O oftalmologista Gustavo Bonfandi diz que é importante o acompanhamentoDivulgação

Se em outras épocas a brincadeira entre colegas era de certa forma comum, incluindo os apelidos que quase todos já tiveram, hoje a situação é alarmante e chega a culminar em atos de crueldade, como o ocorrido com um aluno de 10 anos da Escola Municipal Leonel de Azevedo, na Ilha do Governador, Rio de Janeiro.O menino do 5º ano, que já era alvo de zombaria dos colegas por conta de um problema no olho, acabou perdendo a visão após levar um soco de um aluno mais velho. O trauma, com certeza, não irá passar tão cedo, mas a questão central é: o que fazer após a perda da visão ser constatada para garantir uma vida melhor ao aluno, tanto no aspecto físico quanto psicológico?
De acordo com o médico Gustavo Bonfadini - responsável Técnico Clínica Oftalmologia Especializada Ipanema, Especialista em cirurgia de Catarata pela Universidade de Johns Hopkins University – EUA, e Doutor em Oftalmologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) -  são muitos os cuidados que se deve ter após a perda da visão de um dos olhos.
"O atendimento médico deve ser imediato e multidisciplinar. Logo após o trauma, é fundamental realizar uma avaliação oftalmológica de urgência para identificar danos ao globo ocular, como descolamento de retina, hemorragias internas, perfurações, inflamações ou aumento de pressão intraocular. Em muitos casos, podem ser necessários exames complementares como ultrassonografia ocular, tomografia decoerência óptica (OCT) e tomografia ou ressonância da órbita".
O especialista explica ainda que durante a fase aguda o tratamento pode envolver medicações antinflamatórias, antibióticos, repouso visual e, em alguns casos, procedimentos cirúrgicos para reparar estruturas lesionadas. "Após a recuperação inicial, o acompanhamento com o oftalmologista é essencial, pois algumas complicações podem surgir tardiamente, como catarata traumática, glaucoma pós-trauma, cicatrizes na retina e perda progressiva da visão", diz.
O médico também recomenda suporte psicológico, já que a agressão e a perda visual têm efeitos emocionais profundos e duradouros. "Fisioterapia e terapia ocupacional também podem ajudar na readaptação funcional" , afirma.

Além dos cuidados físicos, também devem ser feitas adaptações em casa e na escola para facilitar a autonomia, inclusão e aprendizado da criança. "Em casa e na escola, é importante melhorar a organização espacial: evitar móveis com quinas expostas, manter corredores livres, garantir boa iluminação e posicionar materiais sempre no mesmo local, facilitando a orientação da criança. Na sala de aula, recomenda-se colocá-la em uma posição estratégica, preferencialmente do lado do olho saudável, para otimizar o campo visual disponível", explica o profissional.
Segundo ele, as atividades escolares podem ser ajustadas com materiais de maior contraste, fontes ampliadas, uso de tecnologias assistivas e pausas frequentes para descanso visual. Professores e funcionários devem ser orientados sobre a condição para evitar exposição desnecessária a esforços visuais, além de promover inclusão, acolhimento e apoio emocional para prevenir estigmatização e evitar novas situações de bullying. "Em alguns casos, acompanhamento com pedagogos, terapeutas ocupacionais e psicólogos auxilia no desenvolvimento global da criança e na construção de autoestima".
Impacto emocional
Do ponto de vista da saúde mental, a psicóloga Claudia Melo fala do impacto emocional que essa criança tem pela perda da visão, ainda mais por causa de bulluying. "Quando uma criança perde parcialmente a visão em decorrência de um ato violento, não é apenas o órgão que é atingido, é o corpo simbólico que sofre uma ruptura. A agressão se inscreve no psiquismo como um traço traumático, algo que irrompe antes que o aparelho psíquico tenha recursos suficientes para elaborar. A perda da visão compromete a forma como a criança se localiza no mundo e desorganiza a relação entre o Eu e o real. Isso pode gerar angústia, medo difuso, retraimento e uma sensação de desamparo" , diz ela, acrescentando que o trauma se torna um elemento difícil de simbolizar e pode retornar como sintomas: pesadelos, hipervigilância, regressões comportamentais e um sofrimento que não encontra palavras.
A profissional explica como essa agressão afeta a autoestima, o comportamento social e o desempenho escolar da criança. "Quando o corpo é ferido por um semelhante, a criança sofre um abalo duplo: no narcisismo e no laço social. Perder parte da visão altera a imagem que ela tem de si e interfere no processo de identificação, que é estruturante na infância. Essa ferida narcisista pode levá-la a se perceber como 'menos inteira' ou 'defeituosa',  produzindo retraimento e vergonha. No campo escolar, a lesão visual também desarranja a relação com o conhecimento. A leitura, a coordenação e a organização espacial passam a exigir mais esforço psíquico, o que pode resultar em queda de desempenho".
Claudia Melo também fala de como fica a interação com o próximo. "Já no convívio social, o trauma rompe a confiança no outro. A criança pode evitar grupos, se isolar ou adotar condutas defensivas como uma forma de proteger o Eu de novas invasões. A longo prazo, se não houver elaboração, isso pode consolidar um modo de funcionamento marcado pela insegurança e pela sensação de ameaça", pontua.
De acordo com a especialista, para prevenir situações como essa, a escola precisa funcionar como um espaço de inscrição simbólica, onde regras, afetos e conflitos possam ser trabalhados. "É necessário fortalecer práticas de mediação, escuta, acompanhamento psicossocial e responsabilidade compartilhada. Não basta punir: é preciso ofertar um lugar de palavra para que essas crianças possam simbolizar o que atuam" .
Ela acrescenta ainda que tanto a família e a escola são fundamentais no processo."Na escola, adaptações pedagógicas são importantes, mas também é fundamental garantir vínculos seguros: professores atentos, rituais previsíveis, proteção contra novas violências e reconhecimento de seus limites sem reforçar a posição de vítima. A família, por sua vez, precisa evitar excessos: nem superproteção, nem banalização. O essencial é que a criança tenha um Outro que a olhe sem invadir, e sem se ausentar, permitindo que ela reconstrua o Eu e recupere a confiança necessária para habitar o mundo novamente", finaliza.

O que é bullying? Trata-se de um comportamento agressivo, intencional e repetitivo praticado por um ou mais indivíduos contra outro(s), caracterizado por um desequilíbrio de poder real ou percebido, visando intimidar, humilhar ou causar dor à vítima, gerando sofrimento físico ou psicológico e podendo ocorrer presencialmente ou online (cyberbullying). Não é um conflito isolado, mas um padrão de agressão que se repete ao longo do tempo, seja por meio de agressões físicas, verbais, psicológicas ou sociais