O caso é investigado pela 96ª DP (Miguel Pereira)Divulgação

Rio - Uma professora aposentada, de 78 anos, moradora de Paty do Alferes, Centro-Sul Fluminense, sofreu um prejuízo de R$ 300 mil ao ser vítima do golpe do falso advogado. A Polícia Civil investiga o caso.
Maria José Queiroz recebeu uma ligação, na última quinta-feira (2), de um homem se passando por um representante do escritório da advogada que a defende em um processo sobre fraude bancária. Com os dados disponíveis na busca processual, o criminoso conseguiu chegar até a vítima.
Ao DIA, o comerciante Eduardo Queiroz, de 47 anos, filho da idosa, conta que o suspeito falou com sua mãe, usando o logo do escritório, para dizer que ela havia ganhado o processo e tinha direito a cerca de R$ 20 mil por danos morais. Contudo, a afirmação era apenas uma justificativa para aplicar o golpe.
"Entraram em contato com minha mãe com todos os dados do processo e disseram que ia ter uma audiência para ela receber R$ 20 mil de danos morais. Ela deu graças a Deus por isso e participou da audiência com os bandidos, que disseram que ela teria que ter aumento de score para receber o dinheiro. Minha mãe, igual a uma doida, não conseguiu fazer o pagamento para isso e ligou para minha prima. Fizeram um empréstimo, limparam a conta da minha mãe e a colocaram no especial. Passou muito de R$ 300 mil. Foi uma arruaça", diz Eduardo.
Segundo o registro da ocorrência realizado na 96ª DP (Miguel Pereira), a professora fez três transferências via PIX, entre quinta-feira (2) e sexta-feira (3), que totalizam cerca de R$ 95 mil. O restante do prejuízo é devido a empréstimos.
De acordo com Eduardo, a vida da família mudou completamente com a situação, considerando que ela já havia perdido cerca de R$ 50 mil anteriormente no caso de fraude bancária.
"Acabou com a nossa vida praticamente. Eu tive que ir ao mercado e conversar com um amigo para pagar depois. Agora teremos que reduzir as saídas de casa para não ter gastos. A minha mãe tem problema de pressão alta, está super nervosa, não come e chora a toa. Há um ano, o meu irmão morreu. Ela já estava fragilizada. Agora foi outra porrada que tomou. Não temos como pagar esse empréstimo todo", completa.
De acordo com a Polícia Civil, as diligências estão em andamento para apurar a autoria do crime. O caso é tratado como estelionato.
Cerca de 2 mil denúncias
Para aplicar o golpe do falso advogado, os criminosos se valem de informações públicas disponíveis em processo judiciais das vítimas. Com os dados, eles criam contas falsas em aplicativos de mensagens ou redes sociais e fingem que são advogados, forjando documentos para "comprovar" a identidade.
A advogada Shirlei Mello Rodrigues, que representa Maria José e teve a logo do escritório utilizada no crime, identificou que advogados com localizações do Mato Grosso e do Méier, Zona Norte, entraram nos processos dos clientes que receberam as ligações de golpe. A partir disso, ela começará a realizar ações em segredo de justiça.
"As pessoas que integram a organização criminosa entram no processo, veem do que se trata, pegam os  números de contato, tiram prints do logo do escritório e se passam pelo advogado, dizendo que há ótimas notícias. Passam para o cliente dizendo que terá uma audiência online e quem vai desconfiar? Vejo todo mundo meio que normalizando isso. Todos estão conformados, você não vê alguém sendo preso", disse.
Somente neste ano, a corregedoria da seccional Rio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-.RJ) recebeu 1.194 denúncias sobre o golpe do falso advogado. De acordo com a Ordem, a corregedoria conta com 52 delegados tratando desse assunto, apurando e trocando informações com órgãos como a Polícia Civil, o Ministério Público do Rio (MPRJ) e o Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ).
Para aprimorar essa interlocução com as entidades envolvidas e contribuir com as investigações, a OAB-RJ criou a Comissão Especial de Combate ao Golpe do Falso Advogado.
Em setembro, novas medidas de segurança sobre os processos judiciais em tramitação foram definidas para combater o crime. Agora, o acesso às ações passou a ser feito com dupla verificação de senha, sendo uma delas pelo celular do advogado. Outra iniciativa estabelecida foi a criação de marca d’água para identificar advogados que baixarem ou imprimirem peças processuais. Também houve restrição a alguns filtros de seleção no sistema do TJRJ.
"A OAB-RJ tem adotado medidas para combater esse tipo de crime, que causa prejuízos às pessoas e fere a credibilidade da advocacia. Além da nossa corregedoria, com delegados recebendo e apurando as denúncias, criamos uma comissão especial para aprimorar a interlocução com órgãos como o MPRJ, o TJRJ e a Polícia Civil, de modo a colaborar com as investigações. O trabalho em parceria com o Tribunal, de aumentar as camadas de segurança do sistema, também é fundamental para inibir a atuação desses criminosos", destacou Ana Tereza Basílio, presidente da seccional.
Em agosto, a OAB-RJ lançou a Cartilha de Combate ao Golpe do Falso Advogado, com dicas e orientações para que as pessoas evitem cair nesse tipo de fraude, que está disponível no site da Ordem.
Dicas de prevenção
- Desconfie da urgência e da pressão: golpistas costumam pressionar a vítima para que ela não tenha tempo de pensar sobre o pagamento.
- Confirme a identidade do advogado: peça número da OAB e o e-mail cadastrado no Cadastro Nacional dos Advogado.
- Crie uma palavra-chave: combine com seu advogado uma palavra-chave para identificar com quem realmente fala.
- Não transfira dinheiro sem confirmação: nunca envie dinheiro para contas de pessoas físicas, desconfie de pedidos via PIX através de mensagens e redes sociais.