Rio - Funcionários da Eletronuclear, empresa que opera as usinas termonucleares de Angra dos Reis, na Costa Verde Fluminense, denunciaram o diretor administrativo Sidnei Bispo por racismo e assédio moral. Segundo relatos, ele teria feito ofensas a um superintendente negro durante reuniões.
A denúncia foi divulgada pela Globonews nesta sexta-feira (10). Segundo a vítima, que ingressou na estatal como auditor, Bispo iniciou o assédio moral em setembro de 2023. O funcionário ficou subordinado a Sidnei até janeiro de 2024, já atuando como superintendente - cargo de liderança na companhia -, até sofrer uma exoneração sem explicação, voltando para o cargo de auditor.
Nesse período, a vítima relatou que ouvia comentários depreciativos. Mesmo em reuniões que o funcionário não participava, Sidnei o ofendia com comentários racistas. O auditor soube do caso por meio de servidores, que o acompanharam na denúncia.
"Utilizava várias palavras de baixo calão: 'Está parecendo o samba do crioulo doido. Ele faz parte da galera da cozinha, né? Na situação dele, a coisa é preta'. Frases bem duras. Racismo estrutural, racismo recreativo e assédio moral. Bem evidente", disse a vítima à Globonews.
O funcionário está afastado desde dezembro do ano passado depois de ser diagnosticado com Síndrome de Burnout, que é um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultante de situações de trabalho desgastante. A principal causa da doença é justamente o excesso de trabalho.
A vítima protocolou a denúncia no Ministério da Igualdade Racial, por meio de sua ouvidoria. De acordo com o órgão, a manifestação foi encaminhada para a Controladoria-Geral da União (CGU), que tem competência para apurar esse tipo de conduta.
A acusação também foi enviada à Justiça do Trabalho e ao Ministério Público do Trabalho. Questionados, os órgãos ainda não responderam. O espaço está aberto para manifestação.
Em nota enviada ao DIA, a Eletronuclear destacou que repudia qualquer forma de assédio, discriminação ou racismo. Além disso, reforçou o seu compromisso permanente com a promoção de um ambiente de trabalho ético, respeitoso e em conformidade com as melhores práticas de governança e diversidade, ressaltando os princípios expressos em seu Código de Ética e Conduta.
"Todos os colaboradores da Eletronuclear participam de treinamentos periódicos sobre ética, integridade e diversidade, e a empresa mantém canais permanentes e sigilosos para o recebimento e apuração de denúncias, sob supervisão direta da alta administração. Desde 2005, a Eletronuclear também integra o Comitê Permanente para Questões de Gênero, Raça e Diversidade, vinculado ao Ministério de Minas e Energia, e já foi diversas vezes reconhecida com o Selo Pró-Equidade de Gênero e Raça, concedido pelo Governo Federal", diz o texto.
A companhia informou que a denúncia contra Bispo está sob análise judicial e tramita em segredo de justiça, razão pela qual a empresa está legalmente impedida de comentar detalhes do caso específico.
"Conduta hostil e desrespeitosa"
O Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Energia Elétrica nos municípios de Paraty e Angra dos Reis (Stiepar) publicou, neste sábado (11), uma nota de repúdio nas redes sociais dizendo que o combate ao racismo é "indispensável para construção de um ambiente corporativo ético, justo e igualitário".
"As denúncias relatadas pela vítima e por testemunhas revelam uma conduta hostil e desrespeitosa do diretor. Condutas estas incompatíveis com os valores que devem nortear uma empresa estratégica como a Eletronuclear. É inadmissível que práticas racistas encontrem espaço em uma instituição que tem o papel essencial para o desenvolvimento energético e tecnológico do país", destacou o sindicato.
O Stiepar pediu o afastamento imediato de Sidnei até que as investigações sejam concluídas.
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