PF deflagra 60ª fase da Lava Jato em São Paulo

Operador do PSDB Paulo Preto é preso e ex-ministro das Relações Exteriores Aloysio Nunes (PSDB) é alvo de mandado de busca e apreensão; objetivo é apurar esquema de lavagem de dinheiro da Odebrecht que favorecia campanhas

Por O Dia

Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da Dersa, volta a ser preso pela Lava Jato
Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da Dersa, volta a ser preso pela Lava Jato -

São Paulo - O operador financeiro ligado ao PSDB Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, foi preso na manhã desta terça-feira em São Paulo em operação deflagrada pela Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Receita. Denominada 'Ad Infinitum', a 60ª fase da Lava Jato também teve o ex-ministro das Relações Exteriores e ex-senador pelo PSDB Aloysio Nunes como um dos alvos de mandado de busca e apreensão.

Um total de 46 policiais federais cumpriram 12 mandados de busca, além da ordem de prisão preventiva na capital, São Paulo, e nas cidades paulistas de São José do Rio Preto, Guarujá e Ubatuba.

Paulo Preto foi encaminhado à superintendência da PF, em Curitiba. O ex-diretor da Dersa já foi indiciado em outras fases da Lava Jato e é suspeito de ter fornecido grande parte dos recursos para a Odebrecht. Os mandados foram expedidos pela 13ª. Vara Federal de Curitiba (PR).

Ex-executivos das empreiteiras Odebrecht, OAS e Andrade Gutierrez relataram à Polícia Federal terem feito repasses de 0,75% ao ex-diretor da Dersa no âmbito da construção do Rodoanel. Em cooperação com autoridades Suíças, a Lava Jato descobriu conta atribuída a Souza com R$ 113 milhões não declarados.

Endereços ligados ao ex-ministro das Relações Exteriores e ex-senador pela PSDB Aloysio Nunes Ferreira são alvos de mandados de busca e apreensão - Fabio Rodrigues Pozzebom / Arquivo / Agência Brasil

Segundo a Lava Jato, as investigações indicaram a atuação do ex-diretor da Dersa como operador financeiro com importante papel num complexo conjunto de operações de lavagem de dinheiro em favor da empreiteira Odebrecht.

Os procuradores afirmam que Paulo Vieira de Souza "disponibilizou, a partir do segundo semestre de 2010, R$ 100 milhões em espécie a Adir Assad no Brasil". O operador, por sua vez, teria entregue os valores ao Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, aos cuidados do doleiro Álvaro Novis. O doleiro, de acordo com a Lava Jato, realizava pagamentos de propinas, a mando da empresa, para vários agentes públicos e políticos, inclusive da Petrobras.

A força-tarefa da Lava Jato aponta que, no mesmo período que se seguiu à entrega dos valores em espécie por Paulo Vieira de Souza para a Odebrecht, propinas foram pagas pela empreiteira, em espécie, para gerentes e diretores da Petrobras: Djalma Rodrigues, Maurício Guedes, Roberto Gonçalves, Paulo Roberto Costa, Pedro Barusco e Sérgio Machado.

A investigação destaca que, em contraprestação à entrega de valores em espécie por Paulo Vieira de Souza e Adir Assad ao Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht no Brasil, o departamento de propinas da empreiteira transferiu dezenas de milhões de dólares para as contas do doleiro Rodrigo Tacla Duran no exterior.

Segundo a Lava Jato, Tacla Duran, depois de descontar as suas comissões e as de Adir Assad, devidas pela lavagem do dinheiro, ficava incumbido de fazer chegar às contas de Paulo Vieira de Souza os recursos a ele devidos.

A Operação Lava Jato também aponta que "existiram transações ilícitas entre os investigados em momento anterior, a partir de 2007". De acordo com os investigadores, em 26 de novembro de 2007, por intermédio da offshore Klienfeld Services Ltd, a Odebrecht transferiu 275.776,04 de euros para a conta controlada por Paulo Vieira de Souza, em nome da offshore Grupo Nantes, na Suíça.

A apuração identificou que, no mês seguinte, a partir da referida conta de Vieira de Souza, foi solicitada a emissão de cartão de crédito, vinculado à sua conta, em favor de Aloysio Nunes Ferreira Filho. O banco foi orientado a efetuar a entrega do cartão de crédito no Hotel Majestic Barcelona, na Espanha, para Aloysio Nunes Ferreira Filho, que estaria hospedado no hotel entre 24 de dezembro de 2007 e 29 de dezembro de 2007.

