Como na lenda grega, a operação dos Estados Unidos e de Israel visa decapitar a fera que mantém o mundo e o próprio Irã sob ameaça constante. Dará certo?
“Não haverá acordo com o Irã, a não ser a rendição total”. A frase dita pelo presidente Donald Trump não deixa dúvidas sobre a intenção dos Estados Unidos de levar até as últimas consequências a guerra que move contra o governo do Irã. Aliados a Israel, os Estados Unidos vêm, há uma semana, lançando bombardeios inclementes, que têm como alvo as principais posições militares iranianas e os líderes mais destacados do país. Só na sexta-feira, mesmo dia em que Trump exigiu a rendição total do regime, mais de 400 alvos iranianos foram atingidos e destruídos. Isso sem falar nos chefões do governo, que saíram de cena sob os ataques. O mais destacado deles foi o aiatolá Ali Khamenei. Até sábado retrasado, ele era o “líder supremo” do regime que sufoca o país persa há quase 50 anos. Agora não é mais.
É pouco provável que o governo do Irã, ou o que ainda resta dele, concorde com a rendição incondicional. Em compensação, é menos provável ainda que a ditadura, pelo menos na forma que tinha antes do início desta guerra, resista por muito tempo. Trump pretende — e certamente conseguirá — que algum iraniano confiável, que não seja alinhado com o regime dos aiatolás assuma o comando do país. A pergunta é: isso é suficiente? A resposta é: claro que não! Mudar a cabeça do regime não será a garantia de que o Irã se submeta e, de uma hora para outra, passe a funcionar de uma maneira completamente diferente da que funcionou nas últimas décadas.
O caminho será longo. Independentemente de quem venha a ocupar a cabeceira da mesa nas próximas semanas — ou, mais especificamente, depois que o presidente Masoud Pezeshkian sair, espontaneamente ou à força de sua cadeira — é de se esperar que o novo governante enfrente dificuldades terríveis. Isso porque a transformação do Irã em um país mais preocupado com o bem-estar da população do que em destruir aqueles que os aiatolás enxergam como a encarnação do mal — ou seja, os Estados Unidos e Israel — exige, mas não depende apenas disso, a substituição da cabeça do governo. O corpo inteiro está contaminado por meio século do fundamentalismo mais tacanho. Mas se a cabeça não for trocada, o corpo nunca irá se curar do mal que o aflige.
Não existe, nem em Teerã nem em qualquer cidade do Irã, uma única autoridade ou até mesmo um único funcionário público que não deva obediência aos dogmas impostos pelos aiatolás. Isso vale para os ministros de Estado como vale para os burocratas subalternos, que carimbam papéis nas repartições. Vale para o guarda na esquina como vale para o chefe de polícia de uma vila do interior. É bom repetir para que não haja dúvidas: não existe no Irã de hoje um único servidor público que não seja 100% alinhado com o regime. Não há entre eles um único ser humano que não recite de cor a mesma lenga-lenga que vem sendo repetida pelos aiatolás desde que chegaram ao poder, em 1979. E essa lenga-lenga é: os Estados Unidos são o grande Satã; Israel é o pequeno Satã e, por vontade divina, os dois precisam desaparecer da face da terra.
A HIDRA DE LERNA — Reconstruir o Irã e fazer com que o Estado passe a enxergar o mundo de uma forma diferente exigirá anos, talvez décadas. Mas esse processo só terá início com a remoção da cabeça da fera que controla o país. As ditaduras sob ataque costumam agir como a Hidra de Lerna, o monstro abatido pelo herói Hércules no segundo dos 12 trabalhos reservados a ele na mitologia grega. A Hidra era um animal medonho, tão peçonhento que costumava matar os adversários apenas com o fedor do bafo que exalava. Ela tinha sete cabeças, presas a um corpo de dragão. Como nas ditaduras, se uma delas era decepada, outra surgia imediatamente para ocupar o seu lugar. Hércules só conseguiu eliminar o animal depois de contar com a ajuda de um sobrinho para atear fogo e impedir que novas cabeças surgissem no lugar daquelas que ele ia arrancando. Ao que tudo indica, é mais ou menos isso que os Estados Unidos e Israel estão fazendo neste momento no Irã.
Em entrevista à imprensa na quarta-feira passada, o Secretário da Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, disse ter plena consciência de que esta guerra é uma disputa entre forças desiguais. Mas que, mesmo assim, não faz a mínima questão de aliviar a carga sobre o inimigo. “Estamos batendo enquanto eles estão caídos e vamos continuar atacando até decidir que está bom”, disse.
