Carlos Augusto Gomes, conhecido como "Mineiro", integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)Reprodução

São Pedro da Aldeia - Após 40 horas de sessão no Fórum de São Pedro da Aldeia, o Tribunal do Júri decidiu, por unanimidade, absolver os três policiais militares acusados da morte de Carlos Augusto Gomes, conhecido como “Mineiro”, integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O julgamento, considerado o mais longo da história da comarca, encerra um processo que se arrastava desde 2020 e ganhou projeção nacional por envolver disputa agrária, ação armada e acusações de execução.
A morte de Mineiro ocorreu em julho de 2020, durante um confronto armado no Acampamento Emiliano Zapata, localizado em parte da Fazenda Negreiros, área de disputa entre posseiros e o proprietário do terreno. Segundo a Polícia Civil, o crime teria sido motivado por um conflito fundiário iniciado cerca de 15 anos antes, quando parte da fazenda foi desapropriada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e ocupada por famílias assentadas.
Na ocasião, o proprietário das terras, Matheus Canellas Ramos, foi ao local acompanhado dos policiais militares Renato da Silva Bráz e Ênio Alves Leão, todos fora de serviço. A investigação apontou que os três participaram de um ataque ao acampamento, no qual uma casa foi incendiada e Mineiro foi alvejado por quatro disparos de arma de fogo. O Ministério Público sustentava que o crime foi uma execução motivada por retaliação à ocupação da área.
Durante o julgamento, porém, a defesa dos PMs sustentou a tese de legítima defesa e apontou fragilidades na denúncia. Um dos policiais passou 40 dias em coma após o episódio. A estratégia dos advogados incluiu ainda a menção a um terceiro homem, identificado apenas como “Tião”, que teria papel direto no confronto e nunca foi formalmente investigado. A ausência de provas técnicas conclusivas e contradições nos depoimentos das testemunhas levaram o júri à absolvição dos militares.
Inicialmente, os três acusados chegaram a ser presos temporariamente. O fazendeiro foi detido em seu apartamento, onde foram encontradas armas de fogo, munições, capuz, colete e um adesivo com o distintivo da Polícia Federal. Já os PMs foram presos no Hospital Estadual Roberto Chabo (HERC), em Araruama, feridos após o confronto. Ao longo da tramitação do processo, todos acabaram sendo libertados por decisões judiciais.