiras é sujo de sangue', diz secretário
Durante a atuação das equipes na comunidade da Mangueira, na Zona Norte, moradores relataram uma intensa troca de tiros, que afetou o funcionamento de cinco escolas e uma unidade de saúde. Uma policial civil foi atingida de raspão na perna e um criminoso baleado. Mais de 600 animais entre araras, tucanos, papagaios, primatas e jabutis foram resgatados e receberam atendimento veterinário de voluntários na Cidade da Polícia. Alguns não resistiram.
O secretário de Estado de Ambiente e Sustentabilidade, Bernardo Rossi, pontuou que os traficantes agiam com crueldade entre a captura e o transporte das espécies e mais da metade dos animais chegava sem vida ao destino. "Era um corredor da morte, porque a forma que era feito o transporte, a retirada os animais silvestres do seu habitat natural era com uma crueldade enorme e 60% dos animais chegavam sem vida ao destino", afirmou ele, que lembrou a colaboração de compradores para fomentar o tráfico de animais. 
"Quem compra essas espécies ameaçadas, quem compra animais silvestres também está cometendo crime e também está somando a favor do crime organizado (...) Cada animal apreendido, cada animal comprado nessas feiras é sujo de sangue, sangue não só de outros animais, como sangue de vida humana. Não adquiram esses animais, quem compra fomenta toda essa cadeia que é suja de sangue", completou. 
A promotora do MPRJ Elisa Pittaro relatou que um dos investigados foi responsável pela morte de três policiais militares. Ela também afirmou que há necessidade de mudanças na legislação sobre crimes contra animais e o meio ambiente, já que os envolvidos acabam recebendo penas mais brandas e voltam a praticar os delitos pouco tempo depois, mas apontou a importância da conscientização de compradores dos animais silvestres. 
"É óbvio que o melhor de todos os mundos seria se as pessoas se conscientizassem. Uma pessoa que compra um animal, para você chegar nesse processo, quantos animais foram mortos? Olha o crime organizado que a pessoa está estimulando. A estratégia que o Ministério Público está adotando não é só denunciar e promover perseguição daqueles que estão caçando, transportando, vendendo, mas também quem adquire vai responder por receptação (...) Na operação de hoje, vários alvos de busca e apreensão foram pessoas que adquiriram esses animais e vão responder pela prática de receptação". 
"Quem compra o animal silvestre na ponta pode ser preso e alimenta o tráfico de animais e a crueldade e o sofrimento desses animais. Jamais adquiram animais silvestres, porque realmente é um rastro de sangue que você está levando para sua casa", completou o delegado André Prates. 
*Colaborou Érica Martin