Foram identificados ainda depósitos efetuados, no ano de 2008, por contas controladas pela Andrade Gutierrez e Camargo Correa, em favor da mesma conta controlada por Paulo Vieira de Souza na Suíça, no valor global aproximado de US$ 1 milhão.

Caixas-pretas

O procurador da República Júlio Noronha afirma que "a Lava Jato, prestes a completar seu aniversário de cinco anos, ainda investiga várias caixas-pretas que precisam ser abertas".

"Para que essas caixas possam ser abertas é fundamental que as apurações sobre corrupção não sejam deslocadas para a Justiça Eleitoral e que a execução das penas pelos agentes corruptos não seja postergada indefinidamente. Isso dificultaria as investigações e promoveria a impunidade, desestimulando a colaboração com a justiça e favorecendo aqueles cujos crimes ainda são mantidos em segredo. É importante que a sociedade, por isso, participe do debate sobre essas questões que serão julgadas pelo STF nos próximos dois meses", destaca.

As investigações são amparadas por documentos apreendidos em fases anteriores, provas fornecidas pela Odebrecht no seu acordo de leniência, incluindo mensagens trocadas entre os investigados na época dos fatos (registradas no sistema "Drousys", usado pelo setor de propinas da empreiteira), depoimentos de colaboradores, relatórios de informação da Assessoria de Pesquisa e Análise da força-tarefa, extratos e documentos de transferências de contas estrangeiras e nacionais.

"Nesse contexto, foi fundamental a obtenção de evidências mediante a cooperação internacional entre o Brasil e quatro países: Suíça; Espanha, Bahamas e Cingapura", informa o Ministério Público Federal.

O procurador da República Roberson Pozzobon destaca que "ao longo de quase cinco anos a Operação Lava Jato vem, fase após fase, montando quebra-cabeças de grandes esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro no País".

"A sexagésima operação Lava Jato investiga complexo esquema de lavagem da Odebrecht de mais de uma centena de milhões de reais, no Brasil e no exterior, por pelo menos cinco operadores financeiros, entre os quais Paulo Preto (Paulo Vieira de Souza). Parte das peças desse grande quebra-cabeça foram obtidas pelo MPF a partir de acordos de leniência e de colaboração premiada, cooperações internacionais com quatro países, análise e relacionamento de provas obtidas em buscas e apreensões de fases anteriores da Lava Jato e afastamentos de sigilos fiscal e bancário. Os mandados de busca e apreensão que estão sendo cumpridos hoje visam a obter outras peças dessa gigantesca figura criminosa", declara.

A Lava Jato afirma que "há risco significativo e iminente, a um só tempo, para a ordem pública e para a aplicação da lei penal, o que torna a prisão de Paulo Preto imprescindível".

"De fato, sua custódia é necessária em razão da gravidade concreta dos crimes de lavagem de dinheiro relacionado à corrupção, que envolveram mais de uma centena de milhões de reais, da reiteração e habitualidade na prática de crimes por mais de uma década, na atualidade da lavagem de dinheiro e na sua atuação deliberada para impedir o bloqueio e confisco de valores ilícitos", destaca Ministério Público Federal.

"Em relação ao último aspecto, é relevante notar que, em dezembro de 2016, quando o acordo da Odebrecht se tornou público, Paulo Preto mantinha cerca de US$ 34 milhões na Suíça, país que notoriamente tem cooperado com a Lava Jato. Logo em seguida, no primeiro trimestre de 2017, Paulo Preto encerrou as contas suíças e remeteu os recursos para Bahamas, impedindo assim um iminente bloqueio de valores que são fruto de atividade criminosa."

A força-tarefa informou que sua apuração concentra-se na atuação de Paulo Vieira de Souza como operador financeiro que atuou na cadeia de lavagem de dinheiro em favor da Odebrecht. O ex-diretor da Dersa é alvo de ações penais em São Paulo.

"Não é objeto da investigação no Paraná a sua atuação como ex-funcionário público do Estado de São Paulo, de responsabilidade de autoridades que atuam naquele Estado", assinalou.

Defesas

A reportagem ainda não conseguiu contactar os citados.

*Com Estadão Conteúdo

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Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da Dersa, volta a ser preso pela Lava Jato Reprodução/ TV Senado
Endereços ligados ao ex-ministro das Relações Exteriores e ex-senador pela PSDB Aloysio Nunes Ferreira são alvos de mandados de busca e apreensão Fabio Rodrigues Pozzebom / Arquivo / Agência Brasil

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