O recado não poderia ser mais claro: a ditadura abalada pelos bombardeios não pode se recuperar. A guerra não é contra o Irã, mas contra o regime — e só terminará quando for destruído todo o aparato de opressão montado pelos aiatolás. Esse aparato permitiu que a ditadura se impusessem pelo medo sobre a própria população. E mantivesse sob ameaça permanente os países que considerava inimigos: não apenas os Estados Unidos e Israel, mas qualquer um que os apoiasse. Eliminado na primeira leva de ataques, Khamenei era o sucessor do fundador e primeiro chefão da ditadura iraniana, o aiatolá Ruhollah Khomeini, e, desde 1989, a cabeça principal de uma das tiranias mais longevas e sanguinárias da era moderna.
Fundamentalista até o último fio da barba, ele foi o principal responsável pelo endurecimento do regime teocrático sobre duas características básicas. Da fronteira para dentro, subjugou e obrigou a própria população a viver sob regras medievais. Qualquer desvio de conduta é punido com prisão, torturas e morte. Gays foram atirados do alto de edifícios pelo fato de serem gays. Mulheres eram — e ainda são — açoitadas em praça pública por deixarem parte dos cabelos expostos sob o hijab, o véu muçulmano que deve cobrir toda a cabeça. Das fronteiras para fora, o objetivo declarado sempre foi o de varrer o Estado de Israel do mapa e incomodar os Estados Unidos até o limite de sua possibilidade.
As lembranças das atrocidades cometidas pelo regime podem até parecer secundárias neste momento em que o Irã está sob um ataque de proporções que o próprio secretário Hegseth classificou como “devastadoras e impiedosas”. Mas é justamente por ter feito o que fez e ter se tornado a ameaça que se tornou que o Irã está sentindo o peso dos ataques inclementes. É justamente por causa do terror que sempre impôs e das ameaças espalhou ao longo de décadas que o regime dos aiatolás se tornou alvo e será derrotado pela maior potência militar do planeta.
PRINCIPAIS MANDACHUVAS — É bem verdade que a ditadura iraniana jamais teve força para concretizar suas ameaças nas proporções que anunciava. Mas se tivesse a oportunidade, certamente a aproveitaria. A intenção dos Estados Unidos, com o atual conflito, é abater a Hidra antes que ela tivesse as condições de espalhar seu bafo sobre os inimigos. A ditadura nunca escondeu a intenção de pôr em prática seu cardápio de maldades e, com o esforço para construir sua bomba nuclear, talvez tivesse condições de cumprir suas ameaças mais extremas.
Grande produtor de petróleo, o país, ao invés de utilizar suas riquezas em benefício do próprio povo, se valeu delas para financiar os terroristas do Hamas e do Hezbollah em sua jihad contra Israel. O dinheiro, que vinha se tornando escasso com as sanções econômicas impostas ao país pelo Ocidente, era utilizado, também, para financiar a tentativa de se firmar como uma potência atômica. A soma de todas as provocações e ameaças feitas pelo regime acabaram esgotando a paciência dos adversários.
Em tempo: os Estados Unidos e Israel sempre deixaram claro que não aceitariam que o Irã ultrapasse a linha que separa o campo das bravatas do terreno das ameaças reais. Sinais de alerta sobre as consequências dessa ultrapassagem foram dados com insistência. Mas o regime sempre fez questão de ignorar os avisos. E sempre fez questão de vender a ideia de que dispunha de poder, recursos, soldados, mísseis, foguetes, navios, aviões e capacidade de produção e, sobretudo, disposição suficientes para fazer frente aos exércitos mais poderosos do mundo.
Nem mesmo a Guerra dos 12 Dias que, em junho passado, causou danos severos nas instalações nucleares do país, fez com que Khamenei e seus asseclas contivessem a língua e deixassem de lançar ameaças contra os Estados Unidos e Israel. A consequência dessa postura sempre agressiva é a que está sendo visto agora no Irã. Os ataques liderados pelos Estados Unidos e apoiados por Israel durante a semana passada miraram, além do “líder supremo”, os principais e mais poderosos chefões da ditadura. Entre os principais mandachuvas, apenas um, o presidente Masoud Pezeshkian, sobreviveu até aqui.
