Ministério da Saúde afirma que 'errou' ao pedir R$ 410 bilhões a Paulo Guedes

Correção foi elaborada após o presidente Jair Bolsonaro questionar o ministro Mandetta sobre o valor solicitado a Paulo Guedes, diz jornal

Por ESTADÃO CONTEÚDO

Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante videoconferência com governadores do Sudeste
Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante videoconferência com governadores do Sudeste -
Brasília - O Ministério da Saúde informou nesta quinta-feira que "errou" ao afirmar em documento oficial enviado ao Ministério da Economia que precisaria de R$ 410 bilhões extras para enfrentar a pandemia do novo coronavírus no Brasil pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo a assessoria da pasta, o valor correto é de R$ 10 bilhões. O jornal O Estado de S. Paulo revelou que a pasta enviou na última terça-feira um ofício assinado pelo ministro Luiz Henrique Mandetta relatando a necessidade de aporte de recursos. O documento foi encaminhado para o ministro Paulo Guedes.

Em nota, o ministério disse que colocou o número quatro onde deveria estar um cifrão. No documento, contudo, há um cifrão antes do número quatro.
"Esclarecemos que, de fato, a cifra consta em documento preliminar enviado ao Ministério da Economia com vistas à negociação de empréstimo junto ao Banco Mundial. Porém, o valor está errado. Trata-se de um erro material. O valor estimado correto seria R$ 10 bilhões. O algarismo "4" foi escrito por engano - deveria ser um cifrão, que fica na mesma tecla do '4'. O erro passou despercebido na revisão do documento. O Ministério da Saúde solicitou ao Ministério da Economia na manhã desta quinta-feira a devolução do estudo para as correções devidas", informou o Ministério da Saúde.

O Estado apurou que a nota foi elaborada após o presidente Jair Bolsonaro questionar o ministro Mandetta sobre o valor solicitado a Paulo Guedes. Bolsonaro tem minimizado a pandemia do novo coronavírus. Ele já disse várias vezes que se trata de uma "gripezinha". O discurso do Ministério da Saúde contraria o do presidente e, no documento, a pasta chega a estimar que 10% da população brasileira pode ser infectada.

Apenas para estas internações, a equipe da saúde espera gastar R$ 9,3 bilhões. No documento enviado a Guedes, a pasta reconhece que a cifra é bastante subestimada.

Bolsonaro, em discurso nos últimos dois dias, já criticou, inclusive, o isolamento das pessoas como uma forma de combate à doença, por considerar que há uma "histeria" no tratamento do assunto.

O Estadão procurou a assessoria do Ministério da Saúde, questionando o valor de R$ 410 bilhões por duas vezes. Nas ocasiões, em nenhum momento, a pasta questionou o valor. O jornal também conversou com técnicos do primeiro escalão do ministério que participaram da elaboração do documento. Também não houve qualquer contestação da cifra.

Doença pode custar R$ 410 bilhões ao SUS, estima o Ministério da Saúde

O documento apontava que a covid-19 pode exigir R$ 410 bilhões a mais dos cofres públicos para que o Sistema Único de Saúde (SUS) consiga atender a população infectada. A projeção está registrada em documento, obtido pelo jornal O Estado de S. Paulo, enviado na terça-feira pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a Paulo Guedes, da Economia.

Para chegar à cifra de R$ 410 bilhões, a equipe da Saúde projeta, por exemplo, o custo de R$ 9,31 bilhões para internações, caso 10% da população seja contaminada. O valor é "conservador", segundo o mesmo documento, "sendo necessário, assim, um aporte maior de recursos emergenciais". O orçamento do Ministério da Saúde previsto para todas as ações da pasta neste ano é de cerca de R$ 125,5 bilhões. O documento enviado a Guedes afirma que, "como na maioria dos países", os números de infectados no Brasil têm crescido de forma exponencial. "E há indícios de que estejam subestimados."

A Saúde ainda alerta que a prevenção de uma epidemia se torna mais desafiadora e cara quando há falhas na prevenção de surtos. "A mitigação da epidemia continua sendo a única opção política. Atrasos na detecção e controle são, em última análise, muito caros, porque os custos de contágio e mitigação crescem exponencialmente."

Urgência

Os dados sobre o impacto orçamentário da crise pela covid-19 foram expostos como parte de justificativa para elaborar um projeto com financiamento de US$ 100 milhões (R$ 503 milhões, considerando a atual taxa de câmbio) do Banco Mundial para compra de testes de diagnóstico, custeio de serviços "pré-clínicos" e contratação de equipes de saúde para atuarem emergencialmente.
Mandetta afirma a Guedes que o apoio do Banco Mundial permitirá dar "maior celeridade" nos processos de compras e contratações para combater a covid-19. "Ressalto a necessidade de urgência de apreciação do pleito", escreveu. Uma das ideias do governo é usar a parceria com o banco para adotar no País serviço de telemedicina para atendimentos de triagem de pacientes com sintomas. Para isso, seriam investidos US$ 10 milhões (R$ 50,3 milhões).

A Saúde também considera "urgente" a busca por profissionais da área. A ideia é usar US$ 62,4 milhões (R$ 313,8 milhões) para contratar emergencialmente, especialmente para atuar durante três meses em centros de terapia intensiva (CTIs). A pasta quer ainda recursos do banco para compra de milhares de testes de diagnóstico. O governo anunciou na terça-feira que pretende ter mais de 22 milhões de dispositivos para exames. O projeto prevê a compra de testes para 1,53 milhões de pessoas sintomáticas, no valor de US$ 27,6 milhões.

A proposta obtida pelo Estado afirma que os testes rápidos da doença devem ser usados como "ferramenta para auxílio no diagnóstico". "Resultados negativos não excluem a infecção por SARS-CoV-2 e resultados positivos não podem ser usados como evidência absoluta. O resultado deve ser interpretado por um médico com auxílio dos dados clínicos e outros exames laboratoriais confirmatórios", diz o documento.

Procurado, o Ministério da Saúde confirmou que pediu um financiamento ao Banco Mundial de US$ 100 milhões para ações de combate ao novo coronavírus, mas não explicou o cálculo para chegar ao montante do SUS que a crise pode exigir. O Ministério da Economia, por sua vez, disse que o assunto deve ser tratado com a Saúde.

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