Fernanda Torres fala sobre ditadura no Brasil e na ArgentinaReprodução/X

A atriz Fernanda Torres, que recentemente recebeu o Globo de Ouro como melhor atriz por seu trabalho em 'Ainda Estou Aqui', respondeu a perguntas em um teatro em Nova York nesta segunda-feira (13). A artista falou sobre a ditadura brasileira, período que é retratado no filme, e alertou que o "fantasma voltou à vida".
"No Brasil, a ditadura durou 21 anos. E quando os militares decidiram que era hora de terminar, eles ainda estavam no comando", disse.
Logo em seguida, ela fez uma comparação com a ditadura vivida na Argentina, que apesar de ter sido "terrível", segundo ela, durou muito menos tempo, de 1976 a 1983. Ela também citou que os prejuízos militares na da Guerra das Malvinas facilitaram a queda daquele regime.
"No Brasil, houve um acordo: nós [os militares] perdoamos vocês, e vocês esquecem o que aconteceu durante a ditadura. Mas esse fantasma vem à tona novamente e voltou à vida", declarou, fazendo alusão aos perigos de uma nova ditadura.
O cineasta Walter Salles, que dirigiu o filme, afirmou que entendia que o Brasil estava caminhando para a extrema-direita e que isso aumentou a urgência do filme: "Percebemos que não era apenas sobre o passado, mas sobre quem somos hoje".
Ditadura e vítimas

A ditadura militar se estendeu de 1964 a 1985. O período em que o país foi controlado por militares é marcado por repressão, censura à imprensa, restrição aos direitos políticos e perseguição aos opositores do regime.
A Comissão Nacional da Verdade reconheceu 434 mortes e desaparecimentos durante a ditadura militar. A Comissão Camponesa da Verdade também reconheceu o impacto da ditadura para os povos do campo e apresentou, em 2015, um relatório que lista 1.196 camponeses e apoiadores mortos ou desaparecidos entre 1961 e 1988.

Filme

Ainda Estou Aqui conta a história da família Paiva, que em 1971, com o endurecimento da ditadura militar, precisa enfrentar o desaparecimento e assassinato de Rubens Paiva, engenheiro civil e político brasileiro. A história é contada do ponto de vista de quem fica, a esposa Eunice Paiva, interpretada por Fernanda Torres.

O Globo de Ouro da atriz chamou novamente a atenção para o filme que vem batendo recordes de bilheteria e fazendo sucesso tanto no Brasil quando fora do país. A premiação por melhor atriz em Ainda Estou Aqui ocorreu na semana em que os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 completaram dois anos.
Se por um lado a aceitação do filme mostra o interesse da população pelo que ocorreu na ditadura e a importância da preservação da memória e da reparação às vítimas e às famílias pelos crimes cometidos no período, os atos recentes representam um ataque à democracia.