Mais de 50 integrantes dos escalões mais altos do regime, das forças armadas e dos grupos terroristas aliados foram neutralizados antes que o conflito completasse uma semana. Houve, como em toda guerra, danos indesculpáveis à população civil. A notícia não confirmada do ataque a uma escola de meninas causou entre os apoiadores que a ditadura ainda tem ao redor do mundo mais indignação dos que as cerca de 60 mil (isso mesmo! 60 mil!) mortes entre os manifestantes que, nos últimos meses, saíram às ruas protestar contra a ditadura.
Um conselho formado pelo sobrevivente Pezeshkian, pelo chefe do Judiciário (sim! O Irã tem um poder Judiciário em funcionamento!), Gholam Hossein Mohseni Ejeie e por um aiatolá chamado Alireza Arafi foi formado para substituir Khamenei até que os clérigos indiquem o nome do sucessor.
NOVA ORDEM GEOPOLÍTICA — A questão não é o resultado da disputa, mas o que acontecerá no desdobramento dessa guerra. A primeira dúvida diz respeito à duração do conflito. Depois de conversar longamente por telefone com o primeiro-ministro de Israel, Benjamim Netanyahu, na quarta-feira passada, o senador americano Lindsay Grahan, do partido Republicano, um político veterano do estado da Carolina do Sul, anunciou: “Em minha opinião, a questão não é se o regime do Irã cairá — mas apenas quando”. Outra dúvida, tão importante quanto essa, é: como o regime sairá de cena? Pedirá para sair ou será arrancado à força?
Outra dúvida diz respeito às lideranças que assumirão o governo iraniano caso a resistência dos aiatolás desmorone dentro das quatro ou cinco semanas que o presidente Trump previu para a duração do conflito. No mesmo comunicado em que anunciou a morte de Khamenei, no domingo passado, Trump afirmou que “esta é a maior oportunidade que o povo iraniano tem de recuperar seu país”. Muita gente, no entanto, não acredita que o regime desmorone sem um empurrão definitivo. E esse empurrão só viria caso os exércitos dos Estados Unidos ponham os pés no Irã e ocupem as ruas da capital Teerã e das outras cidades do país. A dúvida está justamente aí. Será que os militares americanos, como aconteceu no Iraque e no Afeganistão, chamarão para si a responsabilidade de ocupar o território e ainda assumir a responsabilidade pela administração do país depois que os aiatolás foram afastados? O que os Estados Unidos teriam a ganhar com isso?
Entre os críticos dos Estados Unidos e de Israel não faltou quem, na semana passada, comparasse os efeitos de uma invasão terrestre ao Irã àquilo que aconteceu em incursões anteriores do exército americano a países contra os quais lutou nas últimas décadas. Uma das comparações mais frequentes tem sido com o Vietnam — onde uma reação popular vigorosa, com apoio militar e material da União Soviética e da China — impôs ao maior país do mundo, na década de 1970, uma derrota sem precedentes.
As imagens dos navios abarrotados de civis americanos e vietnamitas, evacuados pelo porto da capital Saigon (que, depois, foi rebatizada como Cidade Ho Chi Minh em homenagem ao líder comunista do Vietnam) servem até hoje para ilustrar a tese de que, muitas vezes, o poderio militar superior não é suficiente para assegurar a vitória de um exército contra um povo inteiro. Deflagrada nos dias 29 e 30 de abril de 1975, a operação Frequent Wind tirou do Sudeste Asiático cerca de 7000 pessoas. Se elas ficassem por lá, certamente seriam executadas pelas tropas comunistas que estavam prestes a dominar a cidade. Aí é que está a diferença. Naquele conflito que visava unicamente conter a expansão do comunismo pelo mundo, os exércitos americanos invadiram o país e oprimiram e subjugaram a população na tentativa de chegar aos cabeças do conflito. Sob uma orientação equivocada, cometeram um erro atrás do outro. E assim, perderam o apoio da população local e não atingiram o objetivo que tinham. No Irã, a situação é completamente diferente. Os alvos não são o país nem sua população civil. Os alvos são os cabeças do regime e a ameaça que eles representam.
A ideia é eliminar o regime, trazer o país para o Século 21, reinseri-lo no mercado mundial de petróleo, fazer dele uma peça importante no novo cenário geopolítico global e fazer com que ele utilize sua riqueza não para ameaçar os inimigos, mas para melhorar a vida do próprio povo. Dará certo? O tempo dirá, mas a possibilidade de que isso aconteça existe e não dever ser desperdiçada